AO PÉ DA ESTANTE


AO PÉ DA ESTANTE... À MODA ORIENTALISTA

Houve um tempo, por vezes recorrente, em que andava na moda a ficção orientalista. Ficção completa, porque muitas vezes os autores nunca tinham saído de suas próprias cidades europeias. Outros até viajaram, mas pela Europa mesmo, sem nenhum contato verdadeiro com culturas árabes, chinesas ou japonesas. Os autores empregavam esse artifício para despertar o interesse de seus leitores pelo exótico, e como forma de divulgar suas ideias e críticas à sociedade, sem por tal serem punidos. Selecionamos três desses autores, não na ordem em que viveram e publicaram, mas por critérios pessoais de gosto.

O primeiro, Samuel Johnson (1709-1784), inglês erudito, de grande influência e muitas citações, escreveu um único romance, A História de Rasselas, príncipe da Abissínia, em apenas uma semana, por precisar de dinheiro para enterrar sua mãe. São “reflexões morais” (como diz a orelha), mas não se trata de uma obra excepcional, salvo pela brilhante tradução, em língua portuguesa, de Marta de Senna, com perfeito uso da linguagem e da gramática em 150 páginas, na edição de 1994, da Imago.

O segundo, o Barão de la Brède e de Montesquieu, Charles de Secondat, conhecido como Montesquieu (1689-1775), ainda jovem empregou o mesmo artifício em seu romance de grande sucesso, Cartas Persas, publicado em 1721, que alia ao orientalismo a narrativa por correspondência, então muito em voga. As cartas originam-se pretensamente das mais diversas cidades da Europa e do Oriente, e nelas Montesquieu aproveita para criticar as instituições políticas, os costumes e a Igreja da França de seu tempo, através do olhar de seus personagens, viajantes persas. Algumas cartas também descrevem os costumes do harém ou serralho, na verdade com a intenção de pregar o direito à igualdade das mulheres.

Trata-se de obra ainda divertida e instigante, tendo sido aqui editada pela Paulicéia, em 1991, e primorosamente traduzida e apresentada pelo professor de filosofia política, ensaísta e profundo estudioso dos usos e costumes das sociedades de todos os tempos, Renato Janine Ribeiro, que ainda nos brinda com uma breve mas acurada análise deste tema...nas orelhas do livro!

Mais de vinte anos depois, deixando de lado o orientalismo, Montesquieu se consagraria definitivamente por sua obra O Espírito das Leis, mas isto já é outra história.

O terceiro autor, François-Marie Arouet, conhecido pelo pseudônimo Voltaire (1694-1778), é o mais interessante dos três. Teve vida ativa, tanto como político e filósofo quanto escritor, destacando-se como um dos grandes pensadores do Iluminismo. Exilou-se obrigatoriamente algumas vezes, de fato fugindo aos perseguidores. Sua obra orientalista, Zadig, ou O Destino, conta a “história” de um “filósofo babilônico”. Zadig, na verdade, encobre as ideias "perigosas" do próprio Voltaire. Embora sem o recurso do orientalismo, vale sem dúvida destacar um de seus melhores contos, ainda atualíssimo: Cândido, ou O Otimismo. Recomendamos fortemente as peripécias do jovem Cândido e seu orientador, Pangloss, uma crítica muito bem humorada e satírica das instâncias de poder à época. Passados dois séculos e meio, Voltaire continua sendo, sem sombra de dúvida, fonte de prazer e conhecimento.


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SARASVATI

Nascida e criada na Índia, estudou na Universidade de Madras, morou em Goa (onde aprendeu português) e viajou pelo mundo em busca de autores e compositores diferentes. Apaixonada pela música brasileira, fixou-se em São Paulo, pela convivência pacífica entre religiões as mais diversas.