OBRAS RARAS


RIO, 1808: O INÍCIO DE GRANDES MUDANÇAS

Muitas têm sido as comemorações pelos 200 anos da chegada da família real portuguesa no Brasil, e muitas ainda ocorrerão até o final desse 2008. Exposições, seminários, matérias em jornal e outras formas de divulgação estão trazendo à tona, muitas vezes, aspectos da história pouco conhecidos do grande público, assim como novas abordagens e entendimentos de acadêmicos sobre esse fato que mudou a rota de crescimento do Rio de Janeiro e do Brasil.

 

A abertura dos portos às nações amigas significou, sem dúvida, um dos primeiros grandes passos para a difusão das belezas do Rio e para o incremento do comércio com outros países. A produção comercial brasileira se dirigia, até então, praticamente em sua totalidade, para Portugal. Foram três séculos de poucos avanços no Brasil fornecedor de matéria-prima, se comparados às décadas que se seguiram à vinda da corte, que passou a reproduzir na colônia a vida da metrópole. Na cidade foram criadas várias instituições, como o Banco do Brasil, a Casa da Moeda, a Biblioteca Nacional e todo o aparato indispensável para se governar e viver. Talvez seja esse o único caso na história em que uma colônia americana tenha se transformado em metrópole. Acredita-se que a nação brasileira tenha começado a surgir nesse momento.

 

A criação da Imprensa Régia do Rio de Janeiro foi um marco para o país. Graças a ela, ainda que com restrições, as idéias passaram a ser difundidas oficialmente com maior liberdade. Para a nova vida, várias publicações se faziam necessárias e outras desejadas, como Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga, conhecido como o primeiro e mais popular livro de ficção impresso no Brasil colonial. Tudo indica que o primeiro livro impresso foi, mesmo, o Memoria historica da invasão dos francezes em Portugal no anno de 1807, publicado no ano seguinte; afinal, o assunto era o mais conversado naqueles dias. Um livro importante também publicado pelos prelos cariocas nesse período foi o Corografia Brazilica, de Manuel Aires de Casal. Nele foi publicada pela primeira vez a carta de Pero Vaz de Caminha escrita em Porto Seguro, com data de 1 de maio de 1500, sobre o descobrimento do Brasil. Esses e outros livros, raros hoje, contam a nossa história e, algumas vezes, permitem estudos ainda hoje inéditos. A lista não é pequena.

 

Talvez os primeiros anos de grandes mudanças na vida urbana tenham sido os de maiores contrastes. Conviviam, lado a lado, a realeza e a pobreza, os nobres e os escravos (há uma pintura de Debret que retrata bem a dicotomia existente e nos mostra a prática de certos mal hábitos nas ruas do Rio, ainda hoje em voga, principalmente no carnaval, por falta de infra-estrutura). Até então o luxo existia apenas nas igrejas. Com tamanha economia nos anos posteriores ao do descobrimento, não se podia, mesmo, ter muito no início do século 19. Agora, o tempo era curto para o tanto que precisava ser feito.

 

E assim era a cidade que se viu obrigada a receber a corte da noite para o dia.

 

Em 1821 D. João VI, já rei após a morte de D. Maria em 1816 (e não mais príncipe regente), retornaria à Portugal, deixando uma situação muito diferente da encontrada 13 anos antes. Com escolas, hospitais, um Jardim Botânico, um Arquivo Militar, Polícia, muitas casas de dois e três andares, etc., o Rio de Janeiro finalmente começou a se converter na maravilha exaltada pelos viajantes, não apenas por suas belezas naturais.

 

Contrastes à parte (até hoje vivenciados), o Rio foi a capital do país por muitos anos. Para alguns, apesar de tudo, ainda ocupa esse lugar.

 

Até a próxima!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.