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DA INVENÇÃO AO TRATAMENTO DA GRAVAÇÃO DE SOM, SEMPRE UM TRABALHO BIBLIOTECÁRIO

A gravação sonora tem papel significativo na preservação da nossa memória afetiva. Ao ouvimos a gravação de uma canção antiga, um discurso ou audiolivro, ou até mesmo o som ambiente de um lugar especial, somos transportados instantaneamente para momentos específicos de nossas vidas. Esses sons atuam como gatilhos para memórias emocionais. Evocam sentimentos e lembranças que repousam quase esquecidos. A capacidade de capturar e reproduzir sons permite que essas experiências afetivas sejam preservadas e revisitadas. Proporcionam uma conexão com o passado.

Além disso, a gravação de som não só preserva a memória afetiva de eventos e pessoas, mas ajuda a manter vivas as tradições culturais e familiares. Histórias contadas por avós, canções de ninar cantadas por pais e sons característicos de celebrações festivas podem ser gravados e transmitidos de geração em geração. Esses registros sonoros criam um legado emocional e cultural, permitindo que futuras gerações tenham acesso direto às experiências auditivas de seus antepassados. Dessa forma, a gravação de som se torna um elo essencial na cadeia da memória, ao perpetuar sentimentos e vivências que definem a identidade e a herança cultural de uma comunidade. Também como suporte de transmissão do conhecimento técnico-científico.

Neste sentido, é um dos recursos documentais bastante comum no ambiente das bibliotecas, que registram as vibrações sonoras por meios mecânicos, elétricos ou digitais, e que permitem a reprodução do som. Independente da evolução tecnológica que tornou muitos dos dispositivos sonoros obsoletos.

Os códigos de catalogação comprovam a importância da gravação de som como recurso de informação. De forma resumida, pode-se destacar isso em algumas das normas.

No AACR2r (Código de Catalogação Anglo-Americano, segunda edição, revista), este tema é abordado no capítulo 6, que abrange a descrição sonora em discos, fitas (bobinas abertas, cartuchos, cassetes), rolos para pianola (e outros rolos) e gravações de som em filmes (com exceção dos sons que acompanham imagens visuais, tratados no capítulo 7). Já, gravações em outras formas (por exemplo: cilindros, fios de metal etc.) ou em vários meios experimentais não são abrangidas, apesar de especificações apropriadas na descrição física (ver regra 6.5) e notas especiais, que fornecem alternativas descritivas para tais itens. Também, nas das listas de designações gerais do material (listas 1 e 2), o termo é único: [gravação de som].

Um aspecto a destacar, é o da responsabilidade. A regra 6.1F1, instrui sobre as indicações de responsabilidade relativas às pessoas ou entidades coletivas com função de criação do conteúdo intelectual da gravação de som (por exemplo: autores de texto falado, compositores de música executada, coletores de material de campo, produtores que tiveram responsabilidade artística e/ou intelectual). Se tais participações indicadas na fonte principal de informação for além da atuação, execução ou interpretação de uma obra (como é usual no caso de música popular, rock ou jazz), deve-se incluir na indicação de responsabilidade. Se, a participação for limitada à atuação, execução ou interpretação (como ocorre no caso de música erudita ou clássica e discursos gravados), a indicação será na área das notas (ver 6.7B6).

Dentre os aspectos de tratamento deste recurso, o AACR2r instrui para não informar o lugar de publicação, distribuição etc., se a gravação de som não for produção, apenas registrar a data. Entretanto, a data é um elemento tratado superficialmente pelo código, para recursos sonoros. Em nota de rodapé é informado que a letra P que antecede a data significa phonogram (fonograma = direitos de produção fonográfica), exemplo: p1983. Um outro ponto, nesta área 4, de representação, é o acréscimo opcional para a indicação da função de editor, distribuidor etc. Por exemplo: Virgin Records [distribuidor].

Na área 5, da descrição física, há a indicação das unidades físicas de uma gravação de som. Neste ponto, é observável as mudanças tecnológicas dos suportes de gravação, tornadas em desuso atualmente, em favor de arquivos digitais sonoros. Também visível a obsolescência catalográfica do próprio código.

Em relação ao ponto de acesso, o AACR2r fornece orientações específicas para o recurso sonoro, no capítulo 21 (escolha de pontos de acesso), regra 21.23, que trata de entradas para uma única obra (música, texto etc.); duas ou mais obras da(s) mesma(s) pessoa(s) ou entidade(s); obras de diferentes pessoas ou entidades, tiver um título coletivo; obras de diferentes pessoas ou entidades, sem título coletivo.

