OBRAS RARAS


APESAR DO NAUFRÁGIO

É comum encontrarmos nos livros antigos brasileiros e portugueses (e em outros também) dedicatória a autoridades eclesiásticas, principalmente quando o autor é um religioso. Afinal de contas, suporte para a publicação de livros no período colonial brasileiro era não apenas benvindo como necessário. Era também usual escrever poesias, sermões, etc., por ocasião da morte do rei de Portugal, como é o caso do raro livro que veremos esse mês.

O "Relação panegyrica das honras funeraes", em memória de D. João V, escrito na Bahia e publicado em Lisboa em 1753, tem como autor principal o baiano João Borges de Barros. É uma coleção de escritos - a maioria de brasileiros - com duas gravuras de Debrie, um dos mais importantes gravadores de Portugal na época. Segundo nosso Borba de Moraes, o livro pode ser considerado uma antologia literária da Bahia no século 18. Vários sonetos aí aparecem pela primeira vez, e alguns são publicados posteriormente em várias antologias. Borba atesta ser o "Relação" tão raro que talvez por isso somente os autores publicados em outras antologias (com destaque para a de Varnhagen) mereceram atenção de historiadores literários.

Barros, filho de nobre nascido em 1706, estudou com os jesuítas no Brasil e formou-se em Coimbra. Tornou-se presbítero secular, foi cônego da Sé da Bahia, e era aclamado poeta, admirado por seu estilo e versos em latim, italiano e espanhol, além do português. Pertenceu a duas academias literárias conhecidas: a Academia Brasílica dos Esquecidos e a Academia Brasílica dos Renascidos. A primeira foi fundada em 1724 pelo vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Menezes, "para dar a conhecer os talentos que nesta província florescem, e por falta de exercício estavam desconhecidos", como diz a Enciclopédia de Literatura Brasileira. Talvez ele quisesse dizer que por falta de tipografia os autores estavam desconhecidos. A segunda academia surgiu em Salvador em 1759, renascendo das cinzas dos "esquecidos', que durara um ano, apenas. Ao que parece, as cinzas estavam já apagadas, pois a academia desencarnou, por assim dizer, antes do primeiro aniversário.

O livro tem 326 páginas, mas poderia ter tido mais. Alguns poemas escritos em latim também poderiam ter autoria, tivesse sido o manuscrito original publicado na íntegra. No trajeto para Lisboa, ele se perdeu num naufrágio e precisou ser reescrito pelos que então se encontravam disponíveis para a reedição da tarefa.

 



Relação panegyrica das honras funeraes, 1753. Gravura de Debrie.


Pouquíssimos exemplares existem para contar a história completa dessa aventura.

So long!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.