ALÉM DAS BIBLIOTECAS


LA ELEGANCIA DEL ERIZO

 

 

É usual que comentários críticos ou resenhas sejam elaboradas com base em publicações recém-lançadas. Aqui, trata-se de uma exceção, haja vista que “A elegância do ouriço” traz ao leitor um texto atemporal, ao mesmo tempo, profundamente poético e lírico, o que favorece uma leitura leve e rápida que encanta. Seu conteúdo é reflexivo e atual, ao discorrer sobre os males da sociedade contemporânea, em que solidão, deslealdade, estigmas e preconceitos sociais, futilidade e “valores que nada valem” imperam.

Eis o segundo romance da jovem autora francesa Muriel Barbery, “L'élégance du hérisson”, ano 2006, ou, em espanhol, “La elegancia del erizo”, edição a qual tivemos acesso. Lançado sob a responsabilidade da Gallimard, no país de origem; da Editorial Seix Barral, Espanha e, no Brasil, publicado pela Companhia das Letras, em 2008, sob o título “A elegância do ouriço”, quando do lançamento em território francês, converte-se, de imediato, em best-seller. São postos em circulação mais de um milhão de exemplares, aparecendo nas listagens dos livros mais vendidos por cerca de 30 semanas como número um nas vendas, o que assegurou à escritora o “Prix des Libraires” francesas, ano 2007. Prova também do sucesso é o lançamento de filme homônimo, produzido pela diretora de cinema e roteirista marroquina-francesa, Mona Achache, na França / Itália, ano 2009.

Ao longo da narrativa, duas vozes alternam-se e, apesar de improvável por suas singularidades, encontram-se para expor a narrativa ao leitor. São dois olhares aparentemente antagônicos: o de uma menina milionária parisiense de 12 anos, Paloma Josse; o de Renée, 54 anos, pobre, viúva, sozinha, com uma única amiga, Manuela, e que ocupa há 27 anos a função de porteira num refinado edifício, Rua de Granele, número 7. Porém, são dois olhares idênticos.

Ambas as personagens se portam diante de todos como ouriço-do-mar, com seu esqueleto ou revestimento rijo e, sobretudo, com espinhos móveis em sua superfície. Fogem completamente do que se espera de uma adolescente rica e de uma concierge invisível frente à coletividade pomposa com quem convive dia a dia.

Imagem – ouriço-do-mar

 

 

Fonte:

eCycle

Graças à carapaça que ambas desenvolvem para se proteger isolam-se dos demais e se afastam, mais e mais, dos estereótipos esperados para o que representam no meio social. A princípio, está uma menina superdotada e consciente de sua inteligência incomum, que não suporta a frivolidade nem da mãe nem da irmã, a ponto de adotar a prática de se esconder em locais inesperados até encontrar refúgio na casa simples de Renée. Longe da mediocridade que se impõe aos serviçais, aí está uma mulher presa às artes e à literatura para sobreviver num mundo hostil e fugir do determinismo social, o que faz com suas vidas se cruzem de forma definitiva e seus destinos se transmutem para sempre.

Os diálogos e as citações que enriquecem a bela obra de Muriel Barbery nos conduzem à reflexão sobre as diferenças sociais, o artificialismo de vidas cobertas e recobertas por sentimentos lesivos, como inveja, curiosidade nefasta da vida dos vizinhos e, em especial, pelo jogo das aparências. Muriel traça, sem furor, nítida crítica rumo à burguesia tradicional, supostamente decente, honesta e digna, mas que, de fato, desdenham dos mais humildes ou dos que estão “fora do quadrado”, tornando-os ora invisíveis (Renée), ora insuportáveis (Paloma) com suas “excentricidades”.

Para resguardar seu universo intelectual de conhecimentos, Renée age, a cada dia, como mulher ignorante, a ponto de autotitular-se “[...] viúva, baixinha, feia, rechonchuda. Prossegue: “[...] tenho calos nos pés e também, em certas manhãs [...] tenho um hálito que derruba qualquer um. Não tenho estudos. Sempre fui pobre, discreta e insignificante [...]” (p. 13). Na verdade, a concierge é uma apaixonada pela filosofia e amante de literatura russa. Devora filmes, incluindo o cinema japonês, e música clássica, como Wolfgang Amadeus Mozart. Lê pensadores do quilate de Karl Marx e Edmund Husserl, do psicanalista Jacques Lacan, do romancista Leo Tolstoy (ao seu gato dá o nome de Leo, em homenagem ao russo), e assim incessantemente.

Somente um dos ricaços do condomínio, um japonês viúvo recém-chegado, Kakuro Ozu, consegue vislumbrar o viço, a bondade e a erudição daquela mulher, que consegue transformar a vida de um dos jovens que busca se reerguer em sua caminhada de altos e baixos, mediante alusão a uma plantação de belas camélias. Nesse intervalo de tempo, muito acontece. Renée e Kakuro começam a aproximar seus corações, sob a torcida de Manuela e de Paloma. Renée pensa e não verbaliza: “Quando senti pela primeira vez esse abandono delicioso que só é possível a dois? A quietude que sentimos quando estamos sozinhos, essa certeza sobre nós mesmos na serenidade da solidão, não são nada em comparação com o deixar-se levar, deixar-se ir [...]” (p. 362).

Assim, as duas personagens centrais revelam, mais e mais, seus anseios. Para Paloma, o suicídio aos 13 anos lhe espera, uma vez que se recusa a entrar para o mundo adulto, que lhe parece cruel, vazio de sentidos e, assim, insuportável. Para Renée, a doçura de um convívio terno e que segue devagarinho lhe espera. No entanto, um atropelamento chega com pressa e ela morre. Como herança para a menina, a certeza de que é essencial apostar na vida e recuperar os sonhos perdidos precocemente, o que faz Paloma dizer: “[...] por você, Renée, de agora em diante perseguirei os sempre no nunca. A beleza neste mundo” (p. 346).

Fonte

BARBERY, Muriel. La elegancia del erizo. Barcelona: Seix Barral, 2010. 367 p.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”