ARTIGOS E TEXTOS


BIBLIOTECÁRIO ESCOLAR: SEU PERFIL, SEU FAZER

Quando falamos em Perfil de um profissional, ocorre-nos, em primeiro lugar, a ideia de um elenco de características imprescindíveis para quem deseja atuar e exercer determinada profissão. Essas características, no entanto, são entendidas de maneira fechada, quase que pressupostos, sendo que a falta de qualquer uma delas acarreta na desqualificação de uma pessoa para a profissão pretendida. O problema maior não está nas características propriamente, mas na rigidez como são definidas e defendidas.

É dessa forma, com algumas variações, que a literatura sempre tratou o assunto, ao menos na área da Biblioteconomia e da Ciência da Informação. Mesmo fora dela, alguns textos – entre os poucos que procuramos pois não era essa a nossa preocupação imediata – também enveredam por essa ditadura profissional: as características determinam a qualificação profissional. Soma-se a isso, nesses casos, o agravante representado pelo total desconhecimento das funções, atribuições, trabalhos, atividades, ações, enfim, do fazer bibliotecário. O perfil do bibliotecário é construído a partir de um estereótipo (ALMEIDA JÚNIOR,1995), da ideia presente no senso comum da sociedade sobre a atuação desse profissional. O livro de Pierre Weil (1997) pode servir de exemplo e corroborar com o que acabamos de afirmar. Nele, elencando as qualidades necessárias para o exercício da Biblioteconomia, o autor afirma que o candidato a atuar nessa área não pode sofrer de “sudorese”. Pode-se incluir entre os não-qualificativos, acompanhando o autor e na certeza de que tal inclusão tenha sido mero esquecimento dele, o mau-hálito, o mau cheiro nos pés e outras variantes.

Pensávamos, anos atrás, acompanhando a forma como eram tratados os perfis profissionais, quando nos referíamos ao bibliotecário, em uma relação de itens pessoais vinculados às ações demandadas pelo exercício da biblioteconomia. Esse ponto parecia imprescindível nas análises e definições do perfil de um profissional. A falta de algum deles em uma determinada pessoa, como dizíamos, implicaria em uma dissociação, em uma não interação entre a escolha e as condições pessoais para exercê-la. Exemplos não faltam: afirmávamos que um profissional bibliotecário precisaria gostar de ler. Hoje, sabemos que a leitura para esse profissional é imprescindível, mas o gosto por ela talvez seja necessário apenas para aqueles que exercem ou irão exercer alguns cargos específicos.

Outros exemplos: no perfil do bibliotecário seria necessário constar características tais como, entre outras,

- Organização 
- Paciência
- Simplicidade
- Humildade
- Simpatia

Muitas dessas características são até hoje requisitadas por empresas, em especial aquelas que pouco esperam da atuação do bibliotecário.

Poderíamos acrescentar um outro atributo muito exigido pelos empregadores de bibliotecários: a pró-atividade. Pede-se algo cujo significado não está muito claro, O que seria “pró-atividade”? É alguém com iniciativa? Então por que não empregar o termo “iniciativa”? Pró-atividade refere-se a alguém que, como profissional, volta-se para a ação e não apenas para a teoria? Por que não dizer isso claramente?

O estereótipo de profissão feminina da Biblioteconomia é constantemente lembrado e reforçado pelos anúncios, veiculados na grande imprensa, com ofertas de emprego. Em alguns casos, a exigência pelo "sexo feminino" vem acompanhada de "com boa aparência". Às características anteriores devem ser incluídas estas últimas – obviamente que do ponto de vista do senso comum da sociedade –, embora totalmente contrárias a qualquer entendimento de formação adequada ou de competência.

O bibliotecário de referência, por atender diretamente o público que procura pelo espaço da biblioteca – seja ela pública, escolar, universitária ou especializada –, precisaria, além dos itens já expostos, de mais outros atributos:

- Estar sempre sorridente 
- Vestir-se bem
- Vontade de ajudar o próximo
- Reconhecer sua profissão quase como sendo um exercício sacerdotal
- Falar baixo 
- Saber ouvir
- Ser sistemático e metódico
- Ter uma vasta cultura
- Gostar de ler 
- Gostar de crianças
- Ser asseado (tomar banho todos os dias)
- Não ter sudorese (nem mau-hálito, mau cheiro nos pés etc.)

Em suma, o bibliotecário precisava ser um verdadeiro super-homem. E, é óbvio, ninguém satisfazia todas essas exigências. Em sendo assim, a partir desse perfil, o bibliotecário nunca existiu, pois aqueles que exerceram e exercem a profissão foram e são um mero arremedo do bibliotecário ideal.

