BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

DESCOBRINDO NOVAS POSSIBILIDADES

Começo este texto com o enorme desejo de partilhar com os leitores minha mais recente experiência, que muito se assemelha à descoberta do Sítio do Picapau Amarelo, toda a vida e obra de Monteiro Lobato, em Setembro de 2010, narrada neste mesmo espaço.

 

Recebi, com imensa satisfação e orgulho, por meio desta Coluna, o Infohome, dois convites para ministrar palestras; um em Vitória-ES e o outro em Caxias do Sul-RS (em agosto). Ambos para falar com professores e bibliotecários da rede pública de ensino.

 

Estive em Vitória nos últimos dias 11 e 12 passado para participar do Seminário de Bibliotecas Escolares da Secretaria Municipal de Educação. Minha fala era somente na 3ª. Feira, dia 12, porém participei desde o início do Seminário, tendo assim, a rica e grata oportunidade de conhecer e vivenciar alguns dos trabalhos que os colegas bibliotecários fazem na região.    

 

Ainda não conhecia nada do Estado do Espírito Santo e poder usufruir um pouco, mas intensamente, das belezas da capital e de sua cidade mais próxima, Vila Velha, assim como saborear uma deliciosa moqueca capixaba, feita na famosa panela de barro, das paneleiras do Bairro de Goiabeiras, as quais tive também a oportunidade de conhecer e apreciar de perto, antes de retornar a São Paulo, foi, sem dúvida alguma, maravilhoso.

 

A hospitalidade, carinho e acolhimento que recebi, não tive e ainda não tenho, palavras mais acertadas para retribuir.

 

Fui informada de que Vitória é a única capital, senão o único município brasileiro, que conta com bibliotecários efetivos atuando em todas as unidades de ensino fundamental. Sem sombra de dúvida isso é um super avanço, porém, como eles mesmos me apontaram, infelizmente, ainda estão longe do ideal, isto porque as mazelas políticas são demais imperiosas, atravancando o desenvolvimento por um lado e de outro, alguns profissionais bibliotecários que ainda não sabem, com clareza, qual seu papel e lugar na escola. Somente em Vitória ocorre esse fato????????????? Infelizmente, com certeza não...

 

O objetivo desse Encontro era compreender a participação da biblioteca no currículo escolar refletindo questões teóricas e práticas existentes na Rede Municipal de Ensino de Vitória. Além de palestras, foram apresentados vários relatos de experiências. E foram exatamente esses relatos que me chamaram muito a atenção, pois pude perceber que só temos diferenças geográficas, uma vez que as dificuldades são as mesmas em todos os lugares.

 

Fiquei feliz em notar que a maioria dos bibliotecários são jovens questionando, brigando, querendo melhorar a situação em que se encontram, mas, ao mesmo tempo, me deparei com uma questão mais velha que eu, ou seja, desde que me formei, em 1977, ouço as queixas sobre salários baixos, profissionais que não conseguem se reciclar, diretores de escola e os professores que não conhecem o trabalho de uma biblioteca e portanto, não a valorizam, não aceitando ainda que o bibliotecário seja seu par e não seu rival; e ainda a questão do professor readaptado ocupando a biblioteca.      

 

São questões antigas, deveras preocupantes, mas que não podem ser deixadas de lado, precisam ser enfrentadas, para que o objetivo principal, tanto da biblioteca, quanto da escola, como um todo, seja alcançado - a definitiva capacidade de aprendizagem e aquisição de conhecimento por parte do aluno.

 

Nesse tempo em que vivenciamos os meios de comunicação cada vez mais avançados, em que os tablets, os Ipods, Ipads, etc., são poderosos atrativos para nossos alunos, se faz mister, cada vez mais, que professores e bibliotecários se tornem aliados a fim de manter a chama do prazer da leitura nas crianças eternamente acesa. Pois como bem diz Luzia de Maria: ”se a criança, realmente conseguiu, desde tenra idade, aprender o prazer pela leitura e o valor que isso significa, dificilmente perderá nos anos seguintes: ensino fundamental II e médio”.

 

No relato de experiências pude perceber quanto de criatividade e boa vontade são necessários e indispensáveis onde ainda não se tem a tecnologia, refletindo diretamente no desempenho escolar do aluno.

