GEMINAS - GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM MEDIAÇÃO E REPRESENTAÇÃO DA INFORMAÇÃO E OS MARCADORES SOCIAIS DA DIFERENÇA


  • O Grupo foi criado em 22/05/2020 e propõe-se a dinamizar estudos e pesquisas que focalizam a mediação, a representação e a apropriação da informação, em interface com os marcadores sociais da diferença. Objetiva-se, por meio do compartilhamento de saberes, contribuir para intersecção de estudos entre a mediação, a representação e a apropriação da informação na perspectiva do protagonismo social e o respeito à alteridade.

PATRIMÔNIO CULTURAL E OS MARCADORES SOCIAIS DA DIFERENÇA: REFLEXÕES SOBRE O MONUMENTO DE PAULETTE NARDAL NOS JOGOS OLÍMPICOS DE 2024

Igor Oliveira da Silva

Durante as Olimpíadas de Paris 2024, realizadas de 26 de julho a 11 de agosto, o Governo Francês promoveu uma homenagem a dez mulheres que contribuíram, de formas diferentes, para a história da França, a saber: Simone de Beauvoir, Olympe de Gouges, Alice Milliat, Gisèle Halimi, Paulette Nardal, Jeanne Barret, Christine de Pizan, Louise Michel, Alice Guy e Simone Veil. Para isso, apresentou um monumento para cada uma das personagens, inaugurados solenemente na abertura dos Jogos Olímpicos 2024, às margens do Rio Sena.
As mulheres homenageadas foram selecionadas por suas contribuições significativas para a história da França, atuando em diversas áreas, como ciência, política, literatura e ativismo social. As escolhidas têm em comum o fato de terem desafiado normas sociais e culturais de seu tempo, muitas vezes posicionando-se contra as opressões de gênero e outras formas de marginalização. Essa homenagem reflete uma tentativa de corrigir a invisibilidade histórica das mulheres e de outros grupos marginalizados nos espaços urbanos, nos quais os monumentos frequentemente perpetuam narrativas centradas em homens, em especial aqueles em posições de poder.
Ao entender que os “monumentos têm ocupado uma discussão central na tomada de consciência sobre o que está posto nos registros do conhecimento” (Silva; Martins, 2023, p. 05), tomamos esse evento para analisar a homenagem a partir dos estudos da Ciência da Informação, com foco na representação dos Marcadores Sociais da Diferença imbuídos nos monumentos públicos. Ao relacionar os monumentos com o fenômeno informacional, percebe-se que, “apesar de os monumentos serem uma personificação dos personagens e de toda uma estrutura de poder coisificada pela memória nacional, a informação tem um caráter dinâmico e passível de múltiplas leituras e novas significações” (Silva; Martins, 2023, p. 05), o que abre caminho para debates críticos que revisem as narrativas históricas cristalizadas e permitam a inclusão de outras perspectivas, muitas vezes esquecidas e/ou silenciadas.
Mesmo com a louvável iniciativa do Governo Francês de celebrar essas mulheres, é importante reconhecer que a França está inserida em uma matriz global de caráter colonial e elitista. Historicamente, muitas das personagens homenageadas e aclamadas não evidenciam aspectos interseccionais como raça, classe e nação, deixando lacunas significativas na representação das múltiplas vivências e lutas das mulheres.
Assim, pensar essas lacunas na representatividade das mulheres nos direciona a observá-las à luz da interseccionalidade, em que as relações de poder são analisadas por meio dos imbricamentos existentes entre múltiplas estruturas de poder. Conforme Akotirene (2019, p. 14), a interseccionalidade “permite-nos enxergar a colisão das estruturas, a interação simultânea das avenidas identitárias, além do fracasso do feminismo em contemplar mulheres negras [...]”.
Nessa perspectiva, é necessário questionar a concepção de mulher universal construída pela episteme eurocentrada, destacando, inclusive, as diferenças hierárquicas e sociais em que estão inseridas as mulheres em sua ampla diversidade e diante dos estudos feministas. Dessa forma, não é possível pensar que a luta feminista direcionou suas preocupações para todas as mulheres. Em uma perspectiva hierárquica, Akotirene (2019, p. 17) afirma que “as mulheres negras eram trabalhadoras nas casas das mulheres brancas instruídas”. Enquanto estas lutavam, aquelas cuidavam de suas filhas e filhos.
Visando refletir, a partir de uma perspectiva interseccional, fundamentada nos estudos do feminismo negro, a representatividade política e social dos monumentos apresentados, buscou-se identificar, entre as mulheres homenageadas na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, se os nomes aclamados contemplavam questões de gênero, raça e nação. A proposta é observar se a seleção representa de forma equitativa as mulheres, reconhecendo não apenas seus feitos, mas também os marcadores sociais da diferença que evidenciam processos de exclusão e a necessidade de uma reparação histórica que valorize as lutas e contribuições de mulheres negras e de outras identidades marginalizadas.
A proposta interseccional “desde sua fundação, trabalha o marcador racial para superar estereótipos de gênero, privilégios de classe e cisheteronormatividades articuladas em nível global” (Akotirene, 2019, p. 16). Após a análise, identificou-se uma única mulher negra homenageada na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, com um monumento às margens do Sena: Paulette Nardal (1896–1985). Assim, analisaremos essa personagem sob a ótica do marcador social raça e suas encruzilhadas com outros dois marcadores: gênero e nação.
