OBRAS RARAS


O MERCADO DE LIVROS USADOS

O SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), a CBL (Câmara Brasileira do Livro), a Associação Brasileira dos Editores de Livros e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Papel e Celulose patrocinaram, entre dezembro de 2000 e janeiro de 2001, uma pesquisa chamada "Retrato da Leitura no Brasil" em 40 cidades do país. De um público de leitores estimado em 26 milhões - pessoas que leram ao menos um livro nos três meses que antecederam à pesquisa, público esse que não deve ser nem metade do público que é capaz de ler no Brasil -, 17.2 milhões têm acesso a livros, ou melhor, podem comprar livros novos. Faz sentido, quando se pensa na falta de bibliotecas, de livrarias, no deficit educacional e no baixo poder aquisitivo do brasileiro. Os dados confirmam o que se fala há tempos: o brasileiro lê pouco e a bíblia é o livro mais lido. Outros dados: a classe A compra mais, mas são as classes B e C que mais lêem; a maioria dos leitores tem mais de 30 anos; 16% da população concentra em casa 73% dos livros. Isso num país que lançou, entre títulos novos e antigos, 36 mil livros em 2003.

O Brasil ocupa um bom oitavo lugar na produção mundial (só que o livro didático representa metade da produção nacional e é adquirido pelo governo federal). Editores, livreiros e alguns segmentos do governo continuam a debater o assunto, mas eu pergunto, sem querer simplificar assunto tão complicado, onde anda uma entidade do livro de âmbito nacional, que envolveria profissionais de todas as áreas afins, incluindo, por exemplo, os da Empresa de Correios e Telégrafos (para entrega nas muitas cidades onde não há livrarias). Às vezes penso que o livro se torna acessível sempre aos mesmos... Muito já foi feito, e muito mais ainda há por fazer. A recente lei que isenta a produção, comercialização e importação de livros do pagamento do PIS-Cofins-Pasep é mais um passo nesse sentido e todos queremos ver o resultado desse ato na etapa final, ou seja, quando o pobre leitor vai comprar um livro. Incluir um na cesta básica vale também. O livro é mais ou menos como aquela música que diz "qualquer maneira de amor vale a pena". Qualquer maneira de livro vale a pena.

Seja como for, é do mercado de livros usados que queremos falar. No Brasil, ele cresce devagar, mas já é expressivo. Em livrarias, camelôs, bancas de jornal, ou (menos) na internet, há a cada ano mais sebos vendendo livros, e também discos, CDs, etc. É um mercado que tende a crescer, já que o poder aquisitivo da população é baixo.

Mas será esse apenas o motivo do crescimento? Pode ser.

E pode ser que o Brasil esteja embarcando no crescimento mundial do mercado de livros usados por outros motivos. Ou vai ver o poder aquisitivo dos outros povos também anda abalado, pois a verdade é que o crescimento do mercado de livros usados nos Estados Unidos, por exemplo, é digno de nota. Recentemente houve uma mudança nos padrões americanos de compra de livros: uma parcela significativa da população se voltou para o mercado de livros usados a fim de adquirir os títulos desejados (eu sou uma, que tenho comprado livros usados "novos", alguns nunca lidos, na Amazon.com, principalmente). Ano passado, pelo menos 10% das famílias americanas compraram no mínimo um livro usado entre abril e dezembro (aqui, isso corresponde a 110 milhões de livros, ou US$400 milhões, de acordo com a Ipsos Book Trends, uma companhia que estuda os padrões de compra dos consumidores). Em 2002, a Ipsos se espantou com a tendência que viria a se confirmar no ano seguinte: o mercado de livros usados aumentou e mais livros estavam sendo vendidos por menos dinheiro.

Empresas similares também realizaram estudos que confirmaram diminuição na venda de livros novos. O motivo? Acreditam os profissionais ser o crescimento do mercado de livros usados. A National Association of College Stores concorda e completa a informação: a venda de usados correspondeu, no ano acadêmico de 2001-2002, a quase 1/3 da venda total de livros, sendo o segundo produto mais vendido nas lojas (depois dos itens com a logomarca da universidade). Os autores do Used Book Lover's Guides, em maio de 2004, anunciaram os resultados de uma pesquisa com 800 livreiros. O estudo demonstrou que os sebos ainda são os responsáveis por 80% das vendas de livros usados, apesar das lojas confiarem cada vez mais nas compras através da internet (mais da metade já é feita online). O mesmo estudo também afirma que a maioria dos livreiros planeja usar a internet ainda mais no futuro, e muitos deles pretendem aumentar o marketing de seus produtos em feiras de livros e através da publicação de catálogos.

O que tem a ver livro raro com isso tudo? Tudo. Onde mais se pode ter a sorte de comprar a primeira edição de um livro esgotado, em bom estado físico, assinado pelo autor, por "uma mariola e duas cocadas"?

Tenham todos um excelente 2005.

So long!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.