OBRAS RARAS


VISITA AO MUNDANEUM

Paul Otlet, Henry La Fontaine e o Mundaneum não são assunto desconhecido no Brasil. Ao contrário. Muitas pesquisas têm explorado, por vários ângulos, a riqueza do legado dos advogados belgas para a humanidade. Criado em Bruxelas no início do século XX, o Mundaneum hoje habita Mons, pequena e aprazível cidade localizada a oeste da capital da Bélgica. Como se sabe, o objetivo do grande centro de documentação criado era reunir, organizar e compartilhar informação de todos os países e suas culturas, estabelecendo laços de união entre os povos.

 

Fisicamente, em Mons, até recentemente o Mundaneum era composto por um prédio principal e outros adjacentes. Estes, no momento, estão em processo de demolição para a construção de um novo, maior, que armazenará a coleção, exposições e funcionários. O prédio principal também passa por obras de modernização. Os catálogos de Paul Otlet, tão vistos em várias fotografias, estão sendo bem preservados durante a obra, com aquecimento interno e, em especial, desumidificadores, uma vez que a Bélgica é bastante úmida.

 


Vista, do segundo andar do Mundaneum, dos prédios que serão demolidos.

 

Os arquivos (todos raros, claro) do Mundaneum incluem cerca de seis quilômetros de documentos existentes desde a criação do Instituto Internacional de Bibliografia. Temporariamente, se encontram em outro prédio, no centro histórico de Mons, onde se pode ver, organizada, a documentação pessoal dos advogados, coleção de posters, cartões postais, fotografias, negativos em vidro, além de documentos inseridos posteriormente na coleção por outras pessoas. Os assuntos gerais mais representativos são pacifismo, feminismo e anarquismo.

 

Ao falar sobre um sistema capaz de acessar informação de todo o mundo, os mais jovens imediatamente pensarão no Google. Porém, muitas décadas antes do aparecimento da internet, Otlet e La Fontaine, unidos pelo interesse comum em Bibliografia, criaram o Mundaneum. Não poderiam imaginar que, em 2012, para o bem ou para o mal, uma parceria seria estabelecida com empresa envolvida em polêmicas relacionadas ao acesso à informação. Mas fato é que uma ponte entre o passado e o presente, entre o Mundaneum e o Google, está efetivada. A empresa, aos poucos, tenta se aproximar da comunidade de língua francesa. Ao que parece, pelo menos num primeiro momento, a participação do Google se dará por meio de conferências e exposições. 



O totem está localizado no atual prédio do Arquivo do Mundaneum

 

Em 2015, Mons será a capital da cultura europeia. Desde 2013, pelo menos, a cidade se prepara para a ocasião, quando milhares de visitantes lotarão os hotéis, restaurante e, em especial, os museus – muitos dos quais estão fechados para reforma, aliás, em todo o país. Na realidade, a Bélgica realiza melhorias em todos os níveis, como aeroportos e estradas, para citar dois exemplos. Uma curiosidade: até então, eu não havia visto tantos museus fechados e, ao mesmo tempo, tantas coleções disponíveis para visitação. A fim de atender à demanda sempre grande, vários museus belgas fechados no ano passado para renovação disponibilizaram partes importantes de suas coleções em outros museus, igrejas ou instituições similares. Assim, em Bruges, visitei em apenas um museu três coleções de pintores clássicos flamengos.

 

Mas antes que a casa de Otlet e La Fontaine receba os convidados, neste 2014 Otlet é celebrado internacionalmente. São 80 anos do Traité de Documentation e 70 de falecimento. Algumas instituições, nos Estados Unidos e na Europa, farão homenagens ao grande idealizador de uma rede de informação e conhecimento capaz de unir o mundo e, assim, permitir a paz entre os homens.

 


Portão de entrada do museu ( setembro de 2013)


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.