OBRAS RARAS


EXPERIÊNCIAS DE UM CATALOGADOR DE LIVROS RAROS

A vida de um catalogador de livros raros pode ser tão rica e criativa quanto pode ser monótona e sem muitos atrativos. Como sempre, tudo depende do profissional e seu interesse em descobrir um novo mundo além da janela, da biblioteca ou do computador.

 

Num dia frio de dezembro de 1997, o catalogador de livros raros da Harvard University,  Houghton Library (onde se guardam os manuscritos e livros raros da universidade), David Whitesell, precisou tirar uma dúvida de catalogação que o levou às estantes de outras coleções da universidade na Widener Library. Após resolver a questão que o havia levado a essa biblioteca, resolveu caminhar pelas estantes, olhando lombadas e encadernações, até que um livro chamou sua atenção: Eglantinas. Abriu-o, e leu uma dedicatória ao poeta Rubén Dario (poeta nicaraguense modernista, morto em 1916) de outro poeta, Pedro Naón: “Al mágico artífice Rubén Darío. Homenaje, de quién le debe las mas finas y profundas sensaciones de arte.” Ao folhear a cópia, observou nas últimas páginas alguns poemas escritos de cabeça para baixo nas páginas em branco, com letra caprichosa uns, outros quase ilegíveis. Uma característica tipográfica desse livro era que somente as folhas ímpares eram impressas. Dessa forma, ao que parece, o poeta nicaraguense encontrou utilidade para o verso das páginas. Mais tarde, uma pesquisa de reproduções facsimilares da letra de Darío, comprovou, para agradável surpresa do bibliotecário, ser a letra do próprio poeta.

 

Alguns dos manuscritos encontrados eram, nada mais, nada menos, do que o mais antigo rascunho de dois conhecidos poemas de Darío, “Caracol” e “Marina”. Havia outros poemas que o bibliotecário não conseguiu identificar imediatamente, mas esse achado, por si só, já era encorajador para que continuasse sua pesquisa.

 

A descoberta de Whitesell modificou o curso dos estudos literários que, até a data, registravam ser os poemas “Caracol” e “Marina” de 1903, quando foram impressos pela primeira vez na revista argentina Caras y Caretas. Pelas alterações substanciais realizadas nas diferentes versões podia-se comprovar que eram, na realidade, de data anterior. Os originais dos poemas publicados nos livros não mais existiam – o que tornava a sua descoberta ainda mais significativa; eram manuscritos raríssimos. Ademais, em seus livros, podia-se observar que os poemas sempre apareciam separados, pois desde a primeira vez em que foram  publicados o editor os colocara assim e todas as edições que se seguiram repetiram a forma. Segundo os estudos de Whitesell, não era essa a intenção do autor. Pouco antes de morrer, Darío uniu esses dois poemas numa seleção chamada “Muy siglo dieciocho” e o manuscrito vinha comprovar esse fato.

 

Outra grande descoberta feita pelo bibliotecário: os poemas não identificados eram completamente desconhecidos. Tudo leva a crer que foram escritos em Paris, no outono de 1901. O primeiro era curto, um fragmento de seis linhas, apenas.  O segundo, mais longo, tinha por título “Epístolas”. Abaixo do título, o número 1, como se o autor tivesse intenção de escrevê-lo em várias seções. Se isso era verdade, ele apenas escreveu a primeira, dedicada a A. Nervo, ou Amado Nervo, poeta e diplomata mexicano com quem Darío morou em 1900.

 

Ao que parece, Darío não foi dos mais cuidadosos em manter a sua produção literária organizada. Em 1968, quando da edição comemorativa dos 100 anos de “Poesias Completas”, ainda não haviam sido descobertos 92 de seus poemas, publicados somente em 1994. Os dois descobertos em Harvard não figuram nessa publicação.

 

Continuando sua pesquisa, Whitesell decidiu traçar a história do exemplar. Pedro Naón havia enviado o livro de presente a Darío, que vivia em Paris em 1901; isso ele sabia. Mas de quem Harvard havia comprado esse livro? Haveria outros na coleção que um dia pertenceram à coleção particular de Darío? Sabia-se que sua biblioteca particular havia sido dispersada logo após a sua morte. Depois de muitas horas de passeio pelas estantes, o bibliotecário encontrou mais seis livros que haviam sido do poeta. Bem, a Widener tinha 5 milhões de volumes … essa não seria a melhor forma de procurar livros e ele nem sabia ao certo se eles existiam na universidade. Outros recursos teriam de ser utilizados. Veremos o desenrolar da história em breve.

 

O presente texto é uma tradução autorizada e quase literal do manuscrito (e palestra) de Whitesell, e também uma homenagem a todos os catalogadores de livros raros através dessa experiência do bibliotecário de Harvard, que nos faz pensar quantas bibliotecas aqui no Brasil também não têm em suas estantes verdadeiras preciosidades que jazem à espera de um bibliotecário para descobrí-las. Quantos autores nossos, ou outros, não fizeram anotações em livros que podem determinar até uma mudança de enfoque em estudos literários? Descobrir e estudar a origem de uma coleção, principalmente as que foram  dispersadas no passado, como a de Darío, é um tema fascinante que traz benefícios para a área acadêmica e pode e deve ser tarefa a ser realizada por bibliotecários.

 

Se souberem de algum caso similar aqui no Brasil, agradeço o comunicado.

 

Até a próxima!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.