PRÁTICAS PROFISSIONAIS EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO UTILITÁRIA EM BIBLIOTECAS

Pensar e reconhecer práticas profissionais em bibliotecas e outros ambientes de informação perpassam diretamente pela elaboração e realização de serviços de informação. Neste texto, a reflexão paira sobre um dos serviços que considero mais impactantes na ação das bibliotecas: SERVIÇO DE INFORMAÇÃO UTILITÁRIA.

 

Embora o termo “informação utilitária” seja muito questionado em virtude de promover a ideia de informações “descartáveis” (o usuário usa e depois “joga fora”) prejudicando a percepção de partilha da informação apropriada a partir do serviço promovido, é pertinente considerar que a intenção deste texto é estimular práticas de fomento contínuo da informação no cotidiano das comunidades de usuários de bibliotecas.

 

O serviço de informação utilitária é conceituado como uma política de ação informacional constituída a partir do cotidiano das comunidades de usuários e não usuários, visando a satisfação de necessidades do dia-a-dia acerca das múltiplas questões da realidade social.

 

Isso significa que o conceito de serviço de informação utilitária busca a resposta para a seguinte pergunta: como uma biblioteca pode satisfazer desejos demandas e necessidades do dia-a-dia de sua(s) comunidade(s) de usuários? Para obtenção de respostas concretas o serviço de informação utilitária deve ser visualizado na biblioteca a partir dos seguintes fatores:

 

a)    como política institucionalizada da biblioteca que busque a captação de recursos humanos, financeiros e infra estruturais para realização dos serviços;

b)    deve ser realizado contemplando dois aspectos fundantes: serviços permanentes que envolvem elaboração de manuais, guias, informações em ambientes digitais de informação (redes sociais, blogs, sites, etc.) estando livremente à disposição da comunidade de usuários e serviços temporários que podem ser feitos por meio de exposições, ações culturais e práticas temáticas específicas, visando reunir a comunidade de usuários em eventos específicos de amplo impacto;

c)     deve contemplar um estudo de comunidades e usuários a fim de delimitar os serviços mais prementes e adequados às necessidades da comunidade de usuários implicando dizer que o serviço de informação utilitária é eminentemente dialógico;

d)    o serviço de informação utilitária não deve ser realizado simplesmente PARA a comunidade, mas COM a comunidade no sentido de que os próprios usuários contribuam com a realização dos serviços mediante habilidades e competências desenvolvidas exercendo o papel de protagonistas (para tanto é pertinente valorizar os usuários que contribuem com os serviços via emissão de certificados e/ou divulgação da habilidade do usuário a ser instituída no serviço de informação utilitária oferecido pela biblioteca;

e)    deve ser articulado junto a própria instituição em que a biblioteca está inserida a fim de viabilizar a realização do serviço, assim como com instituições externas de cunho público, privado e misto para fomentar a sustentabilidade financeira do serviço e da biblioteca de maneira geral.

 

Diante destes fatores é possível inferir que o serviço de informação utilitária é uma alternativa de reconhecimento da biblioteca junto a instituição que está inserida (escola, Universidade...) e uma aproximação mais dialógica com a comunidade de usuários (interna e/ou externa), pois é identificado como ação política autônoma da biblioteca e de seu corpo de profissionais, assim como é uma ação que respeita a pluralidade/diversidade da comunidade de usuários.

 

Ademais, os serviços de informação utilitária são tipificados da seguinte forma:

 

a)    serviços de informação utilitários temáticos – são serviços mais amplos desenvolvidos a partir de assuntos diversos do cotidiano que podem ser relativo a datas comemorativas (um modelo positivista) ou a partir de um modelo mais autônomo e construtivo (modelo construtivista) que valorize de forma mais efetiva o caráter criativo da comunidade de usuários. Estes serviços normalmente devem ser desenvolvidos a partir de eventos de impacto que envolvem exposições, palestras, exibição de filmes, apresentações culturais, informações nos diversos meios físicos e virtuais disponibilizados pela biblioteca, etc. e podem contemplar temas de relevância como: sustentabilidade, cuidados com a saúde (incluindo orientações e estímulos à atividades físicas em crianças, jovens e/ou adultos a depender do tipo de usuário da biblioteca), práticas de empreendedorismo, orientação sobre habilidades profissionais e o desenvolvimento das profissões na atualidade (incluindo mercado de trabalho e possibilidades de inserção mercadológica dos usuários), preservação da memória de uma comunidade, município, Estado ou país, direitos e valores humanos, família, fundamentos de legislação, esportes, política, economia, entretenimento, entre outros;

b)    serviços utilitários autorais – são serviços mais específicos e comumente partem da escolha conjunta da biblioteca e da comunidade de usuários de alguma personalidade (artística, profissional, técnica, religiosa ou científica) que será minuciosamente valorizada e exposta por meio de serviços estratégicos como palestras, exposições, informações nos meios físicos e virtuais, etc. Vale ressaltar que este é um serviço temporário, mas de caráter contínuo que pode ser feito em qualquer período do ano com periodicidade determinada pela própria gestão da biblioteca (quinzenal, mensal, bimestral, semestral) e com prazo de realização do serviço sobre o(s) autor(es) escolhido(s) (durante uma semana, quinzena ou mês);

c)     serviços utilitários culturais – estes são os serviços utilitários mais relevantes de qualquer biblioteca, pois atuam cotidianamente nos seguintes temas: mediações culturais, mediações da leitura, questões étnicas e raciais, preservação da memória individual e coletiva, cultura digital. Em outras palavras, este serviço atende informacionalmente a comunidade em atividades culturais e artísticas como música, dança, teatro, pintura, desenho, assim como atividades para o