Nossa proposta, calcado no acima exposto, é enveredar, no intuito de discutir o perfil do bibliotecário escolar, por outros caminhos, por outras trilhas.

Em primeiro lugar, se nos preocupamos com o bibliotecário escolar temos que, evidentemente, voltar nossa atenção para a escola, para a educação formal. Ao contrário da biblioteca pública, que deveria atuar direcionada para a educação continuada, a biblioteca escolar tem a educação como ponto focal, mas, em específico, o ensino formal, seriado, regular, controlado e supervisionado pelo Estado.

Todo o trabalho do bibliotecário escolar está voltado para a educação formal. Essa deveria ser a conclusão a que chegamos partindo da afirmação exposta anteriormente. Mas, essa assertiva não é de toda verdadeira.

O usuário da biblioteca escolar pode ser segmentado em vários grupos:

- Alunos 
- Professores
- Funcionários
- Órgãos administrativos
- Pais
- Irmãos
- Parentes
- Amigos
- Comunidade

A educação, mesmo a formal, não se dá, não se concretiza apenas em sala de aula, nem pode a escola estar divorciada do seu entorno. Ao contrário, a educação só pode ser entendida a partir de um vínculo concreto e real com os valores presentes na comunidade a quem deve servir. Esse vínculo é que lhe propicia a consecução da sua função social. Os pais, aparentemente ignorando essa condição, excluem-se do processo educacional de seus filhos, acreditando que essa responsabilidade cabe tão somente à escola. Aliando-se essa situação com a tímida e pouco objetiva aproximação da escola com os pais, estes desconhecem a política pedagógica à qual estão seus filhos subordinados; o tipo de ensino desenvolvido pela escola; os suportes e apoios existentes nela. Tal desconhecimento origina uma não participação ou, quando muito, uma acanhada interferência dos pais no processo educacional formal dos filhos. Quando a participação acontece, dá-se de maneira tímida, pouco objetiva.

A inclusão aqui de outros segmentos de usuários se faz necessária, pois, quase sempre, os textos da área voltam-se exclusivamente para o aluno e, quando muito, para os professores. A biblioteca escolar possui uma gama muito maior de tipos de usuários, como pode ser observado na relação aposta acima. Parece-nos que com tal amplitude de grupos de usuários, a educação formal é a norteadora, a direcionadora dos trabalhos, mas não se concretiza como a única função da biblioteca escolar.

Convém, neste momento, a discussão dos motivos que nos levaram a entender como preocupação da biblioteca escolar a quantidade de segmentos de usuários indicada anteriormente, principalmente por ser tais segmentos esquecidos pela literatura da área.

Os professores foram aqui incluídos, pois precisam de informações que atendam necessidades profissionais. A educação formal, no caso dos professores, é o objeto de estudo, mas, na verdade, necessitam eles de informações para a educação continuada dentro da área de especialidade de cada um. Atender isso é uma obrigação da biblioteca escolar e deve ser incluída entre suas funções. Além disso, os professores podem e devem ser considerados como imprescindíveis para a educação informacional dos alunos. Defendo que nos estudos sobre educação de usuários seja acrescido à educação formal e à educação informal, um novo tópico: a educação indireta. Para a educação de usuários voltada aos alunos, podemos utilizar o professor. Caso considere ele a biblioteca como um verdadeiro espaço de ensino-aprendizagem, a visão que passará aos alunos será a melhor possível. O inverso também é verdadeiro: se o professor vê na biblioteca um espaço apenas para o envio de alunos “de castigo”, os alunos receberão dele, durante as aulas, atitudes que disseminarão essa concepção. O professor deve ser assim, aliado da biblioteca que só o terá como tal se considerá-lo como um usuário efetivo.

Os funcionários, assim como os órgãos administrativos necessitam de informações diferenciadas daquelas presentes na educação formal. Em especial, os vários setores que compõem e estruturam a escola lidam com informações muito específicas, indo desde aspectos jurídicos até aquelas informações presentes nos jornais e que possam subsidiar ações cotidianas. Sabendo dos problemas de verbas e de liberação da merenda escolar (informação constante nos jornais), a escola, por exemplo, pode criar esquemas alternativos para resolver uma situação complicada cujas informações permitem delinear.

Pais, irmãos, parentes, amigos e comunidade formam grupos de interesse que podem ser atendidos pela biblioteca. Os interesses destes grupos não estão voltados para a educação formal. As informações que requerem são outras. Esse grupo interage com os alunos e pode melhor acompanhar o aprendizado deles se for permitido o acesso ao ambiente da biblioteca. As escolas passam boa parte do tempo fechadas, uma vez que concebem sua existência apenas em relação ao horário de aula. Essa concepção está embasada na ideia de que o ensino ocorre na sala de aula, no contato entre professor e aluno. Os setores de apoio são meras ferramentas, são instrumentais que não possuem uma estratégia pedagógica diferenciada, ou seja, estão a serviço do professor e da sala de aula, pouco significando quando realiza ações específicas. Evidentemente, o trabalho pedagógico não pode ser isolado, mas há que se considerar a importância de todos os espaços de apoio pedagógico (até o termo “apoio” não é muito adequado se o conceito que se faz de apoio é aquele voltado para o atendimento de necessidades surgidas exclusivamente em sala de aula). A biblioteca escolar, por exemplo, tem sua importância atuando como complemento de trabalhos desenvolvidos em sala de aula, mas só pode ser considerada como vital e ter sua função pedagógica reconhecida quando suas ações forem também realizadas independentemente de cada uma das disciplinas, atuando de maneira a contribuir na integralização dos vários conhecimentos. Em especial quando acreditamos que o conhecimento humano é único, embora subdividido para permitir o estudo e a apropriação dele.

O aluno, o primeiro e mais importante do segmento de usuários atendido pela biblioteca escolar – embora aqui sendo apresentado por último –, tem, dentro da escola, necessidades que ultrapassam o âmbito da educação formal.

Educar significa preparar a pessoa, não para sujeitá-la a uma sociedade já constituída, já construída, mas para que seja ela uma agente transformadora, alguém que interfira no mundo, que participe da construção da história do homem, que contribua para a construção dos destinos da humanidade. Educar significa dar condições para que a pessoa possa se transformar em um cidadão.

Diz-se, e a literatura é pródiga nisso, que a criação do gosto pela leitura enquadra-se entre as principais funções da biblioteca escolar. A leitura, apesar de ter seu aprendizado incluído entre as atribuições da escola, demanda um trabalho da biblioteca muito além da mera decodificação das letras.

Leitura é atribuição de significados, buscando entender, compreender, formar conhecimento além dos códigos impressos.

E como se dá o aprendizado da leitura? Levar a pessoa ao gosto pela leitura significa apenas ensiná-la a ler e permitir-lhe o acesso a livros? A leitura diz respeito apenas à escrita?

É importante, neste momento, a discussão sobre a leitura, uma vez que, como vimos, é ela entendida como a principal função da biblioteca escolar.

Antes, no entanto, apenas como alerta, cumpre lembrar que a biblioteca escolar faz parte de uma estrutura preocupada com a educação de maneira geral – e não apenas da leitura. Além disso, a aprendizagem não pode prescindir da leitura, mas não faz uso apenas dela. A biblioteca escolar deve estar inserida nas preocupações da escola e, para isso, deve ampliar seus objetivos, não se restringindo apenas à leitura. Outro fator de alerta: quando empregamos o termo leitura, o usamos para nos referir às várias formas de leitura e não exclusivamente a leitura do texto escrito, da palavra escrita – outro problema presente no estereótipo da biblioteca, não só por parte da sociedade e dos personagens existentes na escola, como por parte dos próprios profissionais bibliotecários.

O mundo hoje é letrado. Letrado no sentido de que a comunicação, a transferência de informações ainda se realiza, majoritariamente, pela escrita. Dizer que se lê pouco ou não se lê, é cometer um erro.

As pessoas afirmam que não gostam de ler. Essa é uma grande balela, na medida em que, necessariamente, o homem precisa da leitura para se situar no mundo, para usufruir e se utilizar dos mecanismos disponíveis para sua sobrevivência, para se fazer cidadão, para lutar por essa condição.

A leitura é imprescindível para que a pessoa possa se apropriar dos mecanismos de opressão da sociedade que visam mantê-la do mesmo modo como está, nada de transformações, de alterações, de mudanças.

A sociedade é regulada por leis e, estas, são elaboradas e veiculadas através da escrita. Não só isso, a linguagem empregada é diferente daquela utilizada pelas pessoas para se comunicar. É lógico que isso dificulta seu entendimento, impedindo ou obstaculizando o exercício dos direitos da cidadania. Quando nos apropriamos dessa linguagem, quando entendemos as leis, passamos a ter mais consciência de nossos direitos e podemos exigi-los.

As pessoas leem a todo o momento, constantemente. Lemos cartazes, outdoors, identificação de ônibus, preços e relação de alimentos, embalagens, placas de ruas, propagandas na TV, legendas em filmes, documentos, panfletos de propagandas distribuídos em semáforos, “santinhos” de candidatos, revistas, documentos bancários, bulas de remédios etc., etc., etc.

