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PREVISÕES DO ORÁCULO OCLC

O comentário, neste mês, refere-se ao relatório "2004 Information Format Trends: Content, Not containers", elaborado pela OCLC (Online Computer Library Center) sobre as tendências dos formatos e conteúdos de informação para os próximos cinco anos. A notícia sobre a disponibilidade do relatório, foi circulada na lista de discussão e divulgação sobre bibliotecas e informação digital na Internet - Bib_virtual, inicialmente postada pelo professor Murilo Bastos da Cunha. A leitura do documento é recomendada a todos os profissionais de informação, e pode ser obtido no sítio da OCLC.

O relatório atualiza previsões anteriores sobre as tendências dos formatos para materiais colecionados pelas bibliotecas. Apresenta um panorama sobre o fenômeno crescente do conteúdo criado, publicado e compartilhado fora da estrutura das bibliotecas tradicionais. Alguns dos aspectos abordados no documento, servem de alerta aos bibliotecários em relação à ambiência digital de informação. Progressivamente, as pessoas estão consumindo conteúdos independentemente do invólucro que os contém (por exemplo: livros, periódicos, weblog ou páginas web). Esta postura é considerada "agnóstica", uma clara indicação de que os usuários de informação estão mudando pela crescente aculturação às tecnologias digitais.

Até mesmo os produtores ou editores comerciais, atentos às mudanças, começam a suprir os consumidores de informação mais experientes com o fornecimento de conteúdo sob uma variedade de formatos, e com tabelas de preços diferenciadas e relacionadas ao próprio volume de conteúdo consumido. Exemplo, neste sentido, é o procedimento de liberar parte de uma entrevista de determinada personalidade em formato HTML e PDF no sítio de uma publicação eletrônica, enquanto o acesso ao conteúdo integral da entrevista pode requerer pagamento ou taxa de subscrição. No sítio da Amazon é possível visualizar esta tendência ao se pesquisar um livro e ler algumas páginas de seu conteúdo e avaliar a pertinência ou não de sua aquisição, tendo desta forma acesso ao conteúdo completo da obra.

No Brasil, algumas editoras adotam recursos semelhantes para suas publicações impressas comercializadas em bancas de revistas. As matérias destas publicações apresentam indicação de detalhamento disponível na internet. O acesso a esse conteúdo requer a compra do fascículo ou ser assinante da coleção. Aos bibliotecários, certamente, surgem novas situações que envolvem o acesso e uso de uma informação que se estende para além dos canais tradicionais. Principalmente, para os seus processos de aquisição, tratamento técnico e disseminação, responsáveis por lidarem com uma informação, agora ainda mais fragmentada e metamorfoseada.

Outro aspecto refere-se ao fato da publicação impressa tradicional estar diminuindo seu ritmo. O conteúdo de qualidade escoa fora dos recipientes tradicionais e torna o seu espaço aberto na web. Esta situação é facilitada pela cultura e pelas ferramentas tecnológicas para auto-arquivamento de textos de pesquisa. Universidades, notadamente da área de saúde e medicina, são publicadoras de artigos de suas pesquisas mais destacadas. Projetos de "open archives" ilustram o escoamento dos suportes impressos para repositórios digitais. O próprio documento cita relatório recente da National Science Foundation: "Knowledge Lost in Information", ao prever que os recursos digitais colaborarão para a duplicação das pesquisas produzidas nas próximas décadas. O OAIster, mecanismo de repositórios de OAI da Universidade de Michigan, tem coberto, atualmente, cerca de 80 repositórios de e-print, demonstrando que os textos científicos eletrônicos aumentaram 41% de 2002 a 2003.

As bibliotecas que tradicionalmente estiveram à frente de um universo de materiais inconstantes defrontam-se agora com uma crescente e complexa tipologia documental publicado e auto-editado. Porém, as principais tendências no ambiente dos conteúdos não estão restritas às tecnologias e, sim, aos desafios sociais que alteram profundamente como os conteúdos são criados, colecionados, usados, compartilhados e preservados. Assim como outras tendências da "infosphere". As mudanças de ruptura verificadas acontecem fora da arena da gestão da informação tradicional. São também produzidas pelos fabricantes de artefatos tecnológicos (telefones e dispositivos de entretenimento), orientados pelos interesses e gostos dos consumidores apoiados em tecnologias.

