PRÁTICAS PROFISSIONAIS EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


COMO ARQUIVOS, BIBLIOTECAS E MUSEUS PODEM ATUAR A PARTIR DE PERSPECTIVAS EM COMUM?

Um dos temas mais instigantes no campo da informação no século XXI é sobre como Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia podem atuar a partir de perspectivas em comum. Como consequência e dentro deste tema podemos perguntar: como arquivos, bibliotecas e museus podem atuar a partir de perspectivas em comum? 

Uma aproximação acadêmica entre Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia não necessariamente gera de imediato a aproximação no mercado de trabalho entre arquivos, bibliotecas e museus, mas, certamente, estimula muitas reflexões e até perspectivas para um pensamento sincronizado entre a concepção acadêmica e mercadológica. 

O fundamental é que a aproximação dialógica entre Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia seja pensada em três grandes dimensões: a acadêmico-científica, movida pelas instituições de educação superior; a política que está relacionada a aproximação dos órgãos de classe das três áreas como conselhos, associações e sindicatos, visando promover uma mobilização em comum que atenda os interesses das três áreas em nível local, regional e nacional; e a mercadológica, que envolve as práticas dos profissionais da informação, em especial, arquivistas, bibliotecários e museólogos.

Nosso foco neste texto é a última dimensão (mercadológica). No entanto, não é interessante denotar que uma dimensão é mais importante do que a outra, mas devem atuar de maneira interdependente, visando empreender que uma aproximação simultânea nas três dimensões preconiza o caráter holístico do diálogo entre Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia.

No contexto mercadológico, observamos que arquivos, bibliotecas e museus possuem os seguintes elementos em comum e a partir deles é possível pensar uma atuação conjunta entre os três ambientes de informação:

  1. interfaces do fluxo documental e informacional – está relacionado a produção de práticas com e para sujeitos da informação humanos (autores, mediadores e usuários); não humanos (documentos, tecnologias, artefatos etc.); e organizacionais/institucionais (os próprios arquivos, bibliotecas, museus e seus respectivos gestores). Essas interfaces promovem o delineamento sobre o que, a quem e como um ambiente de informação deve fazer para satisfazer desejos/demandas/necessidades da comunidade de usuários;
  2. organizações/instituições – age como representante físico-virtual dos fluxos documental/informacional referentes as múltiplas funções e práticas de informação/documentação de arquivos, bibliotecas e museus como ambientes de informação em termos pragmáticos, cognitivos, estéticos, linguísticos, pedagógicos e vivenciais;
  3. processos de informação – práticas em armazenamento, organização, geração, produção, comunicação, mediação, acesso, uso e apropriação da informação;
  4. tecnologias da informação – suportes digitais/virtuais/analógicos nas práticas documentárias e de informação correlacionados a aplicação das tecnologias de informação em ambientes de informação nos mais diversos ambientes digitais/virtuais (sites/blogs, redes sociais e outros meios interação virtual na web);
  5. gestão da informação – gestão de documentos, gestão eletrônica de documentos (GED), gestão de pessoas em ambientes de informação, planejamento em ambientes de informação, qualidade do documento e da informação.

Estes elementos são uma adaptação nossa ao documento sobre diretrizes curriculares do MEC produzido em 2001 em que buscamos uma atualização e adequação a perspectiva de aplicação mercadológica, visto que consideramos indissociável o legado da construção curricular com o desiderato da aplicação profissional.

Desse modo, a partir dos elementos indicados, identificamos as seguintes perspectivas de atuação em comum entre bibliotecas, arquivos e museus, conforme explicitado no quadro que segue:

Quadro 1 – Perspectivas de atuação em comum entre arquivos, bibliotecas e museus

SETORES DE ATUAÇÃO

NORTEADORES

FORMAS DE ATUAÇÃO

 

 

 

 

 

Gestão da informação

Gerenciamento do acervo.

Gerenciamento dos serviços.

Gerenciamento dos produtos.

Gerenciamento, acesso e uso das tecnologias digitais.

Gerenciamento de pessoal.

Planejamento das atividades dos ambientes de informação.

Avaliação da atividade gerencial dos ambientes de informação.

Formas de dinamização do acervo.

Oferecimento estratégico e dialógico dos serviços.

Uso estratégico e interativo das tecnologias.

Gestão compartilhada e participativa dos ambientes de informação liderada pelos profissionais da informação com a participação da equipe, gestores ao qual o ambiente de informação está inserido e a comunidade de usuários de maneira geral.

 

 

 

 

 

Tecnologias da informação

 

 

Definição de quais programas, softwares, bases de dados, redes sociais, sites, blogs e outros meios tecnológicos devem ser utilizados.

Aplicações pedagógicas das tecnologias digitais.

