PRÁTICAS PROFISSIONAIS EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


COMO ATUAR EM BIBLIOTECAS COMUNITÁRIAS?

A biblioteca comunitária, embora seja considerada um relevante ambiente de atuação biblioteconômico-informacional, tanto pelo viés social, quanto pelas possibilidades de aplicação profissional, ainda carece de maneira muito acentuada de práticas de ensino, pesquisa, extensão e aplicação profissional.

Parte considerável dessa carência, decorre da falta de investimentos públicos-privados-autônomos nas bibliotecas comunitárias, assim como na quase inexistência de políticas públicas para este ambiente de informação, acarretando em uma limitação nas possibilidades de atuação biblioteconômico-informacional-cultural-educacional.

Desse modo, considerando o paradoxo de que, por um lado, a biblioteca comunitária possui um enorme potencial de atuação, em especial, no que se refere as práticas de informação, cultura e educação e, por outro lado, uma carência de investimentos e políticas públicas, fica a pergunta: como é possível para a Biblioteconomia e o bibliotecário a atuação em bibliotecas comunitárias?

O primeiro ponto que respalda a resposta para a interpelação concebida é relativo a condição ontológica do pertencimento: o bibliotecário ou representante biblioteconômico precisa ser ou se inserir na comunidade de maneira continuada para que haja um processo de confiança entre a construção da biblioteca comunitária e o representante da Biblioteconomia que irá gerenciá-la. 

O segundo ponto está relacionado a necessidade de criação de uma biblioteca comunitária. Comumente, a necessidade nasce de um processo de socialização cotidiana de fazeres humanos de representantes da própria comunidade. No entanto, é pertinente um apoio especializado da comunidade biblioteconômica para promoção de uma consultoria para que comunidades construam suas próprias bibliotecas comunitárias. Esse apoio poderia ocorrer através de:

  1. ação extensionista, por meio de programa, projeto, curso ou prestação de serviços sobre atuação na biblioteca comunitária;
  2. criação de uma incubadora a fim de galvanizar ações entre a comunidade acadêmica para implementação no mercado biblioteconômico-informacional das bibliotecas comunitárias;
  3. criação de bibliotecas laboratório-modelo para aplicação entre a comunidade acadêmica;
  4. práticas de pesquisa sobre biblioteca comunitária desenvolvendo proposições elucidáveis para atuação;
  5. projetos gerais de parceria entre Universidade, Associação Profissional, Conselhos e/ou Sindicatos para atuação em bibliotecas comunitárias.

É interessante observar a relevância da formação acadêmica em Biblioteconomia (mais precisamente da Universidade na formação acadêmica nos mais variados fazeres e concepções) e os órgãos de classe para proposição integrada de práticas profissionais, informacionais, culturais e educacionais em bibliotecas comunitárias.

O terceiro ponto é concernente as formas de sustentação financeira, estrutural e de pessoal da biblioteca comunitária. É salutar observar que uma biblioteca comunitária, em virtude de nascer de um processo de socialização cotidiana de fazeres humanos, normalmente não possui recursos específicos para manutenção e desenvolvimento, gerando uma instabilidade em seu modus operandi e na sua concepção (diretrizes de atuação), sendo pertinente encontrar meios de captação contínua de recursos para uma manutenção, principalmente, financeira, estrutural e de pessoal, de modo que favorece, de modo lógico, os processos de gestão da informação e também de produção, acesso, recuperação e uso da informação na biblioteca e, de modo pragmático, os serviços e produtos de informação oferecidos.

O quarto ponto está associado a constituição dos públicos da biblioteca comunitária. É muito comum associar a biblioteca comunitária, a biblioteca pública pelas similaridades de públicos atendidos e pelo papel informacional-social de ambas, entendendo a biblioteca comunitária como um ambiente de informação agregado a biblioteca pública que descentraliza as práticas de informação em comunidades específicas. Isso significa que a biblioteca comunitária deve atuar, sobretudo, como uma extensão programática das bibliotecas públicas e escolares, agindo como uma espécie de catalisadora das necessidades cotidianas de informação da comunidade. Logo, é fundamentalmente relevante que a biblioteca comunitária busque diálogo e apoio mútuo junto a escola e a biblioteca pública para construção de ações integradas que busquem a satisfação dos desejos/demandas/necessidades da comunidade.

O quinto e último ponto, que sintetiza a aplicação dos três primeiros, reside na seguinte questão: o que pode uma biblioteca comunitária oferecer ou fazer pela comunidade? O quadro que segue representa possibilidades de atuação da biblioteca comunitária:

Quadro 1 – Possibilidades de atuação da biblioteca comunitária

Tipo de ação

Significado

Exemplos

Ação cultural

Conjunto de desenvolvimento de técnicas e conhecimentos para condução e gestão das práticas de cultura na biblioteca comunitária.

Construção de projetos culturais para captação de recursos (financeiros, humanos e infraestrutura) e desenvolvimento de práticas nas bibliotecas comunitárias;

Transmissão de informações via serviços e produtos sobre aspectos artísticos, memória e elementos da cultura em geral;

Estímulo a atividade artística como dança, teatro, pintura, desenho etc. por meio da criação de serviços e produtos de informação;

Realização de atividades voltadas para memória, patrimônio;

Práticas para alfabetização de crianças, jovens, adultos e idosos por meio das atividades culturais;

Eventos como palestras, cursos, minicursos, diálogos formais e informais, grupos de estudo etc. que valorizem o acervo do ambiente de informação;

Elaboração de manuais/guias/cartilhas relativos à cultura da comunidade representada nos acervos;

Práticas de mediação cultural sobre temas sugeridos pela comunidade.

Educação de usuários

Formação via cursos, treinamentos e outras atividades de qualificação referente a otimização da busca, localização, seleção, acesso, uso e apropriação da informação, visando à construção de conhecimentos, tomadas de decisão e resolução de problemas.

Cursos sobre práticas profissionais;

Cursos sobre incentivo à leitura e a pesquisa;

Cursos, eventos e treinamentos sobre uso da informação no meio físico e virtual;

Treinamentos sobre uso da web no geral e em particular (redes sociais, sites, blogs, bases de dados etc.);

Treinamentos sobre o desenvolvimento de trabalhos escolares e acadêmicos;

Elaboração de produtos como tutoriais, guias, cartilhas esclarecendo sobre perspectivas no uso da informação no cotidiano da comunidade;

Estímulo as práticas de letramento informacional (uso de tecnologias, estímulo à produção de conhecimentos e ênfase no aprendizado);

Realização de cursos/oficinas/treinamentos sobre as obras/autores mais utilizados no ambiente de informação;

Realização de cursos/oficinas/treinamentos sobre assuntos mais sugeridos pela comunidade;

Realização de cursos/oficinas/treinamentos sobre aspectos que resgatam a memória da comunidade de usuários;

Disponibilizar espaços físicos e virtuais para que os usuários possam reunir-se para debater temas diversos atinentes ao acervo direto e indireto do ambiente de informação;

Realização de cursos/oficinas/treinamentos utilizando a participação dos usuários, aproveitando as competências e habilidades da comunidade para promoção dos serviços de educação de usuários transformando a realização desses eventos em acervo direto do ambiente de informação via registro documental físico ou digital;

É recomendável a concessão de certificados para a comunidade que ministra e participa dos cursos/oficinas/treinamentos, visando formalizar e promover credibilidade institucional as atividades do ambiente de informação.

Dinamização do acervo

É um conjunto de práticas informacionais que promovem vivacidade ao acervo em seus mais diversos suportes/tipologias (bibliográfico, documental, iconográfico, áudio visual, vídeo gráfico e cartográfico) com o respaldo de aspectos disciplinares como a política de desenvolvimento de coleções, serviços de informação, estudo de usuários e fontes de informação e aspectos temáticos como mediação da informação e competência em informação, assim como mediante aspectos técnicos (organização/representação/ sinalização), tecnológicos (prática com acervos em ambientes digitais) e gerenciais (gestão e planejamento do acervo para otimização de serviços, tecnologias e pessoal).

Formalizar como acervo da biblioteca o material direto (aquele oficial que congrega a biblioteca como livros, e-books, periódicos e literatura cinzenta) e o material indireto (aquele não-oficial como bases de dados, repositórios institucionais, bibliotecas digitais, periódicos eletrônicos, materiais audiovisuais, iconográficos, cordéis etc.) valorizando formas de disseminação diversas do acervo direto e/ou indireto junto à comunidade;

Exposição presencial e virtual dos acervos em formato físico e digital;

Frequente divulgação de acervos de bases de dados especializadas, repositórios institucionais e bibliotecas digitais;

Realização de eventos (palestras, mini cursos etc.) com base em assuntos do cotidiano científico valorizando a participação de autores que doam ou ajudam a compor o acervo da biblioteca;

Elaboração de uma política de organização do conhecimento na biblioteca universitária contemplando desde o uso das técnicas para organização até suas formas de mediação/disseminação.

Estímulo à preservação da memória institucional, coletiva e comunitária através da produção de conhecimentos registrados em diversos tipos de documentos (livros, artigos, cordéis, materiais audiovisuais, iconográficos etc.).

Memória

Denota as práticas de armazenamento e preservação em diferentes tipos documentais em níveis físicos e virtuais para acesso das futuras gerações da comunidade.

Tratamento, conservação e restauração de obras raras;

Realização de eventos valorizando temas históricos para a comunidade;

Estímulo da comunicação entre diferentes gerações da comunidade;

Valorizar obras de autores mais expressivos e antigos, visando à preservação e dinamização de ideias, teorias e questões;

Transformar discursos e ideias de expoentes da comunidade em acervo do ambiente de informação;

Registrar os eventos dos ambientes de informação, transformando-os em acervo do ambiente de informação.

Serviços de informação

Atividades e práticas de informação de referência, concepção utilitária, seletiva, alerta, além de prática técnica, pedagógica e institucional concebidas com a finalidade de esclarecer, educar, fomentar a produção do conhecimento, tomadas de decisão, solução de problemas, geração de novos processos comunicacionais e satisfação de desejos, demandas e necessidades.

Referência (físico e virtual) – exposição destacada dos acervos mais utilizados pela comunidade considerando: assunto, tipo de acervo (livro, artigo, folheto, revistas, jornais e outros acervos bibliográficos, iconográficos, áudio gráficos etc.). Exposição no contexto interno do ambiente de informação e nos ambientes virtuais como software, blog, site, redes sociais, e-mail, entre outros.

Informação utilitária (físico e virtual) – balcão de informações sobre o cotidiano social da comunidade (exemplos: saúde, educação, cultura, entretenimento/lazer e utilidade pública. A criação do balcão de informações pode ser feita fora do ambiente físico de informação, visando promover uma imagem estratégica diante da comunidade. Por exemplo, em uma biblioteca universitária ou escolar, o balcão de informações pode ser estruturado no pátio ou na entrada da instituição/organização mostrando a ideia de receptividade.

Disseminação seletiva da informação – serviço personalizado para tipos de usuários específicos como: atualização no acervo do ambiente de informação, dicas de novas leituras sobre temas específicos dos usuários, dicas sobre o surgimento de novas tecnologias emitidos por alertas via e-mail, celular e/ou redes sociais.

Práticas culturais e pedagógicas no âmbito da realização de eventos, formação (cursos, treinamentos), contação de histórias, estímulo à inclusão digital, exposições, ações lúdicas e outras atividades de interesse da comunidade.

Produtos de informação

Materiais físicos e/ou virtuais criados para elucidar os usuários sobre ações específicas da biblioteca comunitária ou do cotidiano social em geral.

Criação de guias, cartilhas, manuais, catálogos, blogs/sites, repositórios, softwares, aplicativos etc. que mostrem a diversidade do acervo do ambiente de informação e toda a diversidade da cultura, educação de usuários, acervo, serviços e outros aspectos inerentes ao cotidiano da comunidade.

Políticas e ações de informação

Referente a elaboração e aplicações de programas, planos, projetos e outras ações em nível Federal, estadual, municipal e comunitário no âmbito da informação.

Elaboração de políticas e ações para organização do conhecimento;

Elaboração de políticas e ações para o uso de tecnologias digitais;

Elaboração de políticas e ações para gestão da informação (acervo, tecnologias, serviços/produtos e pessoas);

Elaboração de políticas e ações para ação cultural;

Elaboração de políticas e ações para educação de usuários;

Elaboração de políticas e ações para dinamização do acervo;

Elaboração de políticas e ações para preservação da memória;

Elaboração de políticas e ações para o desenvolvimento da leitura e da pesquisa.

Fonte: parcialmente elaborado pelo autor e parcialmente adaptado de Jonathas Carvalho (2017).

Vale destacar que a biblioteca comunitária pode atuar de maneira estratégica e plural considerando uma diversidade de aspectos que vão desde as práticas de gestão e organização do conhecimento até práticas de ação cultural, educação de usuários, dinamização do acervo, memória, serviços de informação, produtos de informação e políticas/ações de informação.

Portanto, a biblioteca comunitária possui um efetivo potencial de atuação demandando um olhar mais cauto do Estado, setores privados e segmentos sociais, assim como da Biblioteconomia e áreas das Ciências Humanas e Sociais no contexto das práticas de ensino, pesquisa, extensão, cultura e desenvolvimento humano.


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JONATHAS CARVALHO

Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA).