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MARC RIP? O BIBFRAME CHEGANDO PARA A FESTA DA CATALOGAÇÃO NA LIBRARY OF CONGRESS

O formato MARC (Machine-Readable Cataloging) passa por atualizações contínuas. O que propicia uma modernidade que é a sua adequação ao atual estágio normativo da catalogação bibliográfica, em especial, os projetos da Library of Congress (LC) que seguem neste sentido.

Entretanto, a atualização do formato não nos isenta de considerar que o “MARC RIP”, uma maneira abreviada e bem-humorada de expressar que o tradicional formato para codificação bibliográfica, está em processo de substituição pelo BIBFRAME, em especial pela LC.

A expressão "RIP" vem do latim "Requiescat in pace", que significa "Descanse em paz". Em geral, utilizada em lápides e obituários para expressar votos de paz a alguém que faleceu. No contexto do "MARC RIP" é uma forma figurada de dizer que o formato está "morrendo" ou se tornando obsoleto, sendo substituído pelo seu próprio criador e mantenedor, por uma nova tecnologia bibliográfica, o BIBFRAME.

Neste contexto, no último dia 27 de janeiro de 2025, ocorreu mais um evento “Library of Congress BIBFRAME Update”, que abordou o estágio de implementação do BIBFRAME (Bibliographic Framework Initiative) pela LC. O enfoque foi a migração de registros bibliográficos em MARC para o BIBFRAME.

O BIBFRAME é o modelo de dados vinculados (linked data), desenvolvido com a finalidade de dinamizar os processos catalográficos no âmbito digital.

Acrescente-se a isso, que o BIBFRAME, ao ser baseado em dados vinculados, possibilita que as informações bibliográficas sejam representadas como "entidades e relacionamentos", permitindo a interligação e o compartilhamento das informações de forma eficiente na web.

A LC, em realidade, concentra esforços na criação de registros bibliográficos MARC "modernos", para viabilizar seu projeto interno de migração dos processos catalográficos, há algum tempo.

Entre as mudanças discutidas no evento, foi salientado que os registros bibliográficos incluirão a partir da migração, menos dados codificados em campos fixos, em favor de dados textuais com campos variáveis. Visa-se alinhar a catalogação realizada pela biblioteca, com o Resource Description & Access – RDA (original), que é o atual código de catalogação adotado pela LC e mais URIs (identificadores de recurso), o que colabora para gerar menos duplicação de dados bibliográficos e de campos codificados.

Sobre a adesão de URI e URL foram abordadas em nossa coluna de janeiro 2025, “Formato MARC 21 bibliográficos: atualizações 2024”. Como exemplos das mudanças, inclui-se a substituição de campos como o 260, por múltiplos campos 264, além da introdução de URIs em pontos de acesso autorizados. Exemplificação de campos 264, em vez de um único campo 260:

260 $a London ; $a Boston : $b Butterworths; $a Birmingham, England ;

       $a New York : $b Eurofi, $c 1989.

264 #1 $a London ; $a Boston : $b Butterworths

264 #1 $a Birmingham, England ; $a New York : $b Eurofi, $c 1989.

 

A LC manifesta que a migração promovida em seus processos e políticas de catalogação, não acarretará uma conversão retrospectiva em larga escala de registros. As mudanças preconizadas devem ser introduzidas organicamente, à medida que os bibliotecários da instituição que desempenham suas funções catalográficas possam, eles próprios, alterarem suas práticas catalográficas para reduzir as redundâncias de dados.

Outro aspecto, da implementação do BIBFRAME pela LC, é a adoção da plataforma de código aberto FOLIO (Library Access Platform) para o gerenciamento de serviços de bibliotecas (gestão de metadados, aquisições, gestão de recursos eletrônicos, circulação, relatórios etc.).

Em 2024, a LC procedeu à aquisição e implantação da plataforma FOLIO e, agora em 2025, planeja migrar e inserir os seus metadados bibliográficos na plataforma.

O plano de migração, mantem foco no BIBFRAME, mesmo que o FOLIO não suporte, totalmente, dados vinculados nativos. E, ainda, que tal situação limite a funcionalidade de dados vinculados na nova plataforma.