A fabricação e a ampla adoção dos smartphones, é exemplo indicativo de uma nova era em um ambiente de conectividade onde as pessoas podem interagir cada vez mais com outras pessoas e provedores de conteúdo, sempre que queiram e de qualquer lugar. Neste sentido, os bibliotecários necessitam estar atentos sobre como os conteúdos são criados, encontrados e utilizados pela auto-suficiência crescente da sociedade. Tais mudanças já eram previstas, décadas atrás, por Marshall McLuhan em seu livro de 1964, "Understanding Media" no qual declarava que "o meio é a mensagem". Atualmente, o texto eletrônico circula amparado por diversos dispositivos portáteis. Esse é o caso da mensagem de e-mail processado desde um notbook, um computador de mão (palmtop, handheld, smartphone) ou telefone celular. Portanto, sendo um indicador para outros tipos de mídia. É, também, uma indicação de que os livros não são mais objetos sagrados de informação, da mesma forma o rádio, o videocassete ou a televisão. Fatos que justificam os consumidores serem agnósticos quanto aos suportes de informação. O uso de dispositivos para a comunicação em rede muda o conteúdo multimídia em torno da rede mundial de maneira rápida e crescente. Os mencionados exemplos de e-mail e os citados dispositivos eletrônicos de mão, são usados para melhorar ou substituir os canais tradicionais de transporte de conteúdos, serviços de entrega postal e de consulta e empréstimo entre bibliotecas. Muito destes conteúdos são enviados a um pequeno ou a nenhum custo aparente para o remetente e o recebedor. Nesta situação, destaca-se como conseqüência a explosão dos conteúdos. Pesquisas citadas pelo relatório da OCLC, salientam que 31 bilhões de e-mail circularam na Internet em 2002. Para 2006, as estimativas são de 60 bilhões de e-mails diários. Mesmo com a previsão de que 40% a 50% tratarem de spam, restará um tráfego aproximado de 22 bilhões de mensagens contendo conteúdos significativos ou aproveitáveis.

Outras pesquisas, citadas no mesmo relatório, baseando-se na análise do comércio global, estimam que 75% das empresas norte-americanas utilizem o correio eletrônico para troca de conhecimento. Esse conhecimento segue anexo às mensagens ou como endereço de sítios e portais. Este procedimento é chamado de "payload" (algo como carga útil) que acompanha a correspondência eletrônica. Os dados sugerem que o número de e-mail transportando conteúdo giraria ao redor dos 16 bilhões de mensagens diárias. Em contraste, aos dados comentados, a movimentação de conteúdos pelos canais tradicionais de distribuição é muito menor. Para exemplificar, em 2000, as bibliotecas universitárias norte-americanas apresentaram um movimento de empréstimos diários envolvendo livros e periódicos na ordem de 51 mil itens. Para 2007, estima-se que os serviços de telefonia móvel serão adotados por 82% da população dos Estados Unidos; 92% no reino Unido; 82% na Austrália e 75% na Nova Zelândia. Calcula-se que em 2004, foram vendidos mundialmente, 57 milhões de celulares com recursos de fotografia digital. Na rede mundial quase 2 bilhões de mensagens de textos forma enviadas diariamente usando esses dispositivos móveis.

No Brasil, a imprensa deu destaque ao número de celulares que apresentou crescimento de 41%, em 2004. Em números absolutos chegou a 65,6 milhões, com um acréscimo de 19,2 milhões de aparelhos em relação a dezembro de 2003. Atualmente, os indicadores apontam que 1 em cada 3 brasileiros possui um telefone celular. Indica, também, que estes aparelhos já passam de um terço da população brasileira, estimada em 182 milhões de pessoas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O cenário mostra para os bibliotecários brasileiros, que não basta determinar normas de restrição ao uso de celulares no ambiente das bibliotecas, mas ao contrário, estabelecer ações que permitam explorar esses artefatos como canais de divulgação de informações bibliográficas. Em resumo, dispor conteúdos para estes recursos móveis é o que preconiza o relatório da OCLC.

As tecnologias que mudam os conteúdos ao redor da Internet fazem aumentar as expectativas dos usuários para o recebimento de informações em tempo real, no formato desejado. Os produtores reagem os seus conteúdos em unidades menores de fácil e rápido consumo, bem como os seus custos.

O relatório também se refere à crescente aceitação de conteúdos oriundos da chamada "publicação social", essencialmente conteúdos abertos e liberados de quaisquer restrições de acesso, única e amplamente divulgados e disponíveis na Internet. Como exemplos de publicação social há o wiki e o blog que são indicadores das mudanças na paisagem da informação que conduzem a um novo paradigma de publicação. O fato é que as pessoas ganham poder de serem publicadores. Recursos como: wiki e blog são uma nova maneira que os bibliotecários e as bibliotecas têm para atingir sua comunidade ou ter ao menos conhecimento sobre a mesma.

O relatório da OCLC contém previsões, também para as bibliotecas universitárias, no quesito orçamento e gestão de acervos. Prevê que nos próximos cinco anos, os métodos das bibliotecas colecionarem e disseminarem a produção científica serão diferentes.

Por fim, em complementação ao assunto tratado, há que se destacar o Seminário sobre desafios para as bibliotecas no pós-internet, promovido pela Biblioteca do Senado Federal e que teve como tema "Cenários para a sobrevivência das bibliotecas". O evento contou com a participação de representante da OCLC na América Latina e Caribe, falando sobre os desafios que surgiram após a internet, tanto para os bibliotecários quanto para os usuários. Informações e cópia da apresentação podem ser acessadas no endereço: http://www2.senado.gov.br/sf/biblioteca/destaque.asp


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.