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RDA VS. ISBD: O DUELO ÉPICO QUE VOCÊ NÃO SABIA PRECISAR

Durante o trigésimo Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, no II Fórum de Catalogação, realizados na agradável cidade de Recife, Pernambuco, a dinâmica de participação do público nas palestras e nos trabalhos apresentados possibilitou uma rica e colaborativa troca de ideias e questionamentos sobre questões catalográficas. Dentre as indagações levantadas, uma reflexiva pairou no ar: RDA e/ou ISBD consolidada?

As normas estão em evidência, com destaque para o Resource Description and Access, sendo a que algumas bibliotecas brasileiras estão migrando para RDA, como no caso do Sistema Municipal de Bibliotecas do Munícipio de São Paulo; Universidade de Caxias do Sul (registros de autoridade); PUC do Rio Grande do Sul; biblioteca do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), dentre outras.

Certamente, essas e outras agências bibliográficas nacionais irão se tornar em breve, modelos de estudo sobre implantação do RDA, para outras bibliotecas. Contudo, muitas instituições provavelmente não irão migrar para o RDA devido a questões relacionadas à infraestrutura e aos recursos financeiros.

Conforme observam Miranda e Lourenço (2024), implementar o padrão RDA exige atualizar sistemas, treinar profissionais, ajustar processos e políticas catalográficas internas e padronizar procedimentos entre instituições. Esse esforço visa à melhoria da qualidade das descrições, à facilitação do acesso aos usuários e à garantia de interoperabilidade entre diferentes sistemas. Porém, a infraestrutura técnica ainda é um grande obstáculo. Muitas bibliotecas adotam sistemas antiquados, não compatíveis com os requisitos do RDA, o que demanda adaptações e investimentos em novas tecnologias. Além disso, outro desafio relevante é a capacitação dos bibliotecários e das equipes técnicas. Implementar o RDA de forma eficaz requer o desenvolvimento de novas habilidades em catalogação e uma compreensão aprofundada das diretrizes do padrão, o que implica a realização de treinamentos específicos tanto para profissionais experientes quanto para novatos.

No cenário das bibliotecas brasileiras, algumas já estão em processo de migração, como as citadas anteriormente, enquanto outras dependerão de maior esforço, subsidiado por políticas públicas que favoreçam essas iniciativas. Diante desse contexto, surge o questionamento: devemos seguir apenas pelo caminho do RDA ou optar pela ISBD consolidada como uma alternativa para bibliotecas que necessitem de maior apoio?

Desde 1967, a comunidade de catalogação anglo-americana se guia, na catalogação descritiva, pelo AACR (Anglo-American Cataloguing Rules). Esse código tem oferecido orientação para o tratamento e a representação de recursos variados, embora não aborde a representação temática. Desde a segunda edição, publicada em 1978, e com várias revisões posteriores, o AACR resultou em um texto complexo e incapaz de acomodar novos formatos bibliográficos e modelos de dados emergentes. A redação de uma terceira edição foi criticada por não corrigir falhas e limitações normativas, o que motivou a criação de um documento que incorporasse conceitos e princípios mais atualizados para o contexto tecnológico e digital.

Em 2005, o Joint Steering Committee - JSC ao revisar o novo texto, promoveu mudanças estruturais e adotou o título RDA: Resource Description and Access. Em 2008, o relatório final do Grupo de Trabalho da Library of Congress sobre o Futuro do Controle Bibliográfico (Library of Congress Working Group on the Future of Bibliographic Control) recomendou a continuidade do desenvolvimento do RDA. Entretanto, ressalte-se que o RDA foi desenvolvido a partir do AACR2.

Ao longo das últimas duas décadas, o RDA e a ISBD consolidada tornaram-se o principal foco da comunidade de catalogação bibliográfica em todo o mundo. Com a ampliação das coleções digitais, bibliotecas, museus e outras instituições culturais têm investido esforços na digitalização, preservação, catalogação e revitalização de suas coleções.

São materiais locais e especiais que também emergem, como: mapas, panfletos, correspondências, cartões postais, pôsteres, imagens, placas e ilustrações em livros raros.

Os recursos, em geral, tornando-se visíveis e acessíveis a usuários locais e globais. Em consequência, as mudanças catalográficas têm impacto nas funções desempenhadas pelos bibliotecários de catalogação. Assim, eles evoluem, gradualmente, junto com as mudanças e transformações do seu campo profissional.

