OBRAS RARAS


LIVROS, LIVROS E MAIS LIVROS

Nicholas Basbanes é autor, entre outros, de livros sobre livros, como "A Gentle Madness" (1995), sobre bibliófilos, o primeiro de uma trilogia famosa, seguido por "Patience & Fortitude" (2001), sobre bibliotecas, e agora "A Splendor of Letters; the permanence of books in a impermanent world" (2003), sobre o livro e seu conteúdo como os últimos tesouros, objetos permanentes de nosso legado cultural, ou seja, fala de preservação.

A incursão de Basbanes na área da história do livro é bem sucedida em todos os aspectos. A crítica é favorável e o mundo livreiro se encantou com o jornalista, reconhecendo até seus dotes de bom bibliógrafo. Para completar, o autor é um grande contador de histórias, sendo suas palestras tão ou mais agradáveis que seus livros. Na que assisti mês passado na John Carter Brown Library, quase tivemos de interrompê-lo, apesar de nosso completo deleite.

Em sua coluna na Fine Books & Collections (March/April 2005) ele relata casos interessantes, como o do colecionador Owen Gingerich que, por 30 anos, viajou à procura de primeiras e segundas edições do livro de Copérnico "De revolutionibus orbium coelestium" (1543), considerado como o livro que mudou o curso da história da ciência. Gingerich é astrônomo emérito do Smithsonian Astrophysical Observatory em Cambridge, Massachusetts, e publicou sua experiência em 2004 em "The Book Nobody Read" (conheço pelo menos uma pessoa que leu esse livro). O livro reúne informações sobre as 601 cópias do livro de Copérnico encontradas, cujas anotações manuscritas em margens permitiram a identificação de famosos ex-donos, como Adam Smith e Kepler, e um estudo de como as idéias de Copérnico afetaram outras mentes contemporâneas. Como Gingerich mesmo disse, o seu é um livro sobre um livro e sobre a história desse livro. Acrescenta que escrever foi mais uma odisséia pessoal do que uma investigação científica.

Na mesma coluna, Basbanes nos conta a história do então estudante de graduação Aaron Lansky que, em 1980, e graças à ajuda de voluntários, iniciou o salvamento de uma língua em extinção e acabou por salvar de porões e asilos (e do lixo, num próximo passo, provavelmente), um milhão de livros em Yiddish, hoje alocados em instituições interessadas em ensinar a língua. Lansky fundou o National Yiddish Book Center, também em Massachusetts, na Amherst University (nosso escritor Moacyr Scliar recentemente recebeu um prêmio dessa organização). A história completa se encontra em "Outwitting History: The Amazing Adventures of a Man Who Rescued a Million Yiddish Books".

A última historinha que registro é a de Eric Waschke, da The Wayfarer's Bookshop. Este é um jovem livreiro canadense com verdadeira paixão pelo mundo do livro. Tanta, que sua vida se resume a viajar e conhecer outros livreiros em todo o mundo. O fato de ser especializado em Explorações, claro, muito contribui para suas viagens. Qualquer lugar exótico pode ser o berço de um belo livro sobre o assunto e, com certeza, lá haverá um livreiro. Até agora já visitou mais de 50 países, incluindo o Brasil.

Temos aqui casos de um aluno de graduação, um astrônomo emérito, e um jovem livreiro contados por um jornalista "convertido", todos comprometidos com o livro nas suas inúmeras facetas, todos de alguma forma apaixonados por esse meio de disseminação de idéias que se conserva há mais de 500 anos.

Escrevo sobre os daqui pela proximidade, no momento, mas no nosso país há nomes dignos de registro. Para citar apenas dois hoje.

O primeiro é o de uma pessoa que reúne qualidades diversas no mundo do livro e um conhecimento tão amplo que, penso, poucas pessoas têm. Poeta, professor, bibliotecário, editor, impressor, tradutor, autor de textos como "Cinquenta anos de sonhos e esperanças", sobre a evolução da Biblioteconomia e da Ciência da Informação no Brasil entre 1950 e 2000. Chama-se Antonio Agenor Briquet de Lemos, no caso de alguém não conhecer. Uma pessoa cuja contribuição à Biblioteconomia e ao livro no Brasil é digna de exemplo. http://www.briquetdelemos.com.br/

Outra pessoa que produz e provê informação relevante na área de livros no país é a editora Dorothée de Bruchard, da Escritório do Livro. Pode-se encontrar, entre outras informações no web site (http://www.escritoriodolivro.org.br/index.html), uma bibliografia comentada do livro e da leitura com mais de 300 entradas.

Acabo de perceber que não há nada sobre livros raros nessas páginas (a não ser os meus exemplares já raros, assinados por Basbanes na John Carter Brown Library, em o vinte e sete de Abril, no Anno de Nosso Senhor Jesus Christo de dous mil e cinco).

So long!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.