AO PÉ DA ESTANTE


AO PÉ DA ESTANTE... ENTRE VIAGENS E CULINÁRIA

Como já ficou dito em resenha anterior, as autobiografias geralmente tendem à ficção, pois quem quer contar seu pior lado? Talvez seja raro detectar a mera invenção quando o autor conta sua vida, mas por intuição ou por força da própria narrativa algo pode soar falso a um leitor. 

Com o livro de hoje acontece o contrário. Trata-se de um romance, obra de ficção portanto, mas contada de forma tão envolvente na primeira pessoa do singular (começa justamente com o pronome "Eu"), que até se poderia ter a ilusão de ser tudo verdade, como em uma autobiografia na qual nada soasse falso. 

Este livro é A viagem de cem passos, lançado em 2010 e editado no Brasil, pela Record, em 2014. Obteve grande sucesso e até virou filme este primeiro romance de Richard C. Morais, jornalista e romancista nascido em 1960 nos Estados Unidos, de mãe americana e pai canadense descendente de portugueses. Morais foi criado na Suíça, e em seus 25 anos na revista Forbes chegou a editor sênior, tendo viajado pelo mundo como correspondente estrangeiro. Em 2003, voltou à terra natal, onde passou a morar com esposa e filha, na Filadélfia, desligando-se da Forbes em 2009. 

Em A viagem de cem passos o principal personagem, Hassan Haji, conta sua história em quatro fases, nas quatro diferentes cidades em que viveu, como se entre uma e outra etapa houvesse a distância subjetiva de cem passos - do menino em Mumbai ao adolescente em Londres, seguindo-se o adulto jovem em Lumière e, finalmente, o homem feito em Paris. 

Desde pequeno, na Índia, Hassan deixa-se envolver pelo caos e a alegria ruidosa da cozinha familiar. Essa experiência de infância norteia um longo aprendizado, no qual, pacientemente, ele aperfeiçoa seu imenso talento culinário, cujo decisivo reconhecimento dá-se já na França, na fictícia Lumière.

Mais tarde, em Paris, meca da culinária, Hassan Haji é levado a perseguir a fama e o prestígio absolutos como chef. A escalada triunfal desvela porém um mundo cruel, onde imperam a competição acirrada, a vaidade e os egos inflados. Nada a ver com o caráter desse indiano, que desde o início busca a verdade interior e mantém-se fiel a suas origens, por mais inóspito que se mostre o momento presente. 

Interessante notar como o autor reforça a verossimilhança da trama ao entrelaçar, com absoluta naturalidade, a trajetória do genial Hassan à de gênios da gastronomia, mundialmente consagrados, bem como outras personalidades famosas. 

O livro surpreende e emociona até nos agradecimentos de praxe, deixados para as páginas finais. No último parágrafo, Morais agradece a seus leitores e deseja a cada um o que pode haver de verdadeiramente prazeroso à alma humana: "Que você, em momentos difíceis, encontre sempre uma pausa para uma refeição restauradora, na companhia de amigos de verdade e uma família afetuosa."

Nós é que lhe agradecemos, Morais!


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SARASVATI

Nascida e criada na Índia, estudou na Universidade de Madras, morou em Goa (onde aprendeu português) e viajou pelo mundo em busca de autores e compositores diferentes. Apaixonada pela música brasileira, fixou-se em São Paulo, pela convivência pacífica entre religiões as mais diversas.