GEMINAS - GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM MEDIAÇÃO E REPRESENTAÇÃO DA INFORMAÇÃO E OS MARCADORES SOCIAIS DA DIFERENÇA


  • O Grupo foi criado em 22/05/2020 e propõe-se a dinamizar estudos e pesquisas que focalizam a mediação, a representação e a apropriação da informação, em interface com os marcadores sociais da diferença. Objetiva-se, por meio do compartilhamento de saberes, contribuir para intersecção de estudos entre a mediação, a representação e a apropriação da informação na perspectiva do protagonismo social e o respeito à alteridade.

A CASA SUELI CARNEIRO E AS PRÁTICAS DECOLONIAIS DE MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO

Izabella Félix

Este texto é oriundo de uma dissertação em andamento, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, e tem como foco refletir sobre a instituição Casa Sueli Carneiro enquanto dispositivo informacional, evidenciando a mediação da informação sob uma perspectiva decolonial, presente em suas práticas.

No Brasil, o processo de colonização resultou na negação de diversos direitos à população negra, como o acesso à educação. Essa exclusão histórica provocou uma profunda ranhura social, levando à subalternização dos saberes tradicionais das pessoas negras e, simultaneamente, restringindo seu acesso à educação formal, ainda fundamentada em um modelo ocidental. Segundo Maria Lugones (2014, p. 941), “o processo de colonização inventou os/as colonizados/as e investiu em sua plena redução a seres primitivos, menos que humanos, possuídos satanicamente, infantis, agressivamente sexuais, e que precisavam ser transformados”. Para a população negra, a colonização resultou em práticas sistemáticas de desumanização e deslegitimação de seus saberes, processos que ainda persistem e se reconfiguram na contemporaneidade (Moura, 2021; Garcês-da-Silva; Garcez; Silva, 2022; Côrtes, Silva, 2024).

O percurso histórico desses acontecimentos gerou, no tempo presente, múltiplas limitações para as pessoas negras. A desigualdade de oportunidades no acesso à educação, ao mercado de trabalho, à cultura e ao lazer são exemplos que ainda marcam a realidade brasileira. Diante desse cenário, surgiram movimentos sociais organizados voltados ao enfrentamento das opressões em diversas esferas, como o Movimento Negro Unificado e o Movimento de Mulheres Negras, que, por meio de suas lutas, possibilitaram a conquista de direitos fundamentais para a população negra.

Atualmente, instituições como a Casa Sueli Carneiro atuam no combate ao racismo, ao sexismo e às desigualdades de classe, desenvolvendo ações de cunho decolonial que promovem a valorização dos saberes ancestrais das pessoas negras e fortalecem o pensamento crítico antirracista.

A instituição recebeu esse nome em homenagem à filósofa, professora, escritora, antirracista e feminista negra Sueli Carneiro, ampliando seu legado ao reconhecer uma trajetória marcada pela conquista de direitos para a população negra, especialmente para as mulheres negras. Filósofa e doutora em Educação pela Universidade Estadual de São Paulo, Sueli Carneiro possui mais de 180 publicações em jornais, revistas e livros.

Figura 1: Doutora Sueli Carneiro

Fonte: Sesc Digital

Ao longo de sua trajetória como intelectual e ativista antirracista, foi agraciada com importantes prêmios nacionais e internacionais que reconhecem o impacto de sua atuação nas lutas por direitos humanos e igualdade racial. A missão da Casa Sueli Carneiro é salvaguardar o acervo pessoal e intelectual da militante — fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra — além de ampliar o acesso à produção de conhecimento afrocentrado, com ênfase nas contribuições de mulheres negras.

Em 2020, a instituição operava de maneira informal na articulação política do movimento negro e do feminismo negro. Em 2021, a instituição criou o ambiente virtual Casa Sueli Carneiro (https://casasuelicarneiro.org.br/), ampliando o acesso à informação para as pessoas que não podiam conhecer a casa presencialmente.

Figura 2 – Página inicial do Site Casa Sueli Carneiro

Fonte: Dados da pesquisa (2025)

No ano de 2024, a instalação da instituição passou a ser a casa em que Sueli Carneiro residiu por mais de quatro décadas, localizada em São Paulo, que, ao longo de sua história, acolheu estudantes, encontros ativistas e práticas religiosas do Candomblé (Casa Sueli Carneiro, 2025a). A Casa Sueli Carneiro constitui-se como um dispositivo informacional (Pieruccini, 2004), que favorece ações mediadoras pautadas nas resistências à colonialidade e no reconhecimento dos conhecimentos e das contribuições das mulheres negras, historicamente negadas pelas estruturas coloniais e racistas. O conceito de mediação da informação, neste estudo, segue a perspectiva do professor Oswaldo Almeida Júnior, que a define como:

Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando à apropriação de informação que satisfaça, parcial e momentaneamente, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais (Almeida Junior, 2015, p. 25).