Suas funções, portanto, se redefinem, juntamente com as atribuições e responsabilidades por criar, manter e desenvolver os registros de metadados atribuídos aos recursos tradicionais e não tradicionais contidos em variados acervos (impressos, digitais ou híbridos).

Nesse contexto, a ISBD tradicional ainda é amplamente utilizada, especialmente quando integrada ao AACR2.

Já, o RDA apresenta uma abordagem centrada no usuário, fundamentada em princípios estabelecidos pela Declaração dos Princípios Internacionais de Catalogação; Requisitos Funcionais (FRBR, FRAD); e no IFLA LRM (Library Reference Model). Da mesma forma, a ISBD consolidada também adota esses modelos conceituais.

Quanto à sua aplicabilidade no ambiente digital, o RDA posiciona-se como uma norma que contribui para a construção da “Web Semântica”, oferecendo uma estrutura para que a catalogação bibliográfica se torne “dados vinculados” (linked data). Além disso, o RDA serve como modelo para a descrição de uma ampla gama de recursos, não apenas materiais tradicionais de biblioteca. Entretanto, sua implementação completa ainda é uma meta a ser alcançada.

Por outro lado, a ISBD consolidada incorpora, em suas revisões, os modelos conceituais, especialmente o IFLA LRM. Essa integração garante consistência e padronização na representação e no intercâmbio bibliográfico, além de oferecer aplicabilidade no ambiente digital e em dados vinculados. Assim como o RDA, a ISBD mantém sua relevância por ser estruturada com base em conceitos e terminologias atuais. Além disso, a ISBD continua a ser a espinha dorsal da padronização bibliográfica global devido à sua tradição catalográfica.

O RDA, por sua vez, é uma normativa internacional que facilita a recuperação de recursos bibliográficos e de patrimônios culturais em ambientes digitais e tradicionais. Ele se diferencia de sua origem normativa por sua abordagem moderna, fundamentada em um referencial teórico mais atualizado.

De maneira semelhante, a ISBD (International Standard Bibliographic Description) também é valorizada por sua clareza e pela consistência que proporciona às descrições bibliográficas. Ela foi concebida para estruturar a descrição de dados de maneira ordenada e consistente, independentemente do idioma.

A ISBD surgiu na Reunião Internacional de Especialistas em Catalogação (RIEC), realizada em Copenhague, em 1969, inspirada por Michel Gorman. Sua primeira publicação, a ISBD(M), voltada para monografias, ocorreu em 1971, seguida de outras versões específicas. Posteriormente, essas normas foram unificadas em um único documento em 2006, com alterações em sua estrutura interna e aplicação.

As áreas de descrição da ISBD foram mantidas, com algumas mudanças nos nomes e a inclusão da área 0. A estrutura consolidada inclui:

0. Forma de Conteúdo, processo de produção e de tipo de mídia 
1.Título e indicação de responsabilidade 
2. Edição 
3. Informação específica de material ou tipo de recurso 
4. Publicação, produção, distribuição, etc. 
5. Descrição do material 
6. Série e recurso monográfico multiparte 
7. Notas 
8. Identificador do recurso e de condições de disponibilidade

As áreas seguem contendo elementos específicos, numa ordem de posicionamento e de pontuação pré-estabelecidas.

A área 0 coleta dados que indicam, no início da descrição, a forma pela qual o conteúdo da obra é expresso; além do método de fixação (ou produção) desse conteúdo e do tipo de mídia em que o mesmo é transmitido.

São dados bibliográficos que visam auxiliar o usuário na tarefa de identificar e selecionar o recurso de seu interesse.

Além de pontuação específica prescrita, a área 0 é completada por um conjunto de terminologias controladas, acompanhadas de qualificadores para dados de movimento, dimensão e especificações sensoriais humanas (visual, auditivo, olfativo, gustativo e tátil). Esses dados são representados em terminologias controladas e podem ser codificados em campos MARC, como 336 (tipo de conteúdo) e 337 (tipo de mídia). o que também é compatível com o RDA.

