ESTAÇÃO BIBLIOTECA E AS PLATAFORMAS DO CONHECIMENTO


ESTAÇÃO BIBLIOTECA E AS PLATAFORMAS DO CONHECIMENTO

Uma grande estação, com suas numerosas plataformas. A biblioteca com sua vasta rede de estantes e seus livros: uma estação e as plataformas do conhecimento. Foi assim, que, na infância, imaginei a biblioteca: a Biblioteca Pública Estadual Epifânio Dórea, na cidade de Aracaju, à qual frequentei desde os 11 anos de idade. Como aluno de um colégio público estadual, o Atheneu Sergipense, era instado a ler literatura brasileira. O ingresso no curso ginasial levou-me a frequentar a biblioteca pública. Primeiramente, em busca dos clássicos para as famosas resenhas de literatura, mesmo que não tendo noção alguma de literatura, e posteriormente dando vazão às famosas pesquisas enciclopédicas.

 

As escolas de então não tinham bibliotecas. E as de hoje continuam não tendo; o que nos traz a triste realidade que a sociedade não avançou qualitativamente, ao menos na questão biblioteca. O avanço, é que das capitais houve expansão para as cidades que compõem as regiões metropolitanas. Fora dos grandes eixos, quando muito, existem as salas de leitura.

 

Lembro-me do então prédio da Epifânio Dória, quando comecei a frequentá-la. E que um dia vim a ser o diretor (Embora em um prédio diferente; pois já havia acontecido a mudança, saindo do centro da cidade para um bairro nobre, a Praia 13 de Julho, que prescinde da sua existência.). O prédio foi tombado pela Secretaria de Estado da Cultura, nos anos 90, como referência de Art Dêcor na paisagem urbana do centro histórico de Aracaju, segundo informações do historiador Luís Fernando Soutelo. Um edifício imponente, com pé direito muito alto e aparência entre o neoclássico e o moderno, fazendo parte de uma área importante da cidade: a Praça Fausto Cardoso. Lá estavam: o Palácio do Governo, a Assembleia Legislativa, a Delegacia do Ministério da Fazenda e o Edifício Walter Franco, que abrigava diversas secretarias de estado. Ou seja, a Biblioteca Pública gozava do prestígio de ter como vizinhos órgãos importantes da estrutura administrativa.

 

Foi lá que fiz as minhas primeiras incursões em pesquisa, ou a pesquisa-cópia de verbetes enciclopédicos, como ficariam conhecidos com o desenvolvimento teórico da biblioteconomia. E foi lá que tive contato com os clássicos exigidos para leitura no curso ginasial e científico. A ela, sou agradecido pela oportunidade de levar para casa José de Alencar, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, Castro Alves, Olavo Bilac, José Mauro de Vasconcelos, entre outros. Sempre com o compromisso da devolução no prazo estipulado, o que me tornou um leitor disciplinado, pois os usuários corriam o risco da não renovação, caso algum outro tivesse solicitado a obra então emprestada. A primazia era a do empréstimo, não da renovação.

 

À época não existia a diversidade de suportes da informação de hoje, muito menos as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Era o reinado do livro. Secundado por jornais e revistas. Mas, paralelo, para a felicidade da faixa infanto-juvenil-adolescente (a época, adultos excluídos), haviam os gibis, então popularizados, e posteriormente elitizados, rebatizados de histórias em quadrinhos, as HQ. Não existiam as atuais e modernas feiras para a comercialização massiva dos gibis, mas havia o troca-troca, que acontecia sempre aos domingos nas sessões de cinema. Os gibis já lidos, e que não faziam parte de alguma seleção especial, de alguma coleção, eram destinados à troca; assim gibis já lidos eram permutados por gibis ainda não lidos. Isto, justamente, porque não existiam nas estantes da biblioteca. Ou seja, não havia tais plataformas para essas viagens.

 

Nos gibis viajava pelas planícies americanas de Buffalo Bill, Zorro e Tonto, e pelo espaço sideral de Flash Gordon e dos Jetsons, a ficção científica apresentada com propostas e temáticas completamente diferentes. Ia até Gotham City, acompanhar as ações do homem-morcego, o Batman, e pegava-me admirando a arquitetura da cidade, que eu transferia para a fachada da Biblioteca Pública e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, denominados de Art Dêcor; ia até Metrópolis, para ler o Planeta Diário, onde trabalhava o Clark Kent, que guardava a identidade secreta do Super Homem. Sonhava com a bela Diana, mesmo sabendo que corria um grande risco, por ela ser noiva do Fantasma, com os seus 400 anos de vida, o espírito que andava. Divertia-me com as revistinhas, como eram chamadas as do tipo Os sobrinhos do Capitão, O gato Félix, Pepe Legal, Mickey e João Bafo-de-Onça, e dos impagáveis Irmãos Metralhas, entre outras.