 

Criação de um sistema de informação software que dê conta da atividade representacional do acervo.

Uso interacional das redes sociais mais utilizadas como facebook, twitter, linkedin etc.

Valorização dos serviços virtuais como forma de ampliar o acesso à informação para os usuários, tais como: serviço de referência virtual, disseminação seletiva da informação, informação utilitária e serviços de alerta.

 

 

 

 

Organização e tratamento da informação

 

 

 

Estratégias dinâmicas para representação do acervo.

Uso de técnicas e linguagens documentárias para otimizar o acesso à informação.

Criação de catálogos dinâmicos expostos no ambiente físico e virtual de arquivos, bibliotecas e museus.

Formas dinâmicas de classificação: a classificação no sistema pode ser convencional, mas é interessante dispor critérios qualitativos de classificação facetada.

Criação de índices, vocabulários controlados e tesauros sobre aspectos de interesse de atuação da comunidade de usuários.

 

 

 

 

 

 

 

Recursos e serviços de informação

 

 

 

 

 

Estratégias para oferecimento de serviços.

Elaboração para o uso das fontes de informação.

Definição dos produtos a serem propostos pelos arquivos, bibliotecas e museus.

Desenvolvimento de serviços diversos como informação utilitária (temáticos, autorais, culturais, utilidade pública), disseminação seletiva da informação (DSI), serviços de referência, serviço de alerta, ação cultural, promoção de leitura e pesquisa.

Criação de produtos como manuais, guias, cartilhas, catálogos, aplicativos, sites/blogs etc.

Elaboração e aplicação de política de acervo/documento/artefato que considere a diversidade documental a ser disposta nos ambientes de informação (materiais bibliográficos, documentais, iconográficos, vídeo gráficos, entre outros).

 

 

 

 

 

Práticas mediacionais

 

 

 

Estratégias de mediação da informação, mediação da leitura e mediação cultural aplicadas a arquivos, bibliotecas e museus

Estímulo à formação de competências em informação

Serviços estratégicos que estimulem a leitura da palavra, leitura do mundo e fomento ao letramento informacional;

Estímulo à formação da cultura da própria comunidade, da cultura regional, nacional, global e popular.

Estímulo à preservação da memória e do patrimônio local, regional, nacional e do próprio ambiente de informação.

Práticas de educação e treinamento de usuários sobre temas diversos relacionados à política, educação, sociedade, meio ambiente, preservação da memória, atividade artística.

 

 

 

 

Pesquisa

 

 

Estratégias para promoção de pesquisa para a comunidade em geral de arquivos, bibliotecas e museus.

Realização de estudo de usuários.

Estímulo à pesquisa para pesquisadores, professores, estudantes, profissionais liberais e outros tipos de usuários por meio da orientação de projetos para qualificação acadêmica ou prática profissional, assim como através de escrita/redação, preservação da memória e práticas artístico-culturais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Práticas políticas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estratégias para execução de políticas, programas, planos e projetos de cunho governamental de caráter Municipal, Estadual e Federal.

 

Elaboração de serviços e produtos vinculados as dinâmicas culturais, educacionais e informacionais em conformidade com as políticas públicas e de iniciativa privada para execução em arquivos, bibliotecas e museus.

Estratégias para captação de recursos via editais nas esferas Municipal, Estadual e Federal e na iniciativa privada para desenvolvimento de atividades político-institucionais em arquivos, bibliotecas e museus.

Execução de atividades político-públicas de leitura, tais como: Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) e outras atividades de incentivo à leitura.

Execução de atividades político-culturais e artísticas relacionadas a memória, patrimônio, diversidade cultural e étnico-racial como Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac); Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural; Programa de Capacitação em Gestão de Projetos e Empreendimentos Criativos etc.

Execução de atividades de informação científica e tecnológica e de inclusão digital, através de aplicações de ações (programas e projetos) desenvolvidos, por exemplo, pelo IBICT (informação para a sociedade; informação para a pesquisa; informação para a gestão em C&T, entre outros).

Fonte: elaborado pelo autor

É possível atestar que a atuação em comum entre arquivos, bibliotecas e museus se dão em variadas perspectivas, mas é a união dessas perspectivas que fundamenta uma atuação mais completa. É interessante observar que as perspectivas elencadas são pensadas de maneira similar entre os ambientes de informação, mas as aplicações devem respeitar as particularidades de cada ambiente.

Portanto, quando pensamos atuação profissional em comum entre arquivos, bibliotecas e museus, estamos afirmando uma atuação coordenada entre gestão da informação, tecnologias da informação, organização e tratamento da informação, recursos e serviços de informação, práticas mediacionais, pesquisa e práticas políticas.


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JONATHAS LUIZ CARVALHO SILVA

Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA).