OBRAS RARAS


NOVA PERSPECTIVA PARA A AQUISIÇÃO DE LIVROS RAROS E COLEÇÕES ESPECIAIS

Bem, pode não ser tão nova, assim, essa perspectiva, e talvez já esteja acontecendo por aqui e eu não saiba (o Brasil sempre me surpreende), mas a experiência vinda das bandas norte-americanas é boa e pode ser aplicada em instituições que tentam evitar que coleções de importância sejam doadas ou vendidas para outros países, ou que passem para mãos de colecionadores, dessa forma limitando seu acesso e uso.

 

A Newberry Library, uma biblioteca independente de Chicago, e algumas universidades do centro-oeste norte-americano dividem o custo de aquisição de livros raros muito caros que, de outra forma, seriam adquiridos por colecionadores.

 

Nos dias de hoje, todas as instituições sofrem com o problema da falta de verba, principalmente para essa parte da coleção. Convencer administradores (o velho problema…) a enriquecer um acervo através da compra de um livro que, às vezes, custa milhões de dólares não é tarefa fácil. E os preços continuam a subir – o que vem prejudicando muito a aquisição por parte de bibliotecas universitárias no país citado.

 

Na prática, a parceria começou a funcionar quando, em 1995, um professor da University of Notre Dame viu um manuscrito com anotações musicais do ano de 1300, aproximadamente, ser anunciado num catálogo de livreiro alemão. O professor ligou para Paul Saenger, curador de livros raros e manuscritos da Newberry Library, para saber se essa biblioteca compraria o manuscrito. Saenger, então, conta que teve a idéia de propor uma parceria, na qual a universidade arcaria com um terço do valor do livro, que ficaria na Newberry Library, mas também passaria uns meses na universidade. O professor era Kent Emery, uma autoridade em estudos medievais, que imediatamente concordou com a sugestão (eles acabaram comprando um outro exemplar, quase idêntico, devido à demora na resolução de questões legais).

 

A iniciativa funciona há mais de 12 anos, 23 livros e manuscritos e mais de meio bilhão de dólares em livros raros à disposição do público. Até o momento, somente os livros comprados em parceria podem visitar seus outros donos, mas a Newberry já estuda a possibilidade de os livros circularem entre todas as bibliotecas que fazem parte desse, digamos, programa de aquisição cooperativa.

 

Vê-se, nesse caso, no mínimo, vontade política e interesse profissional (por parte do bibliotecário e do professor) e institucional em fazer algo acontecer. Não deve ser de todo impossível fazer o mesmo aqui. A idéia, em si, é simples, e pode ser aproveitada até mesmo para a compra de uma coleção com verba de diferentes departamentos, por exemplo. Adquirir um acervo particular através de uma ação conjunta pode ser uma forma de mantê-lo no país ou na cidade.

 

Um dia, Saenger teria o prazer de mostrar as antigas anotações musicais a um especialista. E esse dia chegou quando Calvin Bower, também professor de Notre Dame, começou a cantar de bocca chiusa as antigas notas que monges portugueses escreveram a mão à medida em que as cantavam nas capelas medievais.

 

Nós perdemos a nossa memória a cada dia que passa e algum(a) escritor(a) tem sua biblioteca particular dispersada ou vendida para outra cidade, estado ou país. Perdemos também quando deixamos de adquirir livros raros para nossas bibliotecas porque são caros. Sendo um livro, ou uma coleção de importância para professores, alunos e pesquisadores, talvez a aquisição cooperativa seja uma alternativa, e outros agentes podem igualmente ser considerados na empreitada, como empresários de visão e instituições de pesquisa.

 

Formas, podem haver algumas. Mesmo com todas as dificuldades.

 

É fácil falar, não é mesmo? Difícil é fazer… É verdade, mas quem entre nós tem vida fácil?

 

Até a próxima!

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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.