Para compreender de forma concreta como essa mediação se materializa, é essencial observar um de seus principais espaços de atuação a biblioteca da instituição, que se configura como espaço estratégico na disseminação e apropriação da informação, reúne obras colecionadas por Sueli Carneiro ao longo de sua trajetória acadêmica e de ativismo. Além disso, oferece visitas guiadas, destacando sua relevância como espaço de reflexão, fortalecimento das lutas antirracistas e valorização de um acervo afrocentrado, composto majoritariamente por títulos de autoras e autores negros. As ações da Casa buscam priorizar as vivências, sobretudo das mulheres negras, nos âmbitos acadêmico, cultural e político.

Figura 03: Biblioteca da Casa Sueli Carneiro

   Fonte: Site Casa Sueli Carneiro, 2025.

O Acervo Sueli Carneiro, como demonstrado na Figura 3, reúne cerca de 1.494 títulos entre livros e periódicos, constituindo a base de apoio para o desenvolvimento de múltiplas atividades. É composto majoritariamente por obras de autoras e autores negros, configurando-se como uma importante ação de mediação da informação voltada ao enfrentamento do epistemicídio. Os itens estão disponíveis em formato físico, nas dependências da instituição, e podem ser consultados online, por meio do índice do acervo disponível no site. A organização do acervo foi realizada com base na Classificação Decimal de Dewey (CDD) e no sistema Cutter, garantindo padronização e acesso facilitado às obras.

Este texto teve como objetivo apresentar e visibilizar a Casa Sueli Carneiro enquanto um dispositivo de informação cujo espaço é pluriversal, integrando diferentes ambientes — a biblioteca, o arquivo pessoal de Sueli Carneiro e o espaço institucional —, e criando um cenário de diversidade voltado à disseminação da informação crítica, consciente e fundamentada na perspectiva decolonial. Ao final da dissertação teremos a análise do material sob a perspectiva da mediação da informação, e esperamos compartilhar com vocês neste espaço.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (org.). Mediação Oral da Informação e da Leitura. Londrina: Abecin, 2015. p. 9-32. ABECIN.

CASA SUELI CARNEIRO. Sobre nós. 2025a. Disponível em: https://casasuelicarneiro.org.br. Acesso em: 17 jul. 2025.

CASA SUELI CARNEIRO. Sobre a Casa. Disponível em: https://casasuelicarneiro.org.br/conheca-a-casa. Acesso em:15 jul.2025.

CASA SUELI CARNEIRO. Página inicial. Disponível em: https://casasuelicarneiro.org.br. Acesso em:15 jul.2025.

CÔRTES, Gisele Rocha; SILVA, Aurekelly Rodrigues da. Feminismo Negro, Interseccionalidade e Mediação da Informação. Folha de Rosto, v. 9, n. 2, p. 242-268, 21 jan. 2024.

GARCÊS-DA-SILVA, Franciéle Carneiro; GARCEZ, Dirnéle Carneiro; SILVA, Rubens Alves da. Conhecimento das margens: da injustiça epistêmica à valorização do conhecimento negro em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Revista ACB, Florianópolis, v. 27, n. 1, p. 1-19, 2022.

LUGONES, Maria. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22(3): p. 935-952, setembro-dezembro, 2014.

MOURA, Maria Aparecida. Racismo estrutural, epistemologia da ignorância e a produtividade do discurso colonial: impactos na manutenção do acervo bibliográfico da fundação cultural palmares. Liinc em revista, Rio de Janeiro, v. 17, n. 2, p. 1-22, 2021.

PIERUCCINI, Ivete. A ordem informacional dialógica: estudo sobre a busca de informação em educação. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.

SESC DIGITAL. Doutora Sueli Carneiro. 2024. Disponível em: https://ead.sesc.digital/cursos/course-v1:sescsaopaulo+c022+2024_dispositivo/sobre. Acesso em:15 jul.2025.

Minibiografia:


Izabella Félix – Designer, bibliotecária e mestranda em Ciência da Informação pelo PPGCI/UFPB. Pesquisa mediação da informação, protagonismo social, interseccionalidade, epistemicídio negro e gênero. Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Mediação e Representação da Informação e os Marcadores Sociais da Diferença, onde articula seus estudos sobre a informação como instrumento de resistência e transformação social.


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