OBRAS RARAS


UM GOOGLE ESPECIAL PARA LIVROS RAROS, POR QUÊ NÃO?

As relações biblioteconômicas oficiais, digamos assim, entre Brasil e Estados Unidos, datam do pós-guerra, há mais de 50 anos atrás. Desde então, com ou sem adaptações, a catalogação de livros no Brasil (para citar uma faceta da profissão) segue padrões quase internacionais a partir das regras dos AACRs (Anglo-American Cataloguing Rules) e demais códigos específicos (como é o caso do DCRB, ou Descriptive Cataloging of Rare Books, este para livros raros). Isso, pelo menos teoricamente, permite que as bibliotecas cooperantes de uma mesma rede de dados bibliográficos (OCLC, ou outra) coloquem seus acervos à disposição do público, com custo mais baixo.

O Online Computer Library Center (OCLC) é o maior sistema de catalogação compartilhada on-line do mundo. Bem, agora é mais do que isso. Ontem, sexta-feira, 3 de junho de 2005, assisti uma palestra cujo título foi "Amazoogle e o Catálogo de Biblioteca: Integrando as coleções nos mecanismos de busca", apresentada por Chip Nilges, diretor executivo do WorldCat do OCLC. Em seguida a essa, Richard Noble, da Brown University, falou sobre "O Futuro da Catalogação e o Catalogador do Futuro: implicações para as bibliotecas da IRLA".

A IRLA, ou Independent Research Libraries Association, é o grupo que há 30 anos reúne 19 bibliotecas independentes americanas com o objetivo de preservar patrimônio cultural, servir bem o público e financiar e administrar bibliotecas em situação menos privilegiada, ou seja, as que não contam com suporte público ou universitário. Há alguns anos estão sendo discutidas questões sobre a catalogação do acervo dessas bibliotecas (o velho problema). No final, tudo se resume na mesma história: a verba será destinada à catalogação completa, como deve ser com os livros raros, ou deve-se colocar a informação numa grande base de dados como o OCLC, que não oferece qualidade nos registros e nem informação específica sobre cada cópia, importante para coleções especiais? E conseguir verba para tal, convencendo uma National Endowment for the Humanities (a grande agência financiadora de projetos educacionais), por exemplo, que alguém precisa fazer o trabalho corretamente? As palestras de ontem foram bastante esclarecedoras para os dirigentes presentes, acho eu que simpáticos às idéias do Noble.

Por um lado, tem-se o que antes era um sistema de catalogação compartilhada e agora é uma instituição que administra uma rede de informação. Quem hoje fizer uma busca no Google colocando "Find in a Library" dom casmurro, dessa forma, encontrará dois links apenas (o meu Google está no momento configurado para inglês e português). Clicando o primeiro, vê-se a capa de uma das edições do livro e vários links ao registro associados. Logo abaixo, uma janela oferece que se coloque o código postal para que você saiba onde pode encontrar o livro próximo de casa, ou do trabalho. Coloquei o CEP do trabalho e recebi a indicação de que há 10 bibliotecas por perto, a distância para cada uma a partir do meu CEP, a cidade, o estado e o tipo de biblioteca onde o livro se encontra. Se você clicar na biblioteca, o sistema o levará diretamente ao catálogo on-line da instituição. O sistema "Find in a Library", ou "Encontre em uma Biblioteca", permite que o usuário encontre livros, vídeos, ou outro material em biblioteca. Não só através do Google, mas também do Yahoo essa busca pode ser feita. Há outros aspectos positivos na nova versão desse sistema, como por exemplo sua capacidade de disponibilizar acervo ainda pouco conhecido (principalmente iconográfico) e com isso permitir a qualquer pessoa fazer correções, adições ou comentários, não no registro, mas à parte, aumentando a interação entre o usuário e o sistema, ou seja, o usuário como interface - filosofia do Google. Esse sistema funciona para o livro moderno com sucesso.

Por outro lado, há o que diferencia um livro comum de um livro raro, como já foi visto em coluna anterior no ano passado. Infelizmente, não se pode contar com a qualidade dos registros do OCLC para derivar uma catalogação e, às vezes, nem para fazer uma simples consulta, se o que se tem em mãos é um livro raro. Por esse motivo, os catalogadores de livros raros americanos em geral utilizam o RLIN, a base de dados do Research Library Group, ou seja, das instituições que possuem acervo raro. Atualmente, há uma luta surda e desesperada pela sobrevivência do catalogador de livros raros, cada vez mais raro, que também luta para mostrar aos administradores de bibliotecas a necessidade de se catalogar um livro de forma completa. O que se vê é o seguinte: os doadores, aqueles que muitas vezes mantêm as bibliotecas, querem ver resultados rapidamente. Ter o acervo on-line é quase imperativo hoje em dia aqui. Como, é detalhe. Então a biblioteca converte o catálogo em fichas em outro on-line, estejam os registros como estiverem (até parece que vocês não sabem do que estou falando...). E depois? Bem, depois, as bibliotecas ficam a ver navios, porque ninguém mais quer patrocinar a limpeza dos registros, como se diz aqui, ou seja, a atualização que sempre é preciso fazer. Muitas vezes, tem que se refazer a catalogação dos livros raros quase do estágio inicial, pois os registros que foram convertidos são paupérrimos.

Converter é fácil; difícil é o que vem depois. E foi isso que Richard Noble, que também é professor da Escola de Livros Raros (Rare Book School, Virgina, USA), com muita propriedade explicou aos dirigentes presentes. A escola, aliás, agora existe na Austrália, na França, e haverá outra no oeste dos Estados Unidos. Seus membros trabalham, junto com outras instituições, como a Library of Congress, a Rare Books and Manuscripts Section da Association of College and Research Libraries da ALA (American Library Association) no estabelecimento de padrões, regras, tesauros, etc. para o tratamento técnico dos livros raros. Pouco podem fazer para convencer dirigentes de bibliotecas sobre a importância de seu trabalho, mas trabalham assim mesmo, e muito. Voluntariamente, na maioria das vezes.

A John Carter Brown Library resistiu enquanto pode. Há dois ou três anos seu catálogo foi convertido, e só Deus sabe se, numa mudança de administração, a atualização dos registros será feita. Afinal, está on-line...

Não acredito em coincidência. Ontem à noite também assisti uma ótima entrevista com o CEO do Google, Eric Schmidt, no canal de televisão público (PBS). Ouvindo o entrevistado falar da missão do Google e de seus objetivos nos próximos anos, não pude deixar de pensar na excelente parceria que fariam (ou vai ver já estão fazendo e não sabemos aqui na costa leste) esse grupo e o Research Library Group (será coincidência o fato de serem vizinhos na mesma cidade da California?). Schmidt, de diferentes maneiras e por várias vezes, reiterou o compromisso do Google e sua equipe com a qualidade da informação que eles oferecem, conhecendo cada vez mais seu usuário e estreitando os resultados de cada busca para a obtenção de resultados cada vez mais acurados. O Google quer oferecer serviços personalizados nas buscas locais, levando em consideração os componentes internacionais.

Um Google Especial para Coleções Especiais, por quê não?

So long!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.