Paulette Nardal (1896–1985) nasceu na Martinica, uma pequena ilha caribenha que, até os dias de hoje, permanece como território ultramarino da República Francesa. Esse fato nos conduz ao primeiro marcador social de nossa análise: a nação. A partir disso, emerge um questionamento sobre as dinâmicas entre a localidade e o pertencimento cultural. Por ser um território ultramarino, a Martinica compartilha laços políticos com a França, mas também mantém especificidades culturais e históricas que a diferenciam. Nesse contexto, cabe refletir sobre como o pensamento político e social da Martinica dialoga com as narrativas hegemônicas dos grandes centros coloniais, como a França, e se reforça ou questiona essas visões. Mais ainda, deve-se considerar se o legado de Nardal contribuiu para uma perspectiva decolonial que privilegia os contextos situados da América Latina e do Caribe, destacando as resistências e epistemologias locais frente à matriz colonial. Esse questionamento pode ser aprofundado à luz do conceito de choque cultural. Quando Paulette Nardal se mudou para a França na década de 1920 para concluir seus estudos em Paris, deparou-se com uma realidade até então desconhecida: a vivência da diferença – e, mais do que isso, da hierarquização – entre raça e gênero. Em seus relatos, Nardal afirma: “Foi na França que tomei consciência da minha diferença” (Nardal apud Russell, 2023). Essa diferença emergiu da sua experiência como mulher negra inserida em um espaço predominantemente branco, urbano e patriarcal.
Conforme destaca Katherine Russell (2023, online), “Em sua migração para a metrópole, ela encontrou sua ‘diferença’ como mulher negra quando a sociedade patriarcal branca a fez sentir ‘isto’”. Para Nardal, sua identidade cultural era o resultado de uma fusão entre as culturas branca francesa e negra das Antilhas. No entanto, ela percebeu que, no contexto da sociedade colonial francesa, esses elementos culturais não eram tratados de forma equitativa, sendo atribuídos valores distintos que refletiam as estruturas de poder e dominação. Essa descoberta marcou profundamente sua trajetória intelectual e política, conduzindo-a a refletir sobre as interseções entre raça, gênero e cultura em uma sociedade colonial.
Apesar dos inúmeros desafios enfrentados em uma sociedade patriarcal e racialmente hierarquizada, Paulette Nardal dedicou-se à luta contra as desigualdades impostas por raça e gênero. Nas décadas de 1930 e 1940, atuou como integrante do movimento francófono da Negritude, contribuindo para o fortalecimento de um discurso que valorizava as identidades negras e combatia as narrativas coloniais que subordinavam essas vozes.
No entanto, o movimento ocupava uma posição periférica na sociedade parisiense, pois “a negritude era incompatível com a identidade cultural francesa dentro do imaginário colonial” (Russell, 2023, online). Essa marginalização era reforçada pela presença de um discurso de oposição, representado pela antinegritude, que questionava as demandas por liberdade cultural, política e social centrais ao movimento da Negritude. Essa oposição buscava preservar os privilégios de uma classe elitista e minoritária, resistindo às transformações estruturais propostas pela luta anticolonial e antirracista.
Além das diferenciações entre a elite e a Negritude, existiam também diferenças dentro do próprio movimento, pois a “cartografia da Negritude não era homogênea” (Boni, 2022, p. 133). Diferentes identidades negras coexistiam dentro de um mesmo movimento, principalmente pelo contexto predominante da participação de homens no movimento. Neste segundo marcador, percebemos o lugar periférico que as mulheres ocupavam em relação aos homens, conforme colocado por Nardal: “as mulheres de cor que viviam sozinhas na metrópole, até a Exposição Colonial, certamente foram menos favorecidas do que os homens de cor que se contentam com um certo sucesso fácil” (Nardal apud Russell, 2023).
Apesar das dificuldades, em 1931, ela tornou-se uma das fundadoras do periódico La Revue du Monde Noir (Boni, 2022). Esse periódico foi um espaço criado para visibilizar, na esfera pública, as subjetividades das mulheres negras e para disseminar as ideias libertárias propagadas à época.
Nardal ofereceu importantes contribuições para o movimento feminista negro iniciado na cidade de Paris. Em uma de suas principais produções intelectuais, intitulada Beyond Negritude: Essays from Woman in the City (Tradução: Além da Negritude: Ensaios de uma Mulher na Cidade), de 2009, é possível compreender como estava estruturado o pensamento intelectual de Nardal sobre temas como raça, gênero e política. A intelectual martinicana ajudou a moldar a literatura negra, refletindo, principalmente, sobre as intersecções de gênero, raça e nação no movimento da Negritude.
A obra de Nardal possibilita a reflexão sobre as intersecções de raça, gênero e nação, fundamentais para o movimento feminista negro no contexto francês. Essa perspectiva se conecta à representação do patrimônio, especialmente nos monumentos. Embora esses marcos sejam vistos como símbolos de homenagem, é importante evitar uma abordagem homogênea, que ignore as especificidades das trajetórias das mulheres em contextos diversos, mesmo que em um mesmo território. Ao refletir sobre esses monumentos, devemos considerar as diferentes camadas de identidade e informação que as visibilizam e tecem a narrativa discursiva sobre a representatividade empregada a estes monumentos.
Conforme afirma Cardona (2021), embora a Biblioteconomia e a Ciência da Informação ainda estejam presas ao paradigma dominante, a inflexão decolonial na América Latina e no Caribe passa a ser observada nas Ciências Humanas e Sociais, das quais fazem parte as ciências em questão, como uma série de processos acadêmicos e sociais de resistência, que estão na perspectiva de romper com esse paradigma dominante.  A partir desta discussão, destaca-se aqui a importância da produção de mulheres latino-americanas e caribenhas para discutir a partir de outras possibilidades epistêmicas e que estas possam contribuir cada vez mais com a formulação do conhecimento, ocupando espaços dentro da memória nacional à qual pertencem, seja por meio dos monumentos públicos ou seja por meio da inserção de seus ideais na produção do conhecimento científico.
Diante das reflexões aqui apresentadas, espera-se que a Ciência da Informação possa ter um olhar atento para integrar as contribuições das mulheres negras no âmbito da produção do conhecimento e dos saberes situados, produzidos em espaços distantes dos centros hegemônicos do conhecimento, e que as mulheres, em sua diversidade, possam integrar a memória nacional de seus países. Que, a exemplo de Paris, outros países, europeus ou não, possam valorizar a importância das mulheres negras e de suas contribuições dentro de seus territórios.