Até mesmo a decantada democracia da Internet (ALMEIDA JÚNIOR, 1998) – que na verdade nada tem de democrático, pelo contrário, exige habilidades e várias alfabetizações, para se dizer o mínimo – é dependente da escrita. Precisam dela, os internautas, para surfarem, para navegarem na Internet. Os atuais navegadores virtuais, ao contrário dos nossos antepassados portugueses, não descobrem nem desbravam nada, apenas brincam surfando. Só para não perder a deixa: nem mesmo nossos antepassados descobriram algo, apenas encontraram o que já existia e era habitado. Poucos são aqueles que, de fato, utilizam a Internet para pesquisas. Foi veiculado – pela própria Internet – há algum tempo, a cópia de um adesivo elaborado por uma biblioteca norte-americana com os seguintes dizeres: “Search, no surf”, prova de que há uma preocupação com a forma como está sendo utilizada a grande rede informacional. Outro exemplo que pode aqui ser mostrado é uma pesquisa realizada pelo Yahoo, uma ferramenta de busca na Internet. Nessa pesquisa, perguntou-se a vários usuários o que motivava o uso da Internet e o que era acessado. As respostas apresentavam a pesquisa escolar e de trabalho como a maior motivação e os sites relacionados a essa motivação, além de outros voltados para a cultura e as artes. No entanto, quando, ao invés de perguntas diretas aos usuários, se buscou detectar os termos usados nas pesquisas, os resultados foram outros: os sites mais visitados foram os relacionados ao sexo, aos que permitem “downloads” de jogos para computador e os sites de artistas de cinema ou de televisão.

Quando as pessoas dizem que não leem, que não gostam de ler, estão se referindo à leitura do livro, porque, na verdade, leem o tempo inteiro. Esse é um paradoxo que leva a maioria das pessoas a não entender adequadamente a leitura. Pensam sobre ela como se o termo se referisse apenas ao livro, aos textos de ficção ou aos escolares.

Nós, bibliotecários, afirmamos que todos devem ler porque ler é importante, ler é necessário, ler é bom. Não explicamos exatamente o porquê ler é bom. Discutimos muito pouco sobre isso. “Ler é bom” é um pressuposto da Biblioteconomia. Ler é bom e fim (ALMEIDA JÚNIOR, 1989 e 1990).

Por que ler é bom? As respostas, invariavelmente, são: “porque abre a cabeça”, “traz conhecimento”, “abre as portas do saber”; “porque o livro ensina”; “porque o livro é um bom companheiro”; “porque o livro é bom”.

Partimos da ideia de que o livro, por ele mesmo, é bom, é salutar, é saudável, é melhor do que a televisão é melhor do que o videogame etc. No que nos baseamos para dizer isso? No pressuposto de que a leitura é boa em si; de que o livro é sinônimo de verdade. O que está escrito é verdadeiro.

O livro não é bom por si só. A análise de seu conteúdo é que irá dizer se aquele material, especificamente, é bom para aquela pessoa, naquele momento.

Todo livro é bom? Um livro que prega a morte de determinada raça ou determinada etnia é bom? Um livro que ensina maneiras de suicídio indolor é bom? Um livro que prega o racismo, o preconceito, mesmo que de forma velada é bom? Um livro que apresenta um personagem violento, aético, de maneira a torná-lo simpático é bom?

Lógico que a resposta é não. O que vale é o conteúdo, o que está sendo veiculado, os valores que estão sendo defendidos.

Um livro elogiando o neonazismo é bom? Um livro que defende a pedofilia é bom?

Lógico que não.

Um bom livro deve elucidar, deve explicar algo desejado ou suscitar reflexões, discussões. Deve alimentar dúvidas e criar interesses. Por outro lado, estimular, provocar nosso imaginário – neste caso um livro ficcional. De preferência, explicar e incentivar reflexões além de provocar o imaginário.

Um personagem como o Tio Patinhas, apresentado de maneira simpática, embora retratando o que há de pior no sistema capitalista, deve gerar reflexões e debates. Quando um personagem como ele é absorvido, interiorizado, sem uma posição crítica, a reprodução do sistema que ele representa se concretiza.

O bom livro deve não atender e satisfazer, necessariamente, nossas expectativas; não apoiar incondicionalmente nossos conceitos, nossas ideias, nossos posicionamentos, mas questioná-los, interferir em nossas verdades, em nossas concepções, no modo com entendemos e explicamos o mundo.

