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UMA NOSTALGIA NA CATALOGAÇÃO DESCRITIVA

Matérias publicadas no jornal “O Estado de São Paulo” informam que a fita cassete ressurgiu, chamando a atenção de muitos saudosistas, além de fãs, artistas e gravadoras.

O retorno é reforçado pela postura da cantora Taylor Swift, que lançou versões de suas músicas no suporte, com vendas ultrapassando 23 mil cópias. Vale lembrar que a fita cassete foi popular até os anos 1990, sendo superada pelo disco compacto (CD-ROM).

Nota-se, agora, uma onda nostálgica do dispositivo, que, a exemplo do disco de vinil, nunca desapareceu, sobrevivendo como um fenômeno underground  ou movimento alternativo.

Garbin (2024) comenta que, neste tempo de infodemia, da inteligência artificial e das mudanças climáticas do planeta, o sentimento de nostalgia se consolida nas pessoas, mesmo naquelas que não viveram o passado para desenvolver a saudade por objetos, músicas, fatos, vídeos, cheiros, sabores e pessoas. Se, no início, o termo cunhado pelo médico suíço Johannes Hofer, em 1934, designava um transtorno psiquiátrico, nos dias atuais define-se como uma emoção humana positiva.

Certamente, a geração de bibliotecários dos anos 1970 a 1990 viveu essa transição. E, provavelmente, muitos ainda mantêm um velho tape deck em casa, para curtir o som nos mais variados suportes: vinil, fita e CD. Além do rádio de faixa AM e FM.

Essa mesma geração de profissionais deve se recordar, nas aulas de catalogação descritiva baseadas no AACR2, do capítulo 6 (Gravações de Som), cujo campo abrangia a descrição de gravações sonoras em todos os meios. Por exemplo: discos, fitas (bobinas abertas, cartuchos, cassetes), rolos para pianola (e outros rolos) e gravação de som em filmes. Embora o emprego de especificações na descrição física (6.5) e as notas (área 7) forneçam espaço para detalhar um pouco mais a descrição.

Quanto à fonte principal de informação, é a própria etiqueta afixada no item (6.0B1). A designação geral do material (DGM), em ambas as listas, generaliza o termo: [gravação de som].

Na segunda parte do código, o estabelecimento da entrada principal é destacado pela regra 21.23 (gravação de som). Obras de referências catalográficas alertam o bibliotecário de catalogação que, em seu julgamento, a escolha da entrada deve seguir o princípio da autoria intelectual ou artística do conteúdo da obra. Mas, em casos específicos de gravação de som (música executada), o nome do intérprete poderá formar a entrada principal (21.23D1). Para a gravação de som de conteúdo falado (audiolivro), a entrada principal é dada para o autor do texto narrado. A seguir, apresenta-se exemplo ilustrativo de conteúdo gravado, em MARC/AACR2:

100 1#  $a London, Jack, $d 1876-1976

240 10  $a Contos. $k Seleções.

245 14  $a The best of Jack London short stories $h [gravação de som] /

            $c [produção e direção de] Larry Albert.

246 30  $a Jack London short stories.

250 ## $a Deluxe ed.

260 ## $a Redmond [Austrália] : $b Counter Top, $c c2001.

300 ## $a 8 cassetes sonoros (ca. 25 min cada) : $b 3 3/4 pps, mono.

490 #0  $a Audio book collection.

500 ## $a Ao alto do título: The literate lister TM.

520 ## $a 22 histórias em 8 cassetes (lados A e B).

700 ## $a Albert, Larry.

 

A ISBD consolidada ampliou sua cobertura para uma maior gama de recursos tratáveis, otimizando a capacidade de harmonizar a descrição. A norma segue como principal padrão para disponibilizar e compartilhar dados bibliográficos.

