OBRAS RARAS


MISSÕES JESUÍTICAS NO PARAGUAI - II

(Entrevista com Fernanda Verísssimo)

No mês passado publicamos a primeira parte da entrevista com Fernanda Veríssimo e o trabalho que desenvolveu na JCB no verão americano desse 2003. Aspectos técnicos e outros dos livros impressos por jesuítas e indígenas nas missões paraguaias puderam ser estudados, uma vez que a biblioteca possui 4 dos 6 títulos ainda existentes.
Continuando:

5. O que se conhece da produção editorial paraguaia?
Restou pouca coisa, e a verdade é que não se sabe ao certo quantos livros, além de panfletos, cartas astronômicas etc., podem ter sido impressos nas missões. O período durante o qual se tem certeza que houve impressão é curto: de 1700 a 1727 (a primeira Redução foi fundada em 1609 e os jesuítas foram expulsos em 1767) e os pesquisadores parecem concordar que houve oito títulos certamente impressos nas missões mas, que eu saiba, apenas seis títulos ainda existem.

6. Em palestra recente você disse que a impressão de livros em missões jesuíticas é um capítulo praticamente desconhecido na história da imprensa sulamericana. Seu trabalho é inédito?
Não. Os jesuítas - e, mais especificamente, as missões do Paraguai - são um assunto enorme e pesquisadíssimo. A impressão nas missões é, de fato, menos estudada, mas tem mais gente que trabalha com isso, claro. O assunto tem até os seus grão-mestres, como Toríbio Medina e Guillermo Furlong, mas é verdade que, mais recentemente (afinal, o trabalho de Medina é do final do século XIX e o de Furlong já tem mais de cinquenta anos), há poucos trabalhos sobre o assunto, em geral. Não conheço, no entanto, outras pessoas desenvolvendo pesquisa voltada para os aspectos tipográficos da produção livreira no Paraguai e análise de marca-dágua de papel, além do conteúdo.

7. Você tem no momento algum outro projeto relacionado ao assunto?
Sim. A JCB tem seis edições, em francês, italiano e alemão, de um livro muito conhecido do século XVIII, Histoire de Nicolas I, Roy du Paraguai et Empereur des Mamelus (nenhuma relação com Nicolas Yapuguay, autor), uma história que fez furor na época, sobre um espanhol aventureiro que, depois de aprontar todas na Espanha, torna-se jesuíta, é enviado ao Paraguai, torna-se líder dos índios, luta contra portugueses e espanhóis, sagra-se rei do Paraguai e é convidado pelos mamelucos de São Paulo, um bando de degenerados, a tornar-se imperador. Eu já conhecia o livro na sua provável primeira edição (1756), em francês, mas nunca tinha tido a oportunidade de ver as outras edições. Duas edições italianas, inclusive, têm capítulos adicionais contando da estadia de Nicolas entre os paulistanos. Acho que não existe tradução em português desta história - certamente não com os adendos da edição italiana. Com os livros à disposição na JCB veio a idéia de desenvolver esse novo projeto. Já existem edições comentadas em outras línguas, mas aparentemente não em língua portuguesa. Vamos ver no que vai dar.

8. No decorrer de sua pesquisa na JCB houve alguma descoberta que a fizesse reformular ou ampliar seu projeto original?
Na verdade, eu não tinha a medida exata da riqueza da JCB. Além dos quatro livros das missões, e desse novo projeto citado, tive a oportunidade de examinar muitas outras raridades relacionadas a América colonial, como outros livros impressos na América espanhola, anteriores aos livros impressos no Paraguai. É um acervo incrível, e o que acontece não é tanto uma descoberta que modifique o seu projeto, mas uma expansão das suas possibilidades - o que não deixa de ser um pouco angustiante...

9. Ouvindo você falar em prensa, tipos móveis, papel ... um trabalho como esse seria privilégio de bibliotecário? Como você vê a interdisciplinaridade?
Neste caso, e em tantos outros, a interdisciplinaridade é fundamental. Não sei do que me adiantaria determinar a maneira como estes livros foram produzidos, a tecnologia envolvida, sem ter em mente as circunstâncias da sua produção e as razões da sua existência.

10. A influência do pai na sua vida é claríssima: na paixão pelo futebol, na escolha da profissão (jornalista), e vocês ainda compartilham pelo menos um hobby (você é musicista). Qual a influência do avô Érico?
Olha, mal ou bem, eu trabalho com livros... mesmo que, talvez covardemente, só como objetos físicos! Mas isso pode também ser influência da minha casa, que sempre foi forrada de livros. Não sei. Na verdade, acho que as melhores influências são pessoais - os dois sempre foram pessoas muito gentis, tolerantes e que nunca se levaram muito a sério, qualidades que considero fundamentais e que fico tentando imitar.

___________________________________

Eu tenho observado nesses anos de JCB que não raramente o universo conspira a favor dos pesquisadores que aqui visitam. Alguns, claro, têm melhor sorte do que outros. Como a própria Fernanda diz: "A grande mágica da JCB talvez seja gerir uma incrível trama de livros e de pessoas, que se entrecruzam constantemente; um livro leva a outro, assim como um pesquisador encontra um outro que pode acabar sendo, quem sabe, determinante pro seu trabalho". Só para citar dois exemplos (houve mais): durante sua estada em Providence, Fernanda foi inesperadamente colocada em contato com pesquisadores que estudam assuntos similares ao dela, e três dias antes de sua partida a biblioteca recebeu de um livreiro uruguaio mensagem sobre dois novíssimos livros sobre missões jesuíticas no Paraguai. Coisas da vida.

So long!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.