CMAI – COMPETÊNCIA E MEDIAÇÃO EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


  • O objetivo do grupo CMAI se concentra em aprofundar percepções teóricas e práticas da Ciência da Informação, Biblioteconomia e áreas correlatas, que dialoguem com as temáticas oriundas da sociedade contemporânea. As repercussões do grupo estão focadas em um sistema aberto de retroalimentação constante, no qual reflexões se interrelacionam com as práticas, direcionadas para a consolidação da comunidade científica e profissionais mais atuantes, criativos, motivados, inovadores e protagonistas. O grupo reúne pesquisadores, alunos e profissionais interessados em investigar objetos de estudo que dialogam com as teorias basilares do CMAI, quais sejam: Competência em Informação e Midiática; Comunicação e Divulgação Científica; Mediação, visando propor diagnósticos, reflexões, ações e modelos que atendam as demandas sociais.

PERIÓDICOS CIENTÍFICOS BRASILEIROS E A REVISÃO POR PARES ABERTA

Clotilde Andrade

 

Journal Des Sçavans e Philosophical Transactions, os primeiros periódicos científicos, surgiram a partir da compilação de cartas particulares trocadas entre intelectuais por volta do século XVII, que segundo Ziman (1981) de tom informal, e muitas vezes com rasuras e rascunhos, tinham o interesse de comunicar, bem como reivindicar e documentar suas descobertas científicas.

Com o intuito de não mais restringir o acesso ao diminuto círculo associado às sociedades científicas da época e de ampliar o alcance a esse material, surge a engenhosa ideia de copiar e distribuir as cartas entre os interessados em diferentes regiões de Inglaterra e da França. Porém, a quantidade de material a ser veiculado tornou-se cada vez maior, e as instituições decidiram por definir membros de suas sociedades para opinar acerca dos manuscritos. Esse é, para muitos autores como Pessanha (1998) e Biagioli (2002) o surgimento da revisão por pares, que se consolidou e tornou prática imprescindível para a manutenção da qualidade e dos padrões técnicos das produções científicas.

Apesar de importantes, os modelos de revisão por pares são distintos. Dessa forma, os mais adotados pelos periódicos científicos contemporâneos são os denominados modelos cegos, assim chamados porque, durante o processo de apreciação do manuscrito, de modo geral, a identidade de autores e avaliadores são anonimizadas. Contudo, o advento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) provocou significativas alterações no contexto humano social, político e econômico, e, por conseguinte, nas práticas de produção e disseminação do conhecimento científico.

Neste sentido, tais alterações viabilizaram a eclosão de movimentos como a Ciência Aberta e a E-science, que baseados nos canais de comunicação científica e nas infraestruturas tecnológicas, buscam possibilitar o desenvolvimento de novas formas de construir, avaliar e quantificar a produção científica. Tais movimentos visam, a partir de outros domínios, fomentar a disseminação, a colaboração, a ética, a reprodutibilidade e a transparência na pesquisa, e a revisão por pares aberta é um dos domínios a ser citado como exemplo.

Existem divergências na literatura científica acerca da definição de revisão aberta, como afirma Ford (2013, tradução livre). Em uma revisão de literatura, a própria autora identificou oito características relacionadas ao conceito de revisão aberta: revisão assinada, ou signed review; revisão divulgada, ou disclosed review; revisão mediada pelo editor, ou editor-mediated review; revisão transparente, ou transparent review; revisão coletiva, crowdsourced review; revisão pré-publicação, ou pre-publication review; revisão síncrona, ou synchronous review; revisão pós-publicação, post-publication review.

De modo semelhante, em uma revisão sistemática, Ross-Hellauer (2017, tradução livre) distinguiu  sete características: identidades abertas, ou open identities; pareceres abertos, ou open reports; participação aberta, ou open participation; interação aberta, ou open interaction; publicação pré-revisão, ou open pre-review manuscripts; revisão ou comentários pós-publicação, ou open final-version commenting e plataformas abertas, ou open platforms.

Há semelhanças entre as características avistadas pelos dois autores, como é o caso da ‘revisão assinada’ e da ‘identidades abertas’, as mais adotadas pelos periódicos, segundo Ford (2013) e Ross-Hellauer (2017). Assim, os achados dos autores demonstram que, apesar das divergências conceituais, há uma breve uniformização da adoção das características mencionadas.

A natureza da revisão aberta é marcada pelas diversas possibilidades de flexibilidade, customização e inovação, ou seja, o conceito não é estanque e permite que os periódicos adaptem às características até alcançar um modelo de revisão por pares aberta, que atenda às suas necessidades e o propósito ao qual se quer alcançar. Destarte, apresentamos por meio dos hiperlinks exemplos de periódicos, que têm adotado características inerentes à revisão aberta para elucidar como essa modalidade de avaliação se configura na prática.

No âmbito da Biblioteconomia e Ciência da Informação brasileira, a revista Encontros Bibli, publicada pelo Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina, aponta em sua política editorial que disponibiliza no formulário de avaliação a possibilidade para o parecerista optar por publicar o parecer de forma anônima. Até o presente momento, outubro de 2022, no volume 27, dois artigos foram publicados com os respectivos relatórios de avaliação.

Em agosto de 2022 a Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação (RDBCI), vinculada ao Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Campinas, anunciou novidades em sua política editorial que incluem: I - abertura do processo de revisão por pares em concordância com o parecerista; II - disponibilização dos dados de pesquisa e III - aceitação de preprints. Dessa forma, a revista já tem publicado em seu website os pareceres dos artigos aceitos em que é possível visualizar os comentários e sugestões dos avaliadores, proporcionando maior transparência e ética para o processo e o uso da informação científica e participação da comunidade acadêmica, em especial aos jovens pesquisadores, que ao ler o parecer publicado têm a oportunidade de aprender como desenvolver uma avaliação justa. 

A Ciência da Informação em Revista publicou um artigo já depositado em repositório de pré-print, e, além disso, inseriu em nota de rodapé o nome das duas pareceristas do artigo em questão com as respectivas datas de avaliação.

Nas demais áreas, é possível mencionar o exemplo da Revista de Administração Contemporânea (RAC), publicada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD). A RAC tem utilizado soluções de infraestruturas tecnológicas para tornar o processo de revisão por pares mais transparente. Dessa forma, a revista publica, junto ao artigo, o link para o acesso aos dados de pesquisa, depositados no repositório Harvard Dataverse e para o relatório de avaliação, depositado no repositório Zenodo. O depósito desses materiais em repositórios possibilita a atribuição de DOI, tornando esses materiais citáveis, além de permitir o controle de métricas como a quantidade de visualizações e downloads.

A Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, criada pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pelo Grupo de Pesquisa Linguagem, Identidade e Memória anunciou em editorial do volume 17, número 1 de (2022) a adesão às práticas de ciência aberta, impulsionados pelos novos critérios de indexação da Coleção SciELO Brasil, atualizados em 2020 e que estão convergentes às ações fomentadas pelo movimento da Ciência Aberta e visam estimular o impacto das produções brasileiras. Dessa forma, autores e avaliadores que permitam, terão os pareceres publicados ao final do artigo.

Como podemos perceber, a revisão aberta é considerada uma modalidade de avaliação flexível, em razão das diferentes características comumente atribuídas ao seu conceito. Porém, há o consenso em se admitir que essa modalidade de avaliação permite que a comunidade acadêmica, autores, editores e leitores se envolvam em um processo de publicação mais transparente, ético e justo.

Há quem justifique que a adoção da revisão aberta e de outras práticas consideradas inovadoras (apesar de não serem tão novas), no âmbito dos periódicos científicos, sobrecarregam ainda mais o editor e a equipe, já repletos de diversas demandas de sua vida acadêmica, profissional e pessoal.

Contudo, é interessante relembrar que decerto, em momento nenhum, a ciência e seus métodos evoluíram sem levar em consideração a adoção de práticas que eram também apontadas como inovadoras em sua época. A comunidade acadêmica e seu notório apego a cultura da blind review, mencionado por Garcia e Targino (2017), possui oportunidades para buscar o aperfeiçoamento de procedimentos editoriais e para reforçar a importância e a valorização do processo de revisão por pares para os periódicos, para os autores, para os leitores e para o infindável percurso de evolução do conhecimento científico.

Referências

BIAGIOLI, M. From book censorship to academic peer review. Emergences: Journal for the Study of Media & Composite Cultures, v. 12, n. 1, p. 12-44, 2002.

FORD, Emily. Defining and Characterizing Open Peer Review: a review of the literature. Journal Of Scholarly Publishing, [S. l.], v. 44, n. 4, p. 311-326, jul. 2013. Toronto: UTPress. Disponível em: http://dx.doi.org/10.3138/jsp.44-4-001.

GARCIA, Joana Coeli Ribeiro; TARGINO, Maria das Graças. Open peer review sob a ótica de editores das revistas brasileiras da Ciência da Informação. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 18., 2017, Marília. Anais [...]. Marília: Unesp, 2017. p. 1-21. Disponível em: https://brapci.inf.br/index.php/res/v/104007. Acesso em: 18 out. 2022.

PESSANHA, Charles. Critérios editoriais de avaliação cientÌfica: notas para discussão. Ci. Inf., Brasília, DF, v. 27, n. 2, p. 226-229, 1998. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ci/a/Ntch65p4YJf4rbckkGQ5fWz/abstract/?lang=pt. Acesso em 29 abr. 2022.

ROSS-HELLAUER, Tony. What is open peer review? A systematic review. [versão 2; revisão por pares: 4 aprovados] . F1000Research, v. 6, n. 588, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.12688/f1000research.11369.2. Acesso em: 18 out. 2022.

ZIMAN, John. A força do conhecimento. Belo Horizonte: Ed. Atibaia; São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1981.


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