Nosso problema é que não analisamos os conteúdos, avaliamos o periférico, o visível. Vejamos os exemplos das músicas veiculadas pelas rádios, músicas que apelam para o erotismo fácil, que atingem as crianças e, precocemente, as levam a lidar inconscientemente com o erótico, tema que deveria surgir mais tarde. A Dança da Garrafa não é um incentivo ao erotismo precoce, à erotização da infância? Somos contra a pedofilia, mas com nossos filhos, achamos que a criança está “uma gracinha” dançando músicas com temas eróticos.

Quando analisamos a leitura nas bibliotecas, nossa análise tem seu foco básico a partir de sua parte visível, ou seja, aquilo que pode ser quantificado. Mas, o mais importante é como se deu a recepção do conteúdo lido. E isso é difícil de ser analisado. Avaliamos quantos livros a criança lê; com que constância ela retira livros por empréstimo; se ela se concentra na leitura; quantas páginas lê por minuto, etc. Agora, qual a contribuição que aquela leitura trouxe para a criança, no que foi modificado seu modo de entender o mundo a partir da leitura realizada? Isso não trabalhamos, não analisamos.

Há uma contradição: ao mesmo tempo em que consideramos a leitura importante e boa, a sociedade acha que quem lê nada está fazendo, não é produtivo, está perdendo tempo.

Realmente vivemos em uma sociedade letrada. A escrita e a leitura são imprescindíveis.

Qual o conceito que temos de leitura? Apenas do material impresso, da escrita? E as outras mídias?

Utilizamos outras ferramentas, cada vez com maior intensidade, que empregam outras mídias. O momento é da multimídia.

A multimídia é formada por: a) texto escrito - b) imagem fixa -          c) imagem em movimento – d) som.

As pessoas são analfabetas na leitura dessas outras mídias, mas nós achamos que esse conhecimento, que essa leitura não precisa de aprendizado, ela é natural. Todos nós nascemos sabendo ler essas outras mídias, assim pensa o senso comum dos profissionais bibliotecários e dos professores.

A escola, por sua vez, também não se preocupa com elas. Não há uma cartilha para o aprendizado delas. E é importante lembrar que elas possuem linguagens próprias, específicas e sua leitura precisa do conhecimento dessas linguagens para se concretizar, para se efetivar.

Se aceitarmos que a educação se realiza nos espaços de convivência do aluno e não só em sala de aula, o trabalho com os outros segmentos de usuários da biblioteca escolar passa a ser entendido como imprescindível e deve ser incorporado entre as funções da biblioteca escolar.

E o perfil do bibliotecário escolar?

Como dissemos no início, não nos interessa elencar características do profissional que irá exercer essa função.

Não queremos um perfil, pois este avalia uma face. Há, no perfil, um lado escondido, como o lado não iluminado, como o lado escuro da lua.

Além disso, em qualquer perfil, o objeto de análise não está voltado para seu avaliador.

Queremos analisar não o perfil, não o periférico, mas o profissional como um todo e que este profissional olhe seu objeto de estudo de frente, não escamoteando seus problemas, seus erros, suas responsabilidades individuais, coletivas, sociais. Queremos o bibliotecário escolar por inteiro, não apenas seu perfil.

O bibliotecário adequado é aquele que está em constante questionamento; é aquele que procura conhecer sua área de atuação; é aquele que tem consciência de que o usuário é seu fim último; que sabe que as informações com as quais lida não são neutras e imparciais; que está sempre procurando conhecer os motivos, o que há por trás de suas ações; é aquele que sabe que a informação é imprescindível para a formação do cidadão. O bibliotecário escolar é aquele que reconhece sua profissão como importante e necessária para a sociedade e se reconhece como um agente de transformação social.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Ágora informacional. Ciencias de la Informacion, Habana, v.29, n.4, out./dez. 1998.

________. Biblioteca pública: ambigüidade, conformismo e ação guerrilheira do bibliotecário. São Paulo: APB, 1995. 10p. (Ensaios APB, 15).

________. A bonicidade do livro e a democratização da informação: balelas bibliotecárias. ABDF Boletim Informativo, Brasília, n.4, p.8, jun. 1989.

________. Vale mais uma informação do que um prato de feijão: balelas bibliotecárias II. APB Boletim, São Paulo, v.6, n.2, p.6-7, jul./set. 1990.

WEIL, Pierre. Sua vida, seu futuro. Petrópolis: Vozes, 1997.

Fonte: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Bibliotecário escolar: seu perfil, seu fazer. In: SILVA, Rovilson José da; BORTOLIN, Sueli (Orgs.). Fazeres cotidianos na biblioteca escolar. São Paulo: Polis, 2006. 118p. p.43-54.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.