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INTERNACIONALIZAÇÃO DA RDA: UM ESFORÇO GLOBAL PARA ATRAÇÃO DA CATALOGAÇÃO BIBLIOTECÁRIA

Entre os dias 17 e 18 de setembro de 2024, na cidade de Helsinque (Finlândia), realizou-se a 8ª Reunião Anual BIBFRAME (BIBFRAME Workshop in Europe), abordando o planejamento e implementação do protocolo BIBFRAME.

Durante o evento, a presidente do comitê diretor da RDA (RDA Steering Committee – RSC), Renate Behrens, destacou a importância da colaboração internacional e a necessidade de padronização para apoiar comunidades bibliotecárias. Comentou os desafios enfrentados por regiões como a Ásia e a África, enfatizando a inclusão de diversas culturas e idiomas no desenvolvimento de padrões, visando uma abordagem verdadeiramente internacional. O que se configura em estratégia da organização para conquistar um posicionamento internacional.

A ideia é reforçada pela meta da atual gestão em tornar a RDA um padrão internacional, também por meio da colaboração com o maior número possível de agências de padronização.

Neste sentido, este texto apresenta um resumo descritivo e comentado da exposição da presidente do RSC, abordando as ações políticas e operacionais da RDA institucional. Subsidia-se, assim, possíveis reflexões sobre como a comunidade brasileira de catalogação pode ser beneficiada ou afetada.

Os tempos atuais não são fáceis para as comunidades mundiais de catalogação. A importância da colaboração internacional e da padronização é destacada como maneira de superar os desafios enfrentados por essa comunidade global na catalogação de informações.

Ademais, agências de padronização, como a RDA, têm certa responsabilidade em apoiar as comunidades bibliotecárias, as bibliotecas e as redes de bibliotecas.

Operacionalmente, a RDA é gerida por dois comitês: o Conselho RDA (RDA board for the Strategic divisions), que toma as decisões estratégicas, e o comitê diretivo (RDA steering committee), que deve cumprir as deliberações do Conselho.

Há, ainda, os representantes regionais, que são uma parte integral de ambas as instâncias diretivas, para garantir que as regiões ao redor do mundo estejam representadas na RDA. É um compromisso intencional e internacional dividir o mundo em regiões. Assim, em ambos os comitês, há ou deve haver representantes regionais oriundos da África, América Latina e Caribe, América do Norte, Ásia, Europa e Oceania.

Entretanto, apesar de as seis regiões terem um representante no RSC, infelizmente, não há membros da Ásia, África ou América Latina. Isso ocorre porque muitos países não podem ou não dispõem de condições para participar. Há países ou comunidades bibliotecárias que não têm uma conexão estável de internet na qual possam confiar, o que torna difícil desenvolver um trabalho de forma constante e regular em um ambiente baseado em muitas conferências virtuais de grupos de trabalho. Essa é uma situação enfrentada por muitas regiões, como a África, por exemplo.

No último ano, o RSC começou a considerar a criação de sub-regiões, como foi procedido com a África. A região norte da África encontra-se motivada e elaborando a tradução da RDA para o árabe, possivelmente a ser publicada em 2025. Isso será um desafio para o RDA Toolkit, pois é a primeira língua com outro sistema de escrita.

Apesar de a Europa ser muito heterogênea, a Ásia é ainda mais, com muitas línguas e sistemas de escrita. É uma região enorme e desafiadora para o RSC.

Em relação à América Latina, considera-se a existência, em vários países, de grupos estáveis de RDA. Diferente de outras regiões, esses grupos lidam apenas com duas línguas. Entretanto, acham que suas habilidades com o idioma inglês não são boas o suficiente. Trabalhar em alto nível com uma língua estrangeira, não é fácil. No âmbito da catalogação, até mesmo para falantes nativos é difícil tratar da "linguagem RDA", em inglês.

Segundo Behrens, para haver um comitê diretivo verdadeiramente internacional, é preciso aceitar a ocorrência de erros. Os não-nativos não conseguirão se comunicar tão rápido quanto os nativos. Essa situação precisa ser aceita, caso contrário, não haverá internacionalidade para a RDA. Nesta perspectiva, é esperada maior adesão da América Latina.

Behrens traçou um panorama sobre a organização do RSC, composto de: presidente, secretário, presidente do conselho e o representante da American Library Association (ALA). Também dos grupos de trabalho permanentes (working group - wg); e representantes regionais.

Todos os grupos de trabalho são internacionalmente compostos de membros. Procedimento essencial, pois não se pode discutir questões globais com um grupo de trabalho representado por apenas uma determinada comunidade. Assim, busca-se colegas de diversas regiões para se juntarem aos grupos de trabalho. Um modelo neste sentido é o grupo de exemplos (Examples Working Group), com participação crescente de profissionais de todo o mundo, o que o torna verdadeiramente internacional.