 

Alguns personagens foram transformados em heróis das HQ, ícones da modernidade, e surgiram as produções cinematográficas grandiosas e irretocáveis. E passaram a frequentar as bibliotecas. Mais que isso, ganharam plataformas específicas. Estantes classificadas especificamente como quadrinhos. Mais ainda, ganharam estações especiais: as bibliotecas dedicadas às HQ.

 

À época, a leitura de gibis proporcionava-me conhecer personagens que depois ganhavam vida. Aguardava com expectativa a chegada dos heróis dos gibis no cinema, ainda sem o glamour atual das megaproduções hollywoodianas. Era a época dos cinemas de bairro. Daí para a descoberta de filmes que haviam sido feitos baseados em livros. Como os de Júlio Verne. Isso proporcionava expedições para encontrar livros temáticos na Biblioteca. Então, a estação biblioteca, através das suas plataformas, as estantes com seus livros, e a leitura que fazia deles, proporcionava-me ultrapassar fronteiras, já era possível ter a fantasia trazida para a minha realidade mesmo que em uma sala de espetáculos.

 

Foi assim que iniciei minha relação com a instituição biblioteca. Uma estação, onde adentrava, escolhia uma plataforma, embarcava em um vagão e fazia minha viagem através dos livros. Era possível conhecer alguma coisa além de Aracaju, além de Sergipe. No futuro bibliotecas me proporcionariam viagens, físicas, para discutir temas a elas relacionados, nos mais diversos eventos que participaria; e, mais surpreendente, viria a ser diretor daquela biblioteca em que fiz minhas primeiras viagens literárias, e porque não também os primeiros experimentos científicos.

 

Com o conhecimento da biblioteconomia, reinventei, no meu imaginário, a estação biblioteca. Ela é organizada, metódica, dividida e classificada em dez plataformas, destinadas a embarques em aventuras específicas. Assim, ao adentrar em uma biblioteca, qualquer usuário ou consulente, com base na Classificação Decimal de Dewey (CDD) ou Universal (CDU), pode embarcar na viagem de conhecimento que desejar. Tem diante de si dez plataformas, as classes principais, com diversas linhas, as subclasses, e pode escolher a que lhe interessar. A biblioteca descortina-se para um mundo fabuloso.

 

Tempos idos, tempos vindos. Os gibis transmutaram-se pomposamente em HQ. Das permutas nas sessões vespertinas dominicais dos cinemas de bairro, hoje inexistentes, passaram a ter espaços grandiosos em feiras específicas e a consultas locais em acervos valorizados. A biblioteca que vivi, deu lugar a uma instituição moderna, transformada então com propostas de centros de informação e cultura, com acervos físicos e virtuais. As linhas imaginárias da minha infância e juventude, que me levavam a buscar livros em estantes, foram modernizadas e ampliadas com os links, linhas operacionalizadas virtualmente, possibilitando ao usuário embarques incontáveis sem precisar locomover-se fisicamente de uma estação para outra.

 

As Tecnologias da Informação e Comunicação, com todas as facilidades proporcionadas pela informática, significaram para as bibliotecas, aquilo que no passado o cinema significou para o teatro, ou a televisão para o rádio: prelúdio do fim. Bibliotecas passaram a caber em um computador pessoal sob a forma de links para informações e documentos, para artigos e textos científicos.  Um livro eletrônico passou a fornecer coleções de livros de literatura. Mas, com toda a modernidade presente, a instituição biblioteca resiste.

 

Resiste, continua ativa, crescendo, ampliando-se em estações centrais, como as existentes nas universidades, com suas dez plataformas, conduzindo os usuários em viagens incessantes em busca de conhecimento. E é isto que queremos mostrar nesta coluna. Não nova, mas reformulada, publicando textos escritos por mim, já publicados na imprensa sergipana para um público geral, discutindo questões da leitura, biblioteca, biblioteconomia e suas afinidades com a cultura e a sociedade.

 

Esta coluna, renovada, abordará o conhecimento em que se inserem as práticas culturais e sociais, incluindo-se a biblioteconomia, tencionando levar textos já publicados, conforme parágrafo anterior, para um público específico de leitores: profissionais da biblioteconomia e profissionais afins que acessam este sítio.

 

A coluna também possibilitará a publicação de textos novos.


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JUSTINO ALVES LIMA

Bibliotecário aposentado pela Universidade Federal de Sergipe. Graduado e mestre em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo