AO PÉ DA ESTANTE


AO PÉ DA ESTANTE... NA ITÁLIA DO PÓS-GUERRA

Coisa boa redescobrir um bom livro há muito esquecido na nossa estante, não? Pois foi o que aconteceu. Lá estava ele há tanto tempo, quieto, meio envelhecido, com sua capa discreta. O olho bateu nele, a mão o retirou de lá num gesto decidido e folheou-o com calma. Foi lida a dedicatória, singela mas tocante, da amiga que o dera de presente... em 1987! Porque naquela época a vida não corria mansa, e o livro chegava como um alento. Agora, novamente descoberto e lido, novamente cumpriu sua missão consoladora.

Bem, este livro é O décimo clandestino, de Giovanni Guareschi (1908-1968), em edição da Record. São contos muito bem contados, fluidos, que "descem redondo" pela nossa mente e falam à nossa alma. O autor, italiano de Parma, foi também jornalista e humorista. Seu nome se liga a uma série de obras, famosas em décadas passadas, tanto que viraram filmes e programas de TV e Rádio. Nelas, seus personagens principais, o padre-santo Dom Camillo e seu maior oponente, o comunista Peppone, desentendem-se o tempo todo, mas tudo acaba bem no final. No fundo, são como irmãos em que os opostos se atraem. Ainda mais porque Dom Camillo é íntimo de Jesus Cristo, com Ele conversa, por Ele é ouvido e Dele recebe sempre, como não podia deixar de ser, sábios e ponderados conselhos. Nessas histórias, o autor aproveitou para criticar os costumes e a política, seja da Esquerda ou da Direita.

Dom Camillo e Peppone surgem em dois ou três contos deste O décimo clandestino. O que mais importa, no entanto, é que o leitor certamente se envolve com a narrativa aparentemente simples, mas de fato elaborada, e a autenticidade dos personagens, e deixa-se levar pelas histórias às vezes pontuadas por um certo realismo mágico, ou uma ironia e um humor discretos, ou algum mistério logo resolvido adiante, ou um final inesperado. 

Esses contos italianos da época do Pós-Guerra podem fazer rir mas também chorar, e são, enfim, como disse a amiga em sua dedicatória, bem-vindos quando estamos alegres ou quando estamos tristes. Sempre bem-vindos, portanto!


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SARASVATI

Nascida e criada na Índia, estudou na Universidade de Madras, morou em Goa (onde aprendeu português) e viajou pelo mundo em busca de autores e compositores diferentes. Apaixonada pela música brasileira, fixou-se em São Paulo, pela convivência pacífica entre religiões as mais diversas.