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A APLICAÇÃO DO MODERNO MARC DOS DADOS VINCULADOS PELA LIBRARY OF CONGRESS

Na coluna anterior, destacou-se o  esforço de mudança nos processos catalográficos da Library of Congress – LC, para os dados vinculados sob protocolo BIBFRAME. Esse percurso, iniciado a mais de uma década perpassa pela atualização do formato MARC, alinhado ao modelo das entidades e relacionamento assimilado  pelo RDA.
Neste texto, procede-se a uma versão do recente documento da LC, que trata de seu esforço catalográfico em criar registros bibliográficos MARC “modernos”. 
O conceito da modernidade compreende em incluir menos dados codificados nos campos fixos, em favor da inclusão de dados textuais nos campos variáveis. A intenção é  alinhar a atual política e procedimentos catalográficos da LC, com as diretrizes do Resource Description & Access (RDA), enriquecido de mais identificadores. 
As mudanças nos processos são introduzidas organicamente, à medida que os bibliotecários de catalogação ao desempenharem as suas funções, procedam eles próprios a alteração das práticas catalográficas que reduzam a redundância de dados.
É justificado que os registros de fornecedores, que a LC importa e distribui antes e depois de serem modificados por ela, em geral incluem vários identificadores; além de implementarem mudanças de modelagem para acomodar os atributos de entidades do RDA. Objetiva-se, na prática catalográfica da LC, realizar o mínimo (ou o máximo) necessário para os registros importados deem suporte às suas coleções. 
Como as variações de modelagem e dos identificadores desses registros são plenamente válidos, removê-los irá resultar em uma descrição menor; além de  exigir grande esforço do catalogador. Assim, essas diferenças de acréscimos foram mantidas. 
Destaca-se que até mesmo os membros do Programa de Catalogação Cooperativa (PCC) têm aprimorado os registros bibliográficos com adesão de URI, por meio do projeto de aplicação “URIs in MARC Pilot”, a partir de 2019. Os URIs do PCC nesse projeto tiveram supervisão e orientação  do PCC Task Group on Identity Management in NACO, com consultoria do Linked Data Advisory Committee, o Standing Committee on Standards, e OCLC.
Os bibliotecários de catalogação são estimulados a adicionar URI aos registros bibliográficos e de autoridade em MARC. Apesar dos registros de autoridade de nomes, distribuídos pela LC há tempos, oferecem suporte aos recursos com identificadores.
O interessante no processo catalográfico da LC  é a sua prática em  criar e distribuir registros contendo identificadores adicionais. E que apresentam mais opções para modelagem de dados vinculadas e especificações RDA.
O legado MARC
Neste contexto, há um legado histórico significativo. O formato MARC tem uma  importante contribuição de suporte às práticas catalográficas e de mudança nos processos. O formato entrou em atividade a partir de 1968, com o MARC II. A versão cobria recursos monográficos textuais (livros). Ao longo dos 15 anos seguintes, expandiu-se para abranger outros grupos documentais: seriados, mapas, música, gravação de som, filmes, material visual, arquivos de computador e manuscritos. Também, cada recurso foi expandido para cobrir subgrupos especiais de mídias, como: disco de vídeo, globos, texto eletrônico etc. 
Até 1990, cada grupo de recursos documentais tinha o seu próprio formato, numa tentativa de tratar os elementos de dados sobrepostos da mesma maneira em toda a mídia. 
Nesse período, ocorrem novas regras catalográficas que trazem ajustes aos formatos. Vários capítulos do código de catalogação AACR surgiram na década de 1960, consolidados no AACR2, na década de 1970. 
Na década de 1990, o projeto chamado “integração de formato” (format integration) reuniu as diferentes especificações do MARC. Isso, promoveu os vários elementos introduzidos ao longo do tempo, gerando mudanças no formato para uma melhor consistência dos dados e de integração em uma única especificação, o formato USMARC e, posteriormente o formato MARC 21.
Observe-se que a integração é essencial para a criação de um sistema de catalogação eficiente e acessível; que permita às bibliotecas compartilharem e acessarem dados de forma eficaz. Recomenda-se que as bibliotecas considerem a compatibilidade do software como elemento de integração ao invés de focar apenas nos seus custos.
No tocante à catalogação, com a publicação do RDA, em 2010 – novas regras de catalogação geraram novas redundâncias e diferentes especificações precisaram ser introduzidas no MARC. Situação que passou a refletir maneiras novas de modelar dados bibliográficos e terminologias atuais para descrevê-los.

Dados MARC com RDA
Neste aspecto, uma das principais mudanças introduzidas pelo RDA foi a preferência por dados textuais em campos recém-estabelecidos para os dados até então codificados em campos fixos existentes. Exemplos podem ser visualizados, especialmente, nos campos fixos 006 (material adicional) e 007 (descrição física). 
Subcampos textuais, inseridos no intervalo de campos MARC 3XX foram estabelecidos para transportar na forma textual muitos dados codificados nos campos 007, gerando a redundância. Assim, muitas informações codificadas nesses campos podem ser registradas em (novos) campos variáveis. Por exemplo, dados dos campos fixos 007 (descrição física: material não projetável):
007 kd#bc| é duplicado no campo 340 (meio físico – NR):
                   k – Nonprojected graphic [não projetável]
                   d – Drawing  [ilustração]
                   #– Contains blank [branco]
                   b – Black-and-white [preto e branco]
                   c – cardboard  [cartão ilustrado]
                   | – No attempt to code [sem tentativa de codificar]

340 ## $a cardboard [cartão ilustrado] $d collotype [fototipia
            $g black and white [preto e branco]

Salienta-se que os bibliotecários de catalogação passaram a ser treinados para o uso desses campos 3XX. Entretanto, a prática anterior de codificar o registro bibliográfico com essas (mesmas) informações em campos fixos continua. Aspecto que resulta em dados duplicados e redundantes dentro dos registros bibliográficos MARC e, também, implica em esforço adicional e redundante, por parte dos bibliotecários catalogadores.
Ressalte-se que, além da descrição textual (versus codificada), o RDA incentiva o uso de identificadores nos dados bibliográficos, por serem essenciais para os dados vinculados. 
Muitos dos identificadores apresentam-se na forma de Identificador Uniforme de Recursos (Uniform Resource Identifiers – URI), que normalmente se parecem com uma URL. Entretanto, não são a mesma coisa. Um URI pode ser um nome, um local ou ambos, enquanto um localizador uniforme de recursos (Uniform Resource Locator – URL) específica apenas o local. 
Exemplo de dados vinculados para termo controlado cardboard (cartão ilustrado) aplicado nos campos: 007 e 340: http://id.loc.gov/vocabulary/mmaterial/crd 
O uso de URI ou identificadores em geral, não só introduz dados adicionais aos registros, mas também requerem alteração sobre como os dados serão modelados em formato MARC. 
Onde antes um único campo podia ser usado para múltiplos valores, associando os identificadores com rótulos, o campo passa a ser repetido, como no exemplo anterior dos campos 007 e 340, e agora na descrição a seguir:
              340 ## $a cardboard [cartão ilustrado
                          $0 http://id.loc.gov/vocabulary/mmaterial/crd  

              340 ## $d collotype [fototipia
                          $0 http://id.loc.gov/vocabulary/mproduction/collo 

              340 ## $g black and white [preto e branco
                          $0 http://id.loc.gov/vocabulary/mcolor/blw

Nos exemplos, a tradução do termo em português é transcrita em verde, para ressaltar que os termos em inglês, adotados pela LC, são controlados e identificados por URI única.
Observa-se, ainda, que a repetição destaca os campos aplicados para relacionar o URI e seus valores, que é usado de forma consistente nos registros da LC para evitar ambiguidade dos dados.

Duplicidade e redundância dos dados
Conforme indicado acima, a maioria dos dados codificados em um campo 007, serão replicados nos campos 3XX estabelecidos justamente para esses dados, quando da adoção e migração para RDA.
No entanto, para a migração de modelos as duas primeiras posições dos caracteres dos campos: 007 (007/0 [categoria do material]; 007/1 [designação específica do material]), continuarão a ser mantidas na codificação dos registros, mesmo que dupliquem informações nos campos: 337 [tipo de mídia] e 338 [tipo de suporte], adotados para RDA.

Pontuação ISBD mínima
Importante enfatizar que, ajustado às políticas do PCC, sobre a redução da quantidade de pontuação ISBD em registros bibliográficos e, permitindo flexibilidade na aplicação desta pontuação, os registros seguem com a pontuação ISBD completa, somente nos campos: 245 e 264. A pontuação ISBD parcial em 250 e 490. E, pontuação mínima em outras partes do registro bibliográfico. O formulário de catalogação descritiva MARC (Ldr/18) será codificado como "i" (pontuação ISBD incluída).

