OBRAS RARAS


TRANSFERÊNCIA: QUEM FAZ?

Quando se fala em transferência, em bibliotecas, na era digital em que vivemos, ninguém pensa em um processo importante na área de livros raros: a transferência de livros do acervo geral, de livre acesso, para as estantes mais protegidas de uma seção de livros raros. Os conceitos são, realmente, diferentes, mas ambos têm em comum a mudança de localização, uma com o objetivo de melhorar a acessibilidade (a digital), a outra buscando preservar a integridade do documento.

 

Alguns livros nascem raros. Outros, tornam-se raros à medida em que os anos passam. Escritores um dia ainda em início de carreira, cujos livros figuram em estantes abertas, podem ter se transformado em nomes importantes. Livros não tão antigos antes, hoje podem ser candidatos a uma mudança de setor apenas por sua idade cronológica, ou por alguma marca de propriedade antes não observada, ou ainda uma nova aquisição com marca de propriedade de qualidade. Como, então, encontrar esses livros, para melhor preservá-los?

 

Uma das formas de se localizar livros candidatos à transferência é contando com o auxílio do bibliotecário de referência do setor de acervo geral. Sempre que um livro for requisitado pelo usuário, o bibliotecário pode observar se ele possui alguma característica particular, ou se ele se enquadra em algum item de uma lista pré-existente. Essa lista nada mais é do que uma política de transferência de acervo por escrito que as bibliotecas devem ter. Assim, a bibliotecário tem como se guiar, diminuindo a margem de erro/esquecimento durante a tarefa.

 

Outra forma é, para quem preferir, andar pelas estantes nas horas vagas, informalmente, abrindo livros e se certificando se devem ou não permanecer em estante aberta. Claro que se a biblioteca faz inventário todos os anos, a tarefa pode ser feita nesse momento. Essa segunda alternativa é falha em vários aspectos (se realizada de maneira aleatória) pois pode ser grande o índice de não se ver algum livro, além da morosidade dos resultados, se a coleção for grande.

 

Conheci uma bibliotecária nos Estados Unidos que realizou essa tarefa por anos,  muitos anos, até se aposentar. Uma vez por semana separava duas horas de sua jornada de trabalho para (originalmente) conhecer a coleção. Depois de uns anos verificou que, eventualmente, esbarrava com livros que não deveriam estar armazenados no acervo geral. A partir daí, fazia uma listagem com esses títulos e submetia à chefia de livros raros que, agradecida, estudava a importância de cada um e quase sempre os transferia.

 

Ainda uma terceira forma de separar raridades de livros não raros é o bibliotecário ficar atento aos exemplares que saem para a restauração, ou para a encadernação. Não incomumente esses livros possuem características interessantes, se antigos. E se há outra pessoa ou equipe que faz conservação em “seu” acervo, ela pode igualmente ser instruída para sugerir ao responsável a transferência.

 

Para bibliotecas que tenham serviço de descarte, deve-se descartar aquilo que não é compatível com a coleção e transferir o que for raro, não esquecendo da participação do usuário, agente especializado que muitas vezes nos fazem ver a importância de um livro.

 

Os critérios, como sempre, variam para cada biblioteca, mas se levarmos em conta a idade do livro, suas características intrínsecas e extrínsecas, condições físicas, e valor bibliográfico e de mercado do livro, nossa margem de erro será pequena e estaremos preservando nossos livros raros.

 

Como sempre, fica claro que a cooperação dentro da biblioteca, nos seus diversos setores, é fator importante para o sucesso dos serviços. O ideal é que exista um responsável e que se estabeleça um tempo para a realização da tarefa de transferência.

 

Até a próxima!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.