Observa-se, na manifestação do RSC, que a RDA não é verdadeiramente internacional, e que precisa de revisão em alguns pontos. Até como processo natural para a sua consolidação.

Desta forma, entende-se a necessidade de participação dos bibliotecários de catalogação de todo o mundo, para apontar as áreas da RDA que não funcionam para suas comunidades. Para angariar simpatia e adesão, tornou-se uma prioridade os esforços para remover o foco anglo-americano da RDA nos últimos anos

Destaca-se, dentre os grupos de trabalho da RDA, o grupo permanente de tradução da RDA (Translations Working Group), que é fundamental para a colaboração e clareza na tradução de textos. Funciona como um fórum para tradutores de diversas regiões, promovendo um diálogo contínuo. Eles realizam uma reunião anual, geralmente vinculada à reunião da EURIG, para incentivar o intercâmbio. A atual gestão do RSC e o grupo de tradução buscam promover mais webinars e treinamentos para os tradutores, visando identificar e solucionar as partes difíceis de se traduzir da norma.

A RDA recebe feedback de tradutores, informando aspectos não claros ou compreensíveis, o que possibilita uma melhor análise do texto normativo. Até os membros que são nativos da língua inglesa admitem que partes da norma são complicadas.

A adoção de uma perspectiva externa de interpretação favorece as alterações de palavras e a definição de conceitos. Alguns dos tradutores participantes têm uma visão bem detalhada do kit de ferramentas RDA. Assim, encontram incorreções, erros de digitação e outras incongruências linguísticas ou textuais. Nesse aspecto, é importante o trabalho dos tradutores e a necessidade de que disponham de um intercâmbio regular que facilite essa comunicação e troca de experiências.

Além do grupo citado, há outros grupos de trabalho essenciais para a política de colaboração e de desenvolvimento contínuo da RDA, de forma a promover a sua abordagem mais inclusiva e internacional. A saber:

  • Grupo de trabalho de extensão (Extent Working Group): focado em discutir e revisar regulamentos existentes no kit de ferramentas RDA, buscando torná-los mais internacionais. Procura incluir as diversas culturas regionais em suas propostas para melhorar a representação.
  • Grupo de trabalho técnico (Technical Working Group): grupo permanente, responsável pela implementação técnica do kit de ferramentas RDA e do registro RDA (RDA registry), abordando questões técnicas relevantes.
  • Grupo de trabalho de exemplos (Examples Working Group): grupo permanente, criado para coletar e compartilhar exemplos de aplicação RDA de diversas partes do mundo, garantindo uma representação internacional e diversificada.
  • Grupo de trabalho de extensão (Extent Working Group): objetiva discutir e revisar regulamentos existentes no kit de ferramentas, buscando maior internacionalização.
  • Grupo de trabalho religioso (Religions in RDA Working Group): voltado a inclusão de diferentes religiões no padrão RDA, expandindo a representação para além do cristianismo.
  • Grupo de trabalho de idiomas oficiais (Official Languages Working Group): aborda questões relacionadas a países com múltiplos idiomas oficiais, buscando soluções para a catalogação e a escolha de títulos preferidos.
  • Grupo de trabalho de arquivos (Archives Working Group): grupo recente, que procura ampliar a abrangência da norma, para incluir comunidades culturais e de arquivos.
  • Grupo de trabalho em inteligência artificial (Working Group on Artificial Intelligence): ainda em instalação, foi proposto em junho de 2024. Se interessa ??em ouvir as opiniões da comunidade de catalogação sobre o uso de inteligência artificial na catalogação.

No grupo de trabalho, responsável pela implementação técnica, o registro RDA (RDA registry), relaciona todo o vocabulário da norma. Trata-se de conteúdo de uso gratuito e acesso aberto, não licenciada pelo kit de ferramentas RDA.

É recomendado às comunidades bibliotecárias de catalogação, que iniciem a tradução da normativa pelo registro RDA. Considera-se ser mais fácil e rápido. Além de servir como ponto de partida para uma implementação da norma, em bibliotecas.

Outro grupo de trabalho, destacado, é o de exemplos (Examples Working Group). Por muito tempo, no RSC, houve um editor de exemplos (RDA Examples Editor), responsável pela escolha e inclusão de exemplos de registros bibliográficos. No entanto, para os objetivos de internacionalização, era preciso coletar exemplos catalográficos do mundo todo.