Da importância da ISBD para a Catalogação Bibliográfica, deve-se ressaltar:

  • Padronização internacional: promove uniformidade na criação de registros bibliográficos e favorecendo a interoperabilidade entre sistemas.
  • Intercâmbio de dados: facilita a troca de registros entre agências bibliográficas.
  • Claridade e consistência: das informações para os usuários e na confiabilidade dos catálogos.

Por outro lado, é importante observar que o RDA não é uma norma de apresentação de registros nem de estruturação de dados bibliográficos. Por essa razão, recomenda-se o uso de alternativas como a própria ISBD para tal quesito. Nos catálogos bibliográficos modelados no RDA, o campo líder, posição 18, pode indicar se a apresentação segue o formato ISBD pontuado ou não, permitindo a compatibilidade com registros em AACR2.

Um exemplo fictício de descrição bibliográfica em áreas da ISBD consolidada, seria:

Título e responsabilidade: Introdução à Catalogação / João da Silva

Edição: 2ª edição

Publicação: São Paulo : Editora Acadêmica, 2020

Descrição física: 200 páginas: ilustrações; 23 cm

ISBN: 978-85-12345-67-8

Área 0: Forma de conteúdo: texto (visual) :

Área 0: Tipo de mídia: sem mediação

Numa breve comparação da ISBD com o RDA:

  • O RDA assimila detalhadamente os modelos conceituais e é mais centrado nas tarefas do usuário, permitindo descrições adaptadas ao contexto de obra, expressão e manifestação. Ele também orienta pontos de acesso autorizado, relacionamentos e controle de autoridade.
  • A ISBD consolidada apresenta maior rigidez quanto à ordenação, pontuação e formato de apresentação. Seu foco está na padronização estrita e na materialização de expressões e manifestações, sem tratar de pontos de acesso autorizado ou controle de autoridade.

Quando escolher uma das diretivas catalográficas:

  • A ISBD é essencial quando há necessidade de elevado grau de padronização e intercâmbio de dados bibliográficos. Seu uso é gratuito, possui tradução para o português e exige baixo custo financeiro para implementação em bibliotecas brasileiras, além de apresentar uma curva de aprendizagem menor.
  • O RDA é preferível em cenários que demandem pontos de acesso e controle de autoridade mais detalhados, especialmente em ambientes digitais que exigem flexibilidade. Entretanto, sua implementação exige maior investimento financeiro e em capacitação.       

Na era digital, a ISBD enfrenta desafios decorrentes do aumento do uso de recursos digitais. Contudo, suas atualizações seguem direcionadas para atender às demandas desse novo ambiente. Atualmente, encontra-se em desenvolvimento uma versão da norma que incorpora integralmente as entidades do IFLA LRM.

Quanto ao futuro das normas catalográficas, tanto o RDA quanto a ISBD seguem mantendo o legado histórico da catalogação. No caso da ISBD, as atualizações visam ajustá-la aos desafios bibliográficos contemporâneos, incluindo a integração com tecnologias digitais, novos formatos e o uso de metadados.

É importante destacar que a catalogação tradicional tem se transformado para atender às novas demandas. Uma nova concepção de modelagem do registro bibliográfico está em curso, acompanhada do surgimento de normativas, protocolos e padrões de interoperabilidade mais avançados. Nesse contexto, a ISBD consolidada se apresenta como uma alternativa viável devido ao seu uso gratuito, sendo uma solução econômica e prática para muitas bibliotecas.

Apesar das mudanças significativas, é essencial que os bibliotecários de catalogação não rompam completamente com o legado passado. Em vez disso, devem atualizar os métodos com base nas novas tecnologias e nas normas emergentes, mantendo a essência do trabalho catalográfico e valorizando sua evolução histórica.

Por fim, as escolhas entre RDA e ISBD não são mutuamente exclusivas. Ambas as normas possuem pontos fortes que podem ser combinados para atender às necessidades específicas de cada biblioteca, garantindo assim que a riqueza da informação bibliográfica seja preservada e disponibilizada de forma eficiente e acessível a todos os usuários.

Indicação de leitura:

Diao, J.; Hernández, M. A. Transferring Cataloging Legacies into Descriptive Metadata Creation in Digital Projects: Catalogers Perspective. Journal of Library Metadata, vol. 14, n. 2, p.130-145, 2014.

Miranda, D. R. S.; Lourenço, C. de A. RDA: recomendações de implementação no Brasil. Biblios, n. 87, 2024.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.