Apesar da parte I do AACR2r ser estruturada nas diretrizes da ISBD (G), alternamos o comentário sobre a gravação de som, para a ISBD edição consolidada (Norma Internacional de Descrição Bibliográfica). Lembrando que a ISBD não trata de pontos de acesso. Em seu escopo, a norma destaca que as disposições apresentadas se estendem à descrição de partes componentes que são publicadas com, em ou como parte de um recurso hospedeiro (por exemplo, capítulos de livros, artigos em seriados, faixas de uma gravação de som) e dependem do recurso hospedeiro para fins de identificação bibliográfica ou de acesso.

Em relação as fontes de informações, orienta-se para recursos: multimídia, gravação de som, gravação de vídeo, imagens fixas e em movimento, e recursos eletrônicos, destacando o próprio recurso ou material de acompanhamento para extração de dados. Quanto a indicação da data, a normativa é um pouco mais detalhada, que o AACR2r, ao destacar que para gravação sonora, as datas “P” (fonograma) são transcritas com o símbolo de direitos autorais de gravação de som (?), se disponível, ou com a letra “P” em maiúscula ou minúscula. Exemplos: P 1982, ? 1985 – Comentário editorial: Recurso contínuo corrente, e p 1975. A ISBD edição consolidada também orienta que, para recursos multimídia, gravações sonoras, gravação de vídeo, imagens fixas e em movimento, e recursos eletrônicos: quando as datas de direitos autorais para cada obra reunida constam em um recurso sonoro ou um recurso eletrônico, elas não são indicadas na área de publicação, produção, distribuição etc., mas em notas (ver 7.4; ou ver 7.7).

Um aspecto trazido pela ISBD edição consolidada, diferente do AACR2r, é encontrado na área 5 (denominada área de descrição do material). Trata-se da “Tabela de Especificações Técnicas e Normas da Indústria para Gravações Sonoras”. A tabela indica quais especificações se aplicam a cada tipo de gravação de som. Uma observação, é que a norma mantém as denominações de recursos sonoros antigos; bem como, inclui termos atuais, como: disco digital, disco eletrônico, streaming.

A norma também apresenta uma nova área 0 (zero), da forma de conteúdo, processo de produção e tipo de mídia. Permite indicar na descrição, a forma na qual o conteúdo de um recurso sonoro é expresso. Assim, o termo “música” categoriza a música escrita (partitura), e a música gravada (concerto, ópera e gravações de estúdio). O termo “palavra falada” categoriza o conteúdo expresso pelo som da voz humana falando. E, o termo “som” expressa os sons produzidos por animais, pássaros, ruídos de origem natural ou simulados pela voz humana ou mídia digital (ou analógica).

Na perspectiva da RDA original (Resource Description and Access), a abordagem sobre gravação de som (em brevíssimo resumo), transcorre pelo:

  • Capítulo 7 – descrição de conteúdo (7.18.1.3): com orientações sobre o registro de conteúdo sonoro para indicar a presença de som em um recurso que não consiste basicamente em som gravado. Exemplo: som: um conjunto de diapositivos com som integral; som: um cartucho de chip para computador com som integral.  Indica como exceção, os recursos de imagens em movimento. Para filmes cinematográficos e vídeos, orienta registrar som, ou se é mudo, indicar a presença ou ausência de um canal sonoro. Exemplo: mudo: um filme mudo cinematográfico.
  • Capítulo 3 – Descrição do Suporte (3.16.1.3): com orientações gerais para o registro das características do som, que consistem em som gravado, e considerado importante para a identificação ou seleção. Registrar as seguintes características, se aplicável: a) tipo de gravação (ver RDA 3.16.2.3); b) mídia de gravação (ver RDA 3.16.3.3); c) velocidade de reprodução (ver RDA 3.16.4.3); d) característica do sulco (ver RDA 3.16.5.3); e) configuração da banda sonora (ver RDA 3.16.6.3); f) configuração da fita (ver RDA 3.16.7.3); g) configuração dos canais de reprodução sonora (ver RDA 3.16.8.3); h) características especiais da reprodução sonora (ver RDA 3.16.9.3).

Os comentários até aqui, ainda que resumidos, destacam a importância da gravação de som, nas normas, como um ferramental instrutivo ao bibliotecário de catalogação para integrar os recursos sonoros à coleção bibliográfica, de forma a tornar plenamente descrita e recuperável pelo catálogo.