Assim, deliberou-se pela formação do examples working group. A ideia, proposta pela presidente Behrens, decorreu da sua experiência na IFLA, como membro do grupo de exemplos para a International Standard Bibliographic Description (ISBD). Na RDA, o grupo estabelecido em janeiro de 2024, tem crescido operacionalmente e acrescentado muitos exemplos.

Não há condições rígidas de participação nos grupos. Entretanto, a motivação e o apoio institucional são os principais requisitos para a participação ativa.

Bibliotecários interessados em participar podem contatar os presidentes dos grupos. Essa intenção de abertura da estrutura organizacional do RDA é uma estratégia de marketing perante a comunidade bibliotecária.

É também uma política para favorecer maior compatibilidade da norma ou a sua adesão. Para isso, a cooperação internacional é essencial.

Na atual estratégia do RSC, há a necessidade de que a cooperação seja com o máximo de comunidades possível. Influencia essa posição a situação econômica global do setor de bibliotecas, que é ruim em alguns lugares e até mesmo nas comunidades bibliotecárias mais ricas. Em todas as comunidades há problemas, como falta de material, falta de recursos financeiros etc. O cenário precisa mudar muito; para tanto, é preciso trabalhar cooperativamente.

Sem pretender reinventar a roda, o RSC trabalha em conjunto com entidades de catalogação em todo o mundo, como: o Program for Cooperative Cataloging (PCC); o ISSN International Center; e o MARC Advisory Committee, por exemplo, que resultam em protocolos oficiais e atualizados regularmente. Protocolos que só podem ser acordados entre entidades existentes, onde possa haver alguém para qual se dirigir e estabelecer alguma ação.

Isso não significa, por exemplo, como no caso do EURIG, recursos financeiros envolvidos. Não há dinheiro, não há material fixo, não há nada, é apenas uma entidade sem fins lucrativos, composta de presidente e secretário. Para cooperar com a entidade, o RSC precisa se dirigir ao presidente para estabelecer um acordo.

Para a cooperação, com uma organização oficial ou não oficial, não significa grande procedimento, mas é preciso haver um responsável do outro lado da relação de interesse. Nesta estratégia, o RSC espera poder alcançar ações cooperativas para muitos tópicos, além dos objetivos focais para o futuro próximo.

Ressalte-se que ao longo deste texto o termo cooperação é a palavra-chave na política do RSC, manifestada sob os seguintes aspectos, na fala de sua presidente executiva:

  • A colaboração e o treinamento são essenciais para o envolvimento comunitário nas instituições. Propostas e discussões devem ser encaminhadas através de representantes regionais para garantir a eficácia do processo.
  • A cooperação entre diferentes organizações é fundamental para o desenvolvimento de protocolos que atendam a necessidades comuns. Esses protocolos ajudam a formalizar as interações e garantir a atualização contínua das informações.
  • A cooperação bilateral é essencial para o avanço de ideias e apoio em comunidades da Europa Oriental e América Latina. É fundamental estabelecer contatos e um quadro oficial que direcione esses esforços.

Como consideração final, ao descrito e comentado, neste texto, entende-se que os principais desafios enfrentados pela RDA (Resource Description and Access), para conquistar maior aderência internacional ou ser verdadeiramente uma norma internacional, incluem:

  • Diversidade linguística e cultural: a norma enfrenta dificuldades em incluir e representar adequadamente as diversas culturas e idiomas, especialmente em regiões como Ásia e África, onde a heterogeneidade linguística é significativa.
  • Limitações tecnológicas e financeiras: muitas comunidades, em especial na África, não têm acesso a uma infraestrutura estável de internet, o que dificulta a participação em conferências virtuais e grupos de trabalho.
  • Barreiras linguísticas: profissionais de regiões como a América Latina relatam dificuldades em participar de discussões em inglês, o que limita sua capacidade de contribuir efetivamente.
  • Inclusão de representantes regionais: embora existam representantes regionais, ainda não há membros da Ásia, África e América Latina no RSC, o que indica uma falta de representação dessas regiões nas decisões.
  • Revisão de padrões: o padrão RDA atual não é completamente internacional e precisa ser revisado para maior inclusão e menos centrado na perspectiva anglo-americana.
  • Implementação de traduções: a tradução de materiais para diferentes idiomas é um desafio, especialmente em relação a idiomas com diferentes sistemas de escrita e estruturas linguísticas.
  • Colaboração internacional: a necessidade de colaboração entre diferentes comunidades e organizações para garantir que as normas e práticas sejam aplicáveis globalmente é um desafio constante.

Esses desafios exigem uma abordagem colaborativa e inclusiva para garantir que a norma possa atender às necessidades de uma comunidade bibliotecária global diversificada.

 

Indicação de leitura:

Renate Behrens. Report from RDA Steering Committee. In: BIBFRAME Workshop in Europe 2024.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.