Escrita não latinas
Os registros bibliográficos MARC da Library of Congress eventualmente devem expandir as escritas não latinas utilizadas. Esses registros terão as seguintes características:
•    Pontos de acesso – por exemplo, os campos: 130, 240, 700, 710, 711, 730 – continuarão a manter a transliteração de dados não latinos, pareados com o campo 880 – Representação Gráfica Alternativa (R), contendo os dados não latinos.
•    A transliteração, em geral, será fornecida para os campos: 245, 250, 264 e 490.
•    A transliteração de dados não latinos estará em campos regulares (campos não-880), como ocorre agora.
•    A transliteração seguirá as tabelas de transliteração da ALA-LC, como usual.
•    O campo 880 vincula-se aos campos transliterados de maneira usual, por meio de procedimento aplicado no subcampo $6 Linkage (Ligação Dados) que conecta campos que têm diferentes representações escritas um dos outros. O subcampo $6 pode conter o número da etiqueta do campo associado; um número de ocorrência ou um código que identifica o primeiro texto encontrado em uma varredura da esquerda para a direita do campo, e uma indicação de que a orientação para a exibição dos dados do campo é da direita para a esquerda. Um campo regular (não 880) pode ser vinculado a um ou mais campos 880 que contenha diferentes representações de textos (ou grafias) dos mesmos dados. O subcampo $6 é estruturado da seguinte forma, observado que ele é sempre o primeiro subcampo do campo:
      $6 [etiqueta de vínculo]-[número de ocorrência]/[código de identificação do 
      texto/grafia]/[código de orientação do campo]

      245 10 $6 880-03  $a Sosei to kako : $b Nihon Sosei Kako Gakkai shi.
      880 10 $6 245-03  $a [Título do texto japonês] : 
            $b[Subtítulo em texto japonês].
             [Primero texto é latino; texto do subtítulo é japonês]

•    Dados de texto não latino que não são pareados com um campo latino estarão em campos regulares, ao invés do campo 880. Isso ocorre, em geral, no intervalo dos campos 5XX. Atualmente, no MARC, o texto não latino e não pareado, é indicado no campo 880, com um indicador esclarecendo o não pareamento de dados com um campo latino.

Indicação de procedência
Em adequação ao RDA, o campo MARC 264 foi estabelecido, para separar e codificar as indicações de produção, publicação, distribuição e fabricação. Essas indicações estiveram reunidas, anteriormente, no campo MARC 260 (detalhe sobre o tema, ver o texto: Na peleja do MARC: AACR2 260 X 264 RDA). 
A LC adota essa separação para as indicações de procedência. Os registros MARC que contenham indicações em um campo 260, passam agora a usar o campo 264 e com separarão das indicações de procedência para cada campo 264. Exemplo de prática anterior:
         260 ## $a Londres, Inglaterra: $b Penguin Books; $a Nova York, NY: 
                     $b Penguin Putnam, $c 1999.

A descrição anterior é convertida para:
         264 #1 $a Londres, Inglaterra: $b Penguin Books.
         264 #1 $a Nova York, NY: $b Penguin Putnam, $c 1999.

Sobre a transcrição da série
O campo MARC 490 é usado para registro das informações da série. O seu subcampo $a é repetível para uma série principal que tenha uma subsérie ou uma série com título paralelo. Para desambiguar as indicações de série combinadas, os registros MARC que, anteriormente, continham várias informações da série no campo 490, passaram a separar as indicações em um campo 490, para cada informação: título da série principal e título da subsérie ou título da série e título da série paralela. Exemplo de prática anterior:
         490 1# $a Publicação do Departamento de Estado; $v 7846. 
                $a Série do Departamento e Serviço Exterior; $v 128

A descrição anterior é convertida para:
        490 1# $a Publicação do Departamento de Estado ; $v 7846.
        490 1# $a Departamento e série de serviços estrangeiros ; $v 128

Tornando o LCSH mais compatível com dados vinculados
Alinhado às mudanças no processo catalográfico, a representação temática da LC sofre alterações. As políticas do Library of Congress Subject Headings (LCSH), sobre subdivisões de gênero/forma não são compatíveis com os dados vinculados. Isso decorre da inexistência de uma URI correspondente para os muitos cabeçalhos + subdivisões de gênero/forma do LCSH. 
A LC vislumbra no BIBFRAME (Bibliographic Framework Initiative), a oportunidade de tornar o LCSH mais compatível com os dados vinculados. 
Os registros MARC atuais não incluirão, necessariamente, as subdivisões de forma do LCSH. Em vez disso, a adoção de termos de gênero/forma (Library of Congress Genre/Form Terms – LCGFT) poderá ser atribuído no campo 655 para identificar o gênero/forma do recurso.
Exemplo de registro MARC moderno
Apresenta-se um exemplo piloto de registro bibliográfico, ajustado ao comentário desenvolvido neste texto e adaptado ao português para melhor leitura de estudante de biblioteconomia. O registro ilustra um moderno registro MARC bibliográfico e no qual se aplicam conceitos de dados vinculados. 

 

Observar o campo 386, que trata da codificação para as características do Criador/Colaborador da obra. Além dos subcampos ?0 e ?1, para aplicação de dados vinculados para termos controlados.

Indicação de leitura:
Program for Cooperative Cataloging. PCC (Program for Cooperative Cataloging) Strategic Directions January 2018-December 2021 (Extended to December 2022). Revised April 29, 2021. Disponível em: https://www.loc.gov/aba/pcc/about/PCC-Strategic-Directions-2018-2022.pdf. Acesso em: 10 dez. 2024.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.