Também, o processo de migração para o BIBFRAME envolve um treinamento extensivo da equipe de catalogação, além da integração de plataformas: Voyager (atual sistema de gerenciamento de biblioteca) e o FOLIO.

Esse treinamento visa capacitar mais de 300 bibliotecários, incluindo os profissionais localizados em escritórios internacionais; além da adaptação a novas ferramentas como o editor Marva.

A preocupação é garantir uma transição suave para o BIBFRAME, pois a coexistência temporária entre os sistemas MARC e BIBFRAME gera uma curva de aprendizado significativa; e pode causar "ansiedade de separação" entre os bibliotecários catalogadores, acostumados à catalogação tradicional no MARC.

Ressalte-se que a intenção da Library of Congress não é recente. Os estudos para um modelo de dados foram iniciados em 2011, motivados pela necessidade de modernizar a forma como as bibliotecas descrevem e compartilham informações bibliográficas.

Decorrente dos estudos, o antigo projeto desenvolvido pela LC, denominado “BIBFRAME 100” foi renomeado para “BIBFRAME Production” (BFProd). A finalidade é criar registros catalográficos diretamente no formato BIBFRAME; além de eliminar a necessidade de duplicidade na entrada de dados para ambos os formatos (MARC e BIBFRAME).

No mencionado evento, é comentado que o projeto BIBFRAME desenvolvido e implementado pela LC é composto por três componentes principais, denominados: BFDB (BIBFRAME Database), ID (LC Linked Data Service) e Marva (editor BIBFRAME).

Eles estão instalados em um servidor de banco de dados nomeados “MARC Logic Nosql”, com a funcionalidade de triplo armazenamento. Nesta arquitetura, combina-se o sistema de dados vinculados do BIBFRAME, com as plataformas Voyager e FOLIO.

Entretanto, um dos desafios técnicos e complexos é a conversão bidirecional (round-trip) entre os registros MARC e BIBFRAME. Afinal, é necessário garantir a consistência e imediata disponibilidade dos registros bibliográficos convertidos para ambos os padrões.

Neste sentido, dos desafios, a própria inconsistência no uso de URIs (identificadores de recursos) em campos MARC, como o subcampo $1, podem dificultar a conversão e a interoperabilidade entre as plataformas citadas.

A preocupação é justificada, pois a migração não é o descarte ou encerramento imediato do formato MARC. A LC realiza um projeto de maturação do BIBFRAME.

A LC também trabalha em melhorias no processo de conversão, o que inclui, por exemplo, suporte para monografias em múltiplos idiomas e scripts. Além de implementar modelos de relacionamentos indiretos e atividades de provisionamento.

Ressalte-se que, entre os componentes citados, o editor Marva é utilizado para criar e editar registros BIBFRAME. Ele foi aprimorado com novas funcionalidades, dotado de suporte a scripts não latinos (ScriptShifter) e integrado com vocabulários controlados. O editor também permite visualizar, em tempo real, sobre como os registros BIBFRAME serão convertidos para o MARC.

Como descrito neste texto, a LC lidera a transição para o BIBFRAME, com um plano interno de migração de seus processos catalográficos. O plano envolve o treinamento, o desenvolvimento de ferramentas e a integração de sistemas.

A migração planejada para a plataforma FOLIO e a adoção do BIBFRAME como formato dos registros, representam um avanço significativo dos processos de catalogação bibliográfica, com foco na interoperabilidade, redução da duplicação de dados bibliográficos e maior uso dos dados vinculados.

O cenário alerta aos bibliotecários brasileiros da catalogação, que a migração do AACR2 para o RDA é apenas uma fase, no contexto do universo bibliográfico atual.

Afinal, o próprio formato MARC apesar da “modernização”, encontra-se em processo transitório de substituição pelo BIBFRAME. Uma substituição promovida pela Library of Congress, agências e utilidades bibliográficas associadas.

O acompanhamento dos projetos de migração, a exemplo do ocorrido na LC, servem como estudo de caso, para iniciativas semelhantes de bibliotecas brasileiras.

 

Indicação de leitura:

Library of Congress, BIBFRAME Update Forum, January 2025.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.