ALÉM DAS BIBLIOTECAS


VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DOS NÚBIOS?

Interessante descobrir o que se mantém encoberto por valores econômicos, políticos, culturais e tecnológicos das nações. Além das Pirâmides de Gizé e da Grande Esfinge, ao lado dos faraós famosos, a exemplo do Tutancâmon, e do simbolismo do Rio Nilo, espinha dorsal do Egito, conhecer o povo núbio faz toda diferença quando se visita esse país.

Inútil procurar em mapas ou em qualquer página eletrônica, província, Estado ou nação chamada Núbia. Nem no Egito nem tampouco no Sudão, país com que o Egito faz fronteira ao Sul. Entre eles, historicamente, está o que, há tempos e tempos idos, foi considerado território núbio, localizado entre a primeira catarata do Nilo (Assuão ou Aswan, Egito) e a sexta catarata (Cartum, Sudão). Nessa época remota, o Egito abrangia a maior parte do que era então conhecido como Baixa Núbia, entre a primeira e a segunda cataratas, enquanto a Alta Núbia correspondia ao Sudão. No entanto, com a construção da barragem de Assuão e a subsequente formação do lago Nasser, tudo isto desapareceu sob as águas deste grande reservatório artificial. Mas vale a pena esclarecer que a Baixa Núbia também foi nomeada como Baixa Etiópia, o que justifica o fato de, na ópera Aida, quatro atos, música de Giuseppe Verdi e libreto de Antonio Ghislanzoni, a protagonista Aida se apresentar como princesa etíope, embora fosse uma personagem núbia. Tudo isto na estreia mundial ocorrida na Casa da Ópera, no Cairo, em 24 de dezembro de 1871.

Crianças núbias

 

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.

Embora não seja nossa pretensão discorrer sobre a história da Núbia, reafirmamos que os núbios são um antigo povo africano nativo da região do Vale do Nilo, estendendo-se entre o Sul do Egito e o Norte do Sudão, com uma história que remonta a, aproximadamente, 300 mil anos, conhecidos tanto pelos reinos de Kush e Meroé quanto pela 25a Dinastia de faraós negros que governou o Egito. Diz a história oficial, que, a princípio, eram chamados de Ta-Seti (Terra do Arco), local onde os núbios comercializavam ouro, ébano e marfim com outros povos e nações, incluindo o próprio Egito, em tempos de guerra e de paz, haja vista que chegaram a dominar o território egípcio por mais de um século.

Quer dizer, o território núbio não mais existe. Em seu lugar, sobrevive o povo núbio em povoações díspares, às vezes, distantes umas das outras, em luta permanente para manter viva sua cultura, ou seja, crenças, conhecimentos e saberes, artes, leis, costumes, hábitos, valores, tradições, objetos e construções. Com pele mais escura e estatura geralmente mais elevada, muitos dos núbios possuem olhos claros em oposição aos egípcios árabes. E mais, destacam-se por sua habilidade como arqueiros e por sua vocação agrícola. Mantêm língua e música próprias.

Chama atenção o colorido e a riqueza dos trajes, sobretudo, das mulheres, quando de eventuais espetáculos musicais e de dança voltados para o turista, quando portam longas túnicas bordadas e de cores vivas. As casas humildes, mas, também, coloridas, e, por vezes, decoradas com desenhos nas paredes, encantam. As barcas, idem.

Barcas coloridas e sorriso nos rostos

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.

Por entre casas de adobo e pelas ruelas das vilas, circulam crocodilos, símbolo de proteção e instrumento de sedução para os menos afoitos. Os camelos esbanjam glamour lindamente ornamentados para passeios por entre as aldeias núbias.

 

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.

Não há qualquer exagero em assegurar que o povo núbio difere dos demais que vivem no Egito, seja o grupo árabe majoritário, sejam os grupos minoritários. Dentre estes últimos, menção aos: (I) ciganos ou povo Romani (grupo étnico nômade com origem na Índia há mais de mil anos, e que carrega consigo cultura rica, baseada, especialmente, na tradição oral, nos laços familiares e em línguas próprias); (II) beduínos do Sinai (árabes nômades e seminômades que povoam a Península do Sinai, Egito); (III) berberes de Siwa, indígenas de origem berbere, que vivem no Oásis de Siwa, deserto ocidental do Egito próximo à fronteira com a Líbia.

Com a construção da barragem de Assuão e o lago Nasser, a nação Núbia tudo sumiu. Algumas famílias decidiram permanecer em Assuão, que abriga até hoje, os povoados núbios mais relevantes, exatamente, na ilha Elefantina, o que não exclui a existência de núbios em outras partes da cidade ou na margem ocidental do rio Nilo. Outros grupos foram mais para o Norte, formando comunidades nas cidades de Kom Ombo e de Nasr Nouba. Há quem tenha seguido rumo à capital Cairo, embora aí vivam bem mais dispersos, o que pode ser um risco iminente para o processo de aculturação.

Em visita a uma aldeia núbia, em Kom Ombo, tivemos o prazer de saborear seus chás e “bolos”, além de curtir (para quem ama) as tatuagens provisórias executadas em hena, com extrema rapidez, por suas mulheres, tudo, sempre, em câmbio de alguns dólares ou euros. As aldeias núbias oferecem, pois, hospitalidade, culinária e artesanato. Para se ter ideia de como o turismo chegou de forma intensa por lá, quando de nossa visita, em pleno 1 de janeiro, uma das escolas estava aberta à visitação, em meio ao belo sorriso universal de crianças, ávidas, como quaisquer outras de diferentes nacionalidades, por regalos ou bugigangas, no caso, em troca de algumas moedas. Uma professora esteve ao nosso lado, mostrando um pouco de seu alfabeto bem distinto de qualquer outro, nitidamente orgulhosa de sua missão.

Crianças e jovens: preservação da cultura núbia

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.

Assim, se, territorialmente, a Baixa Núbia já não existe, no Egito, seu legado continua vivo no coração de sua gente.  É a prova inconteste de que o país tem muito a oferecer com a experiência etnográfica e cultural junto ao povo núbio que se esforça para conservar seus traços culturais e de seus ancestrais!


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Março/2026



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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com