ESTAÇÃO BIBLIOTECA E AS PLATAFORMAS DO CONHECIMENTO


UM HIATO ABISSAL

No texto-abertura desta Coluna nos referimos às bibliotecas centrais como estações centrais necessárias para a organização da informação nas universidades. Os anos 70, do século passado, foram pródigos no surgimento das bibliotecas centrais universitárias. Em Sergipe, a novidade dos anos 70, chegaria ao final do ano de 1979, criando um hiato de aproximadamente dez anos.

 

O crescimento da universidade brasileira nos anos 70 e 80 (século XX) proporcionou o aumento do número de unidades de informação. As universidades impulsionadas pelo “milagre econômico” cresceram, surgindo novos campi.

 

Com o surgimento dos campi, e o aumento do número de bibliotecas, consequentemente, da circulação da informação, foi necessário repensar a forma de administrar os processos meios para que a disseminação da informação fluísse satisfatoriamente. Era necessário unificar o tratamento de entrada da informação eliminando distorções na aplicação dos códigos existentes por parte de bibliotecas isoladamente. Surge então o sistema de bibliotecas.

 

A criação de sistemas de bibliotecas no Brasil, em universidades mais desenvolvidas, ocupa o espaço dos anos 80. Na Universidade Federal de Sergipe, que havia criado a biblioteca central dentro da mesma década nacional, estabeleceu-se um hiato muito grande quanto à criação de um sistema de bibliotecas, rompendo as expectativas da concretização deste.

 

Somente no ano de 2011 é que foi enviada, a partir da Biblioteca Central, uma proposta para a criação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Sergipe. Segundo informações da direção da Biblioteca Central a proposta foi rejeitada pela Gerência de Recursos Humanos por acarretar despesa financeira com a criação de cargos. Ora, seria impossível mudar de uma estrutura de Biblioteca Central de um Campus, para a estrutura de bibliotecas de cinco Campi, sem criar cargos.

 

Entretanto, no mesmo período, o Centro de Processamento de Dados, foi aparelhado com uma estrutura superior. Supostamente, ali residia uma importância administrativa e pedagógica não vista na questão estruturante da informação e documentação.

 

Com a recusa administrativa para a implantação de um sistema, o hiato entre a criação da Biblioteca Central e a necessidade de um sistema, tornou-se abissal, superando os hiatos presumíveis em quaisquer circunstâncias.

 

A Universidade Federal de Sergipe, continua sem contar com um Sistema de Bibliotecas, embora já possua cinco campi. Neste momento, a direção da Biblioteca Central, que assumiu no início deste ano de 2013, discute uma nova proposta de sistema, para ser apreciada pela administração.

 

A proposta encaminhada no ano de 2011, e rejeitada, originalmente apresentada por mim aos pares da Biblioteca Central, teve o seu conjunto formalizado com organograma e regimento discutido e aprovado em reuniões. No entanto, a fundamentação, o corpo textual de apresentação, é de minha lavra, e trago para esta plataforma, como contribuição para discussões no campo da biblioteconomia.

 

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1          Criada no ano de 1967, pelo Decreto Lei n. 269, a Fundação Universidade Federal de Sergipe (UFS) era composta por Faculdades e Institutos isolados, que por sua vez mantinham as bibliotecas das suas respectivas unidades, as denominadas bibliotecas setoriais. Com a criação do Campus da UFS, a Cidade Universitária “José Aloísio de Campos”, no município de São Cristóvão, houve a reunião das Faculdades e Institutos, até então em endereços diferentes, e consequentemente, a necessidade de se reunir as bibliotecas setoriais. Assim, foi instituída a Biblioteca Central (BICEN), com a finalidade de incorporar os acervos até então existentes nas setoriais, e a partir de então ser a responsável por todo o planejamento e organização dos documentos bibliográficos e informação acadêmica e científica da UFS.

 

À época, vivia-se o procedimento da implantação de bibliotecas centrais em todo o País como forma de melhorar os procedimentos de prestação de serviços e dinamizar o processo de uso da informação bibliográfica necessária para o ensino, a pesquisa e a extensão. Com o advento da centralização extinguiram-se as bibliotecas setoriais, que reunidas em um único lugar tornaram-se uma única biblioteca, uma biblioteca central.

 

No caso da Universidade Federal de Sergipe, continuou a existir uma biblioteca setorial, a da Faculdade de Medicina, unidade isolada que não foi transferida para a Cidade Universitária, devido a peculiaridades que culminou na criação do Campus da Saúde, com a biblioteca deixando de ser setorial para ser a biblioteca de um novo Campus. Logo depois, na própria Cidade Universitária, foi criada a Biblioteca Comunitária (BICOM) e incorporada ao Colégio de Aplicação.