Outro aspecto importante, para representar recursos sonoros, refere-se ao seu surgimento. Sobre isto, a First Sounds Initiative — uma entidade que pesquisa gravações sonoras da humanidade, identificou, pelo trabalho de um dos seus membros, o historiador de áudio norte-americano Patrick Feaster, o pioneirismo do som, antes de Tomas Edison.

Este pioneirismo acontece com um bibliotecário francês, chamado Édouard-Léon Scott de Martinville (1817-1879). Ele foi o inventor do que parecia ser um precursor técnico do fonógrafo.

Martinville patenteou um dispositivo chamado fonoautógrafo, em 1857. No escritório de patentes da França (Institut National de la Propriété Industrielle), foi encontrado dois fononautogramas, contendo gravações de som, datadas de 1860; 28 anos antes de Thomas A. Edison (1847-1931) apresentar sua invenção – o fonógrafo.

Ressalte-se que, tecnicamente, o aparelho de Martinville somente criava uma imagem do som e não tinha habilidade para executar a gravação.

Durante 120 anos perpetuou-se, sem controvérsias, uma verdade, o americano Thomas Edison foi a primeira pessoa a gravar a voz humana. O inventor, entre outras coisas, da lâmpada e da câmera cinematográfica, conseguiu o feito sonoro em 1888, por meio do fonógrafo de cilindro de cera.

O desafio de Feaster foi traduzir as marcas contidas no dispositivo original do bibliotecário Martinville. Foi também a primeira pessoa a ouvir essa gravação.

O bibliotecário nunca reproduziu ou mesmo tentou reproduzir o seu trabalho. Ele também era um editor de manuscritos e tipógrafo em uma editora de livros científicos, na cidade de Paris. Como um homem de letras e de informação, o seu sonho tinha sido outro. Imaginava se um escritor pudesse ditar o seu sonho fugaz no meio da noite, livre da caneta, aquele instrumento com o qual ele lutava para não esmorecer a sua expressão.

Basicamente, ele desejava criar um dispositivo que cumprisse função semelhante aos modernos programas de reconhecimento automático de fala. Uma ferramenta capaz de processar o sinal de voz, emitido pelo ser humano e convertê-lo em símbolos de fácil leitura.

Assim, num dia, em meados do século 19, ele teve a ideia de fotografar a palavra falada, após ler um texto sobre fisiologia humana. Pensou se a fotografia podia capturar imagens, com lentes que imitavam o olho, não poderia uma réplica de um ouvido captar as palavras faladas?

A sua inspiração e criação deu origem ao fonoautógrafo, aparelho que podia 'transcrever' o som. Ele considerava que a taquigrafia natural, um dia seria lida com a mesma facilidade com que os símbolos que havíamos inventado, como as letras. Neste sentido, havia logrado fazer do som, sempre invisível e fugaz, algo visível e permanente.

O seu aparelho despertou a atenção da SEIN (Société d'encouragement pour l'industrie nationale), uma associação de especialistas que avaliava tecnologias e suas possíveis contribuições para a indústria francesa. O bibliotecário recebeu apoio para aprimorar a sua invenção.

Posteriormente, associou-se à Rudolph Koenig (1832 – 1901), fabricante de instrumentos científicos de precisão, para comercializá-lo, apresentando-o no catálogo como um dispositivo capaz de preencher uma lacuna acústica.

O fonoautógrafo era um aparelho que, a exemplo de um microscópio, não apenas mostrava os sons, mas também preservava a sua impressão.

De todo modo, a história da gravação do som foi reescrita. Talvez Tomas Edison tenha sido o primeiro a reproduzir a voz humana, mas agora era de conhecimento que o bibliotecário Edouard-Léon Scott de Martinville foi a primeira pessoa a gravá-la.

O bibliotecário morreu de aneurisma, no anonimato, pouco depois da invenção do fonógrafo por Edison. Ele foi enterrado em uma sepultura sem nome, pois sua família não tinha dinheiro para uma lápide. Em seu testamento, pediu aos filhos que se certificassem de que a invenção não fosse esquecida.

Em 2015, a Unesco inscreveu em seu registro da Memória do Mundo, as primeiras gravações da humanidade, a própria voz do inventor dos fonautogramas, Édouard-Léon Scott de Martinville.

 

Indicação de leitura:

Ventura, Dalia. O mistério das gravações de voz humana feitas 3 décadas antes de Thomas Edison. BBC News Brasil, 16 março 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56403105


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.