REFERÊNCIAS
AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.
BONI, Tanella. Mulheres em Negritude: Paulette Nardal e Suzanne Césaire. Caderno de Traduções. Porto Alegre, n. 47, 2022. 
DUQUE-CARDONA, Natalia. Biblioteconomia para a América Latina e o Caribe, proposta teórica e filosófica para discussão. Link na Revista, Rio de Janeiro, v. 17, nov. 2021.
NARDAL, Paulette. Beyond Negritude: Essays from Woman in the City. Albany, Nova York: State University of New York Press. Traduzido com uma introdução e notas por T. Denean Sharpley-Whiting.  2009.
RUSSELL, Katherine. Black International Mobilities and Feminist Itineraries: Jessie Redmon Fauset and Paulette Nardal. Tese (doutorado). Escola de Doutorado culturas e sociedades, Université Gustave Eiffel, França, 2023. Disponível em: hal.science/tel-04061845/. Acesso em: 14 out. 2024.
SILVA, Igor Oliveira da. MARTINS, Gracy Kelli. A dimensão intercultural da informação nos monumentos da américa do sul. In.: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB), 23., 2023, Aracajú, SE. Anais [...]. Aracajú, SE: ENANCIB. 2023. Não pag. Disponível em: enancib.ancib.org/. Acesso em: 14 out. 2024. 

Minicurrículo
Igor Oliveira da Silva - Historiador. Bibliotecário. Mestre e doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba, no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI/UFPB). Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mediação e Representação da Informação e os Marcadores Sociais da Diferença. 


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