 

Atualmente a Biblioteca Central é responsável administrativamente pelas bibliotecas das unidades acima citadas. Uma situação anormal, considerando-se que a BICEN é uma unidade administrativa de um Campus, cabendo-lhe as mesmas prerrogativas das outras bibliotecas. Pensada no contexto de serviços bibliotecários tem como pressuposto a guarda e a disseminação das coleções e processos técnicos centralizados: seleção e aquisição, catalogação e classificação.

 

Na ausência de um órgão maior, que coordene as ações das bibliotecas recém-criadas, tudo fica a cargo da BICEN. No entanto, a Biblioteca Central é um órgão que tem necessitado crescer à medida que vão surgindo novos cursos na Instituição. Em que pese o aumento substancial de número de cursos nos últimos dois anos, e consequentemente do número de alunos presentes à Instituição, a Biblioteca Central tem estrutural e hierarquicamente permanecido a mesma. A BICEN não tem acompanhado de forma organizacional a política de crescimento da Universidade.

 

A rigor, independente do projeto de expansão da Universidade, já de há muito tempo que a BICEN vem precisando de uma reestruturação administrativa. Tal medida foi proposta no ano de 1994 quando foi solicitado um novo Regimento para a Biblioteca Central em que setores fossem criados como forma de modernizá-la dentro do crescimento da Universidade e a nova perspectiva de pós-graduação que se instalava na UFS. A BICEN teve sua proposta rejeitada, ao se alegar que seriam criadas despesas. Fica a impressão da necessidade de crescimento didático, em estrutura física e conteúdo, sem, no entanto, existir a preocupação correspondente com o órgão que dá o suporte de crescimento no conhecimento, no ensino e na pesquisa.

 

Com o surgimento dos núcleos de pós-graduação a Universidade tem convivido com a criação de inúmeros espaços físicos de apoio bibliográficos. São várias bibliotecas, assim chamadas, num contínuo crescimento sem qualquer justificativa oficial. Some-se a essa estrutura alternativa o aparecimento de salas de leitura, patrocinadas por alguns Centros Didáticos e alguns cursos de graduação. A pulverização de acervos tomou contornos geográficos e políticos, seja pela instalação em qualquer espaço, seja pelo não reconhecimento da Biblioteca Central como espaço regimentalmente soberano, sem qualquer preocupação com o caos bibliográfico a ser deflagrado no futuro da Instituição.

 

A decisão, por parte da Universidade Federal de Sergipe, da implantação de um Sistema de Bibliotecas, consolidará uma nova filosofia de gestão da informação, fundamentada na introdução de novos procedimentos, que, por certo, alterará substancialmente a relação entre os segmentos administrativos, bibliotecários, docentes e discentes.

 

2          Dentro do projeto de expansão da Universidade Federal de Sergipe foram criados três novos Campi: o Campus na cidade de Laranjeiras, o Campus na cidade de Itabaiana, e o Campus na cidade de Lagarto. Somados ao Campus de São Cristóvão (sede da administração geral), e ao Campus da Saúde, em Aracaju, totalizam cinco Campi da Universidade Federal de Sergipe.

 

Com duas bibliotecas no Campus de São Cristóvão, a Biblioteca Central (BICEN) e do Colégio de Aplicação (BICOM), e mais quatro nos Campi acima citados, são seis as bibliotecas existentes hoje na UFS. Some-se a isso um grande número de bibliotecas surgidas e pulverizadas geograficamente no entorno da Pós-Graduação, em seus Núcleos específicos, e as salas de leitura em alguns setores da graduação. Uma situação de difícil definição seja do ponto de vista administrativo, seja do ponto de vista informacional. Pela perspectiva do primeiro, revela-se um problema operacional quando não existe mão-de-obra especializada para tratamento da informação, o que ocasiona um acervo subestimado em quantidade e qualidade; pela perspectiva do segundo, revela-se um problema informacional quando não existe uma integração dos vários acervos existentes na Instituição, o que ocasiona perda de conteúdo para leitura e pesquisa.

 

A criação de um Sistema de Biblioteca tem como meta reunir as bibliotecas oficiais dos cinco Campi da UFS, bem como reunir todas as bibliotecas e salas de leituras pulverizadas na Instituição, mantendo-as nos mesmos projetos e programas bibliográficos, dentro de uma estrutura de serviços cooperativos e planejados, na modernização das ações da preservação dos acervos e no aperfeiçoamento do atendimento aos usuários, através de melhoria nos recursos humanos.  É objetivo do Sistema a integração das bibliotecas à política acadêmica e administrativa da Universidade.