 

Viajei, em pensamento, na Volta ao mundo em 1001 histórias, que a bibliotecária Elane faz com os alunos de sua escola, inclusive com os do EJA - Educação de Jovens e Adultos, percorrendo vários países, exercitando a interdisciplinaridade; projetos como o da bibliotecária Maria José - Leitura no Pier, que, juntamente com os professores, levam seus alunos até o Pier como forma de associar a leitura aos lugares bonitos do bairro e oferecer outros espaços de e para a leitura.

 

Esses são apenas dois dos vários bem sucedidos (e maravilhosos) projetos realizados pelos colegas bibliotecários do município de Vitória que se tornam exemplos claros de que não precisamos, pelo menos ainda, de tanta parafernália estrutural, equipamentos, etc. É preciso sim, ter uma visão diferente da realidade que nos cerca; é necessário mudarmos nosso foco, visando distinguir e separar as possibilidades dos problemas. Desse modo, como ficou comprovado, poderemos realizar belos e produtivos projetos. Outros projetos apresentados me mostraram como é possível a biblioteca aproveitar as dificuldades existentes e tirar resultados positivos da situação. Fiquei encantada!   

 

Outra atividade do Seminário foi a oferta de diversas oficinas, sendo que optei por participar de uma sobre música, que não tenho lembrança de já ter feito algo semelhante. O título da oficina era: Música e texto: possíveis convergências. Um professor jovem, dinâmico, que, com categoria e classe, soube conquistar uma sala com cerca de 50 alunos, de diferentes faixas etárias, composta por bibliotecários, alguns professores e estagiários que não possuíam familiaridade com instrumentos e notas musicais. Infelizmente, por questão de horário de vôo não pude ficar no 2° dia da oficina, mas o que consegui aprender, compartilhar com os colegas, improvisando, inclusive, uma parlenda com os vários instrumentos que nos foi ensinado, foi fantástico.

 

Fui capaz de aprender como se toca a “casaca”, instrumento típico da região, e que, de acordo com lendas, nascida entre os escravos. Gostei tanto que fiz questão de comprar, como recordação, uma “casaca” em miniatura.  Certifiquei-me, uma vez mais, o quanto a música é importante para quem conta ou lê histórias, na sala de aula ou na biblioteca.

 

Ao final da palestra, muitos a mim se achegaram para os cumprimentos, para pegar dicas, para contar suas experiências, para verificar, in loco, um pouco do material que havia levado e esse foi outro momento inusitado, pois percebemos que muitas vezes, o que nos é tão comum e rotineiro, para outros é uma tremenda novidade que poderá ser usado em suas bibliotecas. Nesses encontros é onde mais nos damos conta que nunca paramos de aprender, podemos sempre trocar e nos reciclar.    

 

A diversidade de nosso Brasil, em pleno século 21, é infinita, pois em alguns lugares, ou melhor, numa mesma cidade, podemos encontrar situações totalmente opostas. Se fizermos um levantamento da realidade nacional, decerto encontraremos biblioteca, principalmente da rede particular, já contando em seu acervo com toda mídia de última geração, seus alunos assistem a vídeo aula e a biblioteca é total e plenamente automatizada. Em contrapartida existem muitas escolas, agora mais na área pública, que além de não terem bibliotecas, as que existem ainda carecem de estantes, computadores, livros atualizados, enfim, que sejam organizadas adequadamente. As possibilidades são imensas em cada lugar, cada cidade, cada escola. Basta treinar nosso olhar.  

 

Iniciei o texto recordando as maravilhas que vi e senti ao conhecer o Sítio e quantas possibilidades isso me proporcionou, assim foi esse Seminário de Vitória, pelo qual pude trazer na bagagem, além de lembranças materiais, muitas novas ideias para o meu trabalho.

 

Luzia de Maria, em seu livro O Clube do Livro: ser leitor – que diferença faz? (2009), cita uma frase de Thomas Carlyle (1795-1881), há tanto tempo, e que se mostra tão radicalmente atual, “depois que todos os professores fizeram o melhor por nós, o único lugar possível para adquirir conhecimentos está nos livros. A verdadeira universidade de hoje é uma biblioteca.”


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?