OBRAS RARAS


POLÊMICA SOBRE A DIGITALIZAÇÃO DE ACERVO DO GOOGLE

Mês passado falamos sobre uma idéia talvez nada original de o Google oferecer acesso a registros bibliográficos de livros raros em seu potente mecanismo de busca, democratizando, assim, o acesso a esse tipo de material com mais qualidade.

Mas o assunto que ferve aqui no momento é a discussão sobre uma das últimas iniciativas do Google, anunciada no final do ano passado: a de digitalizar o acervo (antigo e moderno) de algumas das principais coleções norteamericanas, projeto conhecido como Google Print for Libraries. Bibliotecários e livreiros se manifestam, discutem, escrevem, polemizam. Um livreiro muito conhecido do mercado de livros raros, William (Bill) Reese, expressou sua preocupação com a conservação dos livros em sua coluna mensal no Rare Book Review de maio de 2005, e foi criticado por outro profissional de ponta, o responsável pelas bibliotecas da Stanford University, Michael Keller (que eu defino como um estrategista progressista). Gentilmente, como acontece entre cavalheiros, Reese publicou a carta de Keller para que os leitores tirassem suas próprias conclusões: http://www.rarebookreview.com/index.php?nav=regular&columnID=141. A minha é que a preocupação com a condição física do livro procede, apesar dos argumentos do Librarian de Stanford. Não sou contra projetos de digitalização (sendo eu mesma uma contribuinte), desde que bem executados - o que inclui principalmente a manutenção da integridade do objeto físico, mesmo que este não seja raro. Não se pode esquecer que um livro que não é considerado raro hoje pode o ser no futuro - se sobreviver às intempéries da modernidade, claro.

Com a quantidade de lixo que o homem produz, eu também às vezes imagino o que se fará com o "lixo" virtual. Sou daquelas chatas que saem limpando todas as mensagens redirecionadas quando tenho de reenviá-las, para evitar linhas e mais linhas =tempo=dinheiro=espaço de lixo, com um link ou cinco palavras de mensagem propriamente dita lá no final. E olhem que sou prolixa - sem trocadilho. Gostaria mesmo de saber um dia quantos desses livros digitalizados pelo projeto Google nunca serão clicados. E também gostaria de saber que critérios escolhem quais livros: uso? Todos? Enfim, já há muito lixo virtual, na minha opinião (há quem discorde, e eu respeito), lixo aqui entendido como lixo, mesmo, e como informação sem qualidade, ou não utilizada, ou irrelevante. Eu sei, eu sei que isso é questionável.

Essa semana recebi de uma lista um artigo de Mark Y. Herring, responsável pelas bibliotecas da Winthrop University, sobre o assunto. Publicado no The Chronicle Review, v. 51, número 27 (para assinantes), o artigo mostra o desagrado do autor com relação à digitalização em massa do Google, e lista seus motivos:

Direitos autorais: o Google pretende trabalhar principalmente com livros já em domínio público (os publicados antes de 1923 nos Estados Unidos) para evitar pagamento de direitos autorais, embora o Congresso esteja estudando uma forma de ampliar o prazo do copyright - o que afetaria bastante o projeto. Além disso, para os livros ainda protegidos pela lei, a empresa diz que ofereceria ao público apenas parte dos livros, embora alguns editores não estejam nem um pouco contentes com isso: afinal, a reprodução requer permissão, de qualquer forma, e isso pode ter custo elevado.

Preservação: ao que parece, a rapidez que o Google oferece na digitalização dos livros está deixando os bibliotecários apavorados. Quem vai pagar o conserto das encadernações, principalmente a dos livros que sequer são costurados e à primeira leitura perdem suas folhas? E eu acrescento: sem falar que o papel mais antigo é fraco e rasga facilmente. Como quase todos os projetos de digitalização daqui são enviados para algum lugar da Ásia, não duvidaria que esses livros tivessem o mesmo destino. Estarão as pessoas de lá bem treinadas no manuseio de livros com características físicas tão diferentes uns dos outros, e papel frágil?

Preocupações ecológicas: o autor lembra o que quase todos nós fazemos quando encontramos um texto na internet que nos interessa: damos o comando de imprimir. Afinal, ler por muito tempo na tela pode ser cansativo. Se imaginarmos o aumento do número de páginas impressas, saberemos o que isso significará em termos de papel=florestas. Vamos convir que o processo de reciclagem está aquém do esperado na maioria dos países, e é ainda inace$$ível para a maior parte da população. Li recentemente, em algum artigo, que se imprime tanto nas universidades americanas que algumas já cobram por parte das cópias tiradas pelos alunos, uma vez que não raro eles se esquecem de pegá-las, contribuindo para o desperdício.

Outras preocupações são também registradas:

- o insucesso de outros projetos similares, como o das NetLibrary, Questia, Xanadu, e até do Projeto Gutenberg que, apesar de um certo êxito, implora por doações;
- a digitalização do Google de livros anglo-saxônicos, somente, criticada pelo diretor da Bibliothèque nacionale de France, favorecendo uma visão nada global;
- o uso desse enorme material virtual (ou apenas parte de um livro ou artigo) seria não para leitura, mas para localização de informação relevante e reprodução, e o autor pergunta: é essa a atitude com relação ao livro que queremos estimular nos nossos leitores?

Enfim, é um assunto polêmico. Uma questão é democratizar acesso a registro bibliográfico com qualidade; outra, é reproduzir acervo maciça e indiscriminadamente. Bem, o tempo vai dizer os resultados, caso novas políticas não alterem os objetivos presentes do projeto.

Estava terminando essas páginas virtuais quando recebi pela internet um documento da ALPSP (The Association of Learned and Professional Society Publishers), ou seja, a associação internacional de editoras sem fins lucrativos, como editoras universitárias, por exemplo. O texto, assinado por Sally Morris, solicitava ao Google, com um certo desagrado, o término da digitalização não autorizada de material de domínio privado, e o início de urgentes discussões com representantes da indústria livreira a fim de alcançarem um consenso.

Esse é um grupo formado por 340 entidades de mais de 30 países, e responsável por aproximadamente metade dos periódicos que publicam revisão de literatura dos pares, além de livros. O curioso é que a Associação participara ativamente do desenvolvimento do Google Print for Publishers, uma forma de promoção de livros no Google, que digitaliza o texto completo dos títulos da editora e o coloca na internet lado a lado com links para a compra do livro em questão. Quando uma pessoa faz uma busca no Google e aparecem livros relacionados ao assunto, ele pode clicar no livro e ser levado à página onde a sua pesquisa se encontra. Não houve, de acordo com o texto, nenhum problema de copyright, graças a acordos previamente estabelecidos. Ao que parece, a história agora é outra e os editores estão reclamando ser a cópia em larga escala uma clara contravenção da lei. O correto teria sido uma negociação prévia com organizações representativas dos editores para a obtenção de licença. O Google reclama que o uso é apropriado e se justifica pelo benefício que traz - o que faz com que os editores retruquem que não pode haver benefício que infrinja a lei do copyright.

Ontem, 21 de julho de 2005, O Globo publicou que o lucro líquido do Google foi de US$ 342,8 milhões entre os meses de abril e junho. E a companhia acaba de comprar a brasileira Akwan Information Technologies, de Belo Horizonte (MG). Os negócios vão bem, but...

Not so long!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.