Uma mudança significativa adotada pela norma é a introdução da Área 0 (Forma de conteúdo, processo de produção e tipo de mídia), com o objetivo de indicar, no início da descrição, a forma na qual o conteúdo é expresso e o seu método de produção, além da fixação desse conteúdo em algum tipo de suporte usado para a transmissão. Essas informações visam auxiliar os usuários na identificação e seleção dos recursos bibliográficos. A depender do conteúdo da gravação de som, em fita cassete, têm-se os termos:

  • Música: conteúdo expresso por sons ordenados em sequências, em combinação e em relações temporais para produzir uma composição; executada ou gravada em formatos analógicos ou digitais, como: sons vocais, instrumentais ou mecânicos com ritmo, melodia ou harmonia.
  • Palavra falada: conteúdo expresso pelo som da voz humana. Exemplo: audiolivro e gravações de história oral, em formato analógico ou digital.
  • Sons: conteúdo expresso por sons de animais, pássaros, ruídos de origem natural ou simulados pela voz humana. Exemplo: gravações de cantos de aves e efeitos sonoros.

O método para o processo de produção do conteúdo indica o termo: gravação magnética, que consiste em armazenar sons convertidos em sinais elétricos pela magnetização da fita.

Quanto ao tipo de mídia, registram-se os tipos de suportes usados no armazenamento e transmissão do conteúdo. No caso da gravação sonora em fita cassete, o termo é: áudio, adotado para suportes utilizados com reprodutor de cassetes de áudio.

A área 5 (descrição do material) apresenta instruções sobre os aspectos físicos de uma gravação sonora. Inicia-se pela extensão do recurso (5.1), complementada pela designação específica do material (5.1.2), exemplificada como: 2 fitas cassetes ou cassetes sonoros. Para recursos com dimensões implícitas, no caso de cassete contido em um contêiner (5.3.1.3), a indicação pode ser: 12 x 36 x 20 cm. A seguir, apresenta-se exemplo ilustrativo de conteúdo gravado, em MARC/ISBD consolidada:

100 1#  $a London, Jack, $d 1876-1976, $e autor

240 10  $a Contos. $k Seleções.

245 14  $a The best of Jack London short stories /

            $c [produção e direção de] Larry Albert.

246 30  $a Jack London short stories.

250 ## $a Deluxe ed.

260 ## $a Redmond [Austrália] : $b Counter Top, $c c2001.

300 ## $a 8 cassetes sonoros (ca. 25 min cada) : $b 3 3/4 pps, mono.

336 ## $a Palavra falada $2 isbdcontent

337 ## $a áudio $2 isbdmedia

490 #0  $a Audio book collection.

500 ## $a Ao alto do título: The literate lister TM.

520 ## $a 22 histórias em 8 cassetes (lados A e B).

700 ## $a Albert, Larry, $e diretor.

 

No RDA original, o capítulo 3 (descrição de suportes da Manifestação), descreve as características físicas do recurso. Atributos de transmissão das informações que os usuários observam na seleção do item. Também, podem depender das características para identificar um recurso (distinguir recursos com características semelhantes).

Neste sentido, a instrução para o tipo de suporte, extensão e outras características (3.1.4.2), se considerada importante, podem registrar:

  1. o tipo de suporte aplicável (ver 3.4);
  2. a extensão de cada suporte (ver 3.4); e
  3. outras características de cada suporte (ver 3.5–3.19).

 

A norma exemplifica, como: 1 áudio cassete; 10 x 7 cm, analógico; mono. Sendo descrito no suporte, o tipo de gravação e a configuração dos canais de reprodução.

O RDA orienta, na indicação do tipo de mídia (3.2.1.3) utilizada no armazenamento da gravação sonora projetada para uso com aparatos, como: gravador, tocador/leitor de CD ou MP3. O termo da lista de vocabulário RDA é: áudio.

Quanto ao tipo de suporte do conteúdo (3.3.1.3), o termo da lista de vocabulário RDA para fita cassete, é: áudio cassete. Para complementar a citação, o RDA fornece instrução específica para a dimensão de cassetes (3.5.1.4.3). Para não alongar a abordagem sobre a fita cassete, o RDA apresenta detalhada instrução para descrever a configuração, em 3.16.7. A seguir, apresenta-se exemplo ilustrativo de conteúdo gravado, em MARC/RDA:

040 ##  $e rda

100 1#  $a London, Jack, $d 1876-1976, $e autor

240 10  $a Contos. $k Seleções.

245 14  $a The best of Jack London short stories /

            $c [produção e direção de] Larry Albert.

246 30 $a Jack London short stories.

250 ## $a Deluxe edition.

264 #1 $a Redmond [Austrália] : $b Counter Top,

           $c [Data de publicação não identificada].

264 #4 $c c2001.

300 ## $a 8 cassetes sonoros (aproximadamente 25 min cada).

344 ## $a analógico $c 3 3/4 pps $g monofônico $2 rda

336 ## $a Palavra falada $2 rdacontent

337 ## $a áudio $2 rdamedia

338 ## $a áudio cassete $2 rdacarrier

490 #0  $a Audio book collection.

500 ## $a Ao alto do título: The literate lister TM.

520 ## $a 22 histórias em 8 cassetes (lados A e B).

700 ## $a Albert, Larry, $e diretor.

 

Saliente-se que, no caso da fita cassete, ocorre outra aplicação além da gravação sonora. Trata-se também de um dispositivo para gravação de softwares e arquivos eletrônicos. Nos anos 1970 e 1980, o dispositivo e o gravador serviam como periférico de computadores.

Na representação pela ISBD consolidada, se o cassete serve como arquivo eletrônico de conteúdo, o termo será “conjunto de dados”; se for para suportar software, o termo será “programa”. O tipo de mídia é especificado como “eletrônico”.

Na representação pelo RDA, no mesmo contexto de utilização, o termo para mídia é "computador" e para a indicação do termo de suporte é "cassete de fita de computador".

Historicamente, a primeira biblioteca a incorporar fita cassete em seu acervo foi a Library of Congress. Em 1969, ela começou a disponibilizar gravações em áudio cassete como parte de seu serviço para cegos e deficientes físicos. A finalidade era melhorar o acesso à informação para esse público, com dificuldades para a leitura de materiais impressos. Os cassetes continham livros e outros materiais educativos. Esse processo também foi precursor dos audiolivros digitais.

Observa-se que a fita cassete representou um avanço no compromisso de inclusão promovido pelas bibliotecas, além do acesso democratizado e diversificado à informação para todos os usuários.

Outro aspecto é que o uso da mídia magnética para o registro e armazenamento de informações (eletrônicas, textuais, sonoras, imagem fixa ou movimento) representou oportunidades e desafios aos bibliotecários. Possibilitou aumentar o volume de conteúdos capturados, armazenados e disponibilizados.

Coleções de áudio requerem políticas de armazenamento, preservação e conservação que garantam a longevidade do conteúdo gravado.

O bibliotecário de catalogação encontra, em seus instrumentos normativos, a diretriz para embasar seu julgamento nos procedimentos catalográficos aplicados sobre uma coleção audiovisual, especialmente a fita cassete, de modo a resultar em descrições adequadas ao seu público.

Se atualmente há um retorno nostálgico aos dispositivos analógicos, podemos revalorizar o AACR2r como instrumento complementar de subsídio à nossa análise catalográfica, em conjunto com as normas catalográficas atuais e ativas.

Afinal, uma reflexão sobre o passado auxilia a rever e melhorar o presente. Ademais, a ISBD consolidada e a RDA (original ou oficial) não são completas para descrever todas as nuances em um recurso informacional.

 

Indicações de leitura:

Van Bogart, John W. C. Magnetic Tape Storage and Handling: A Guide for Libraries and Archives. Washington, DC : The Commission on Preservation and Access; National Media Laboratory, 1995.

Library of Congress. National Library Service for the Blind and Print Disabled: History. NLS.

Legramandi, Sabrina. A fita cassete também está voltando no Brasil? Item agora é símbolo de pertencimento para geração Z. Jornal O Estado de São Paulo, 09/11/2024.  

Scott, Jason. The Easy Roll and Slow Burn of Cassette-Based Software. Internet Archive Blogs, 2023.

Hogan, Marc. A fita-cassete está voltando. O dilema agora é encontrar um tocador para ela. Jornal O Estado de São Paulo, 20/10/2024.

Garbin, Luciana. Haja saúde pra tanta nostalgia: o que a ciência diz sobre nosso apego às coisas do passado. Jornal O Estado de São Paulo, 13/11/2024.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.