 

O crescimento da Universidade estabelece uma nova situação em relação às bibliotecas da Instituição. O aumento do número de cursos e o crescimento exponencial do número de alunos fazem com que exista uma preocupação com a questão da informação. Além do tradicional suporte impresso, uma demanda continuamente expressiva, existem as demandas por materiais multimídia e virtuais. Assim, ao perfil do usuário são incorporadas novas preocupações de aquisição e de atendimento da biblioteca.

 

Tome-se a questão dos recursos humanos, uma situação preocupante, considerando-se os números quando da criação da Biblioteca Central, e hoje, considerando-se a mesma Biblioteca e as novas bibliotecas criadas. Essas e outras questões são determinantes na análise que à Biblioteca Central da UFS não pode ser imputada a responsabilidade de gerência de todas as outras Bibliotecas da Instituição. Mas tem sido essa a realidade administrativa das Bibliotecas da UFS. Bibliotecas consolidadas em Campi diferentes com chefias independentes por tais órgãos, e sem uma estrutura que caracterize de fato uma subordinação. Na ausência de uma estrutura subordinante, a Biblioteca Central assume, incondicionalmente, a supervisão dos trabalhos técnicos, da coordenação administrativa e das necessidades bibliográficas e documentais de todos os Campi.

 

Para sanar as dificuldades que se interpõem, existentes por uma estrutura que se agigantou em consequência do plano de expansão porque passa a UFS, é imprescindível a criação de um órgão centralizador de decisões e coordenação das bibliotecas existentes nos cinco campi da Universidade Federal de Sergipe. Nesse sentido, é inadiável a criação de um Sistema de Bibliotecas. Uma realidade existente hoje em todas as Universidades Federais que contam com um número de bibliotecas espalhadas em vários campi.

 

3          Com o processo de expansão desencadeado na UFS, mais três Campi foram criados e com eles mais três bibliotecas foram criadas. O que significa que mais três bibliotecas ficaram sob a coordenação da Biblioteca Central. Assim, atualmente a Biblioteca Central, enquanto órgão suplementar é responsável administrativamente por todas as unidades de informação bibliográfica, que fazem parte da Universidade Federal de Sergipe. Hoje, são seis unidades gerando conhecimento para o ensino, a pesquisa e a extensão para os cinco campi da Universidade Federal de Sergipe.

 

No entanto, para dar provimento e competência ao órgão suplementar Biblioteca Central previsto no artigo 52 do Estatuto da Universidade Federal de Sergipe, foi idealizado um regimento, que aprovado em 11 de agosto de 1979, quando da criação da própria Biblioteca, perdura até hoje, julho de 2013.  Diz o Regimento, em vigor, que a Biblioteca Central é constituída por uma Secretaria de apoio administrativo e por duas divisões de caráter funcional: a de Processos técnicos e a de Apoio aos leitores.

 

Essa estrutura, preservada oficialmente, há muito já não representa a realidade funcional e administrativa do Órgão e da Instituição. Observa-se, portanto, que não cabe competência à BICEN, nem responsabilidade pelas outras bibliotecas existentes, uma vez que o Regimento nas disposições transitórias subordina as setoriais então existentes ao diretor da Biblioteca Central (Art.23, $ 1º), para efeito de reestruturação dos serviços (Art. 23), enquanto não fossem extintas (Art. 23, $ 2º). Extintas as setoriais e, posteriormente, criadas as bibliotecas nos novos Campi, estas ficaram sem subordinação regimental.

 

Por isso, a criação de novos cursos de graduação na UFS, em número expressivo, bem como da expansão de vagas em cursos de pós-graduação, com a criação de novos cursos, já bastariam para serem repensadas as bases de sustentação da questão da informação bibliográfica na UFS. É o próprio projeto de expansão, com a criação de quatro novos Campi e de novos cursos que exige um projeto especial como a criação de um Sistema de Bibliotecas.

 

É preciso, urgentemente, que sejam definidas ações para implementação de novos processos, que aglutinem os processos já existentes, de forma a transformá-los contribuindo para a qualidade do projeto de expansão da Universidade Federal de Sergipe.

 

Neste sentido, é inadiável a criação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Sergipe, a ser consolidado por Resolução e definido por Regimento Interno, contemplado uma estrutura com coordenação, diretorias técnicas e bibliotecas dos vários Campi. Um Sistema tendo como atribuições: a integração das bibliotecas à política acadêmica e administrativa; o apoio aos programas de ensino, pesquisa e extensão; e a colaboração técnico-científica, literária e artística entre os pesquisadores, docentes, discentes e técnico-administrativos da Universidade Federal de Sergipe.


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JUSTINO ALVES LIMA

Bibliotecário aposentado pela Universidade Federal de Sergipe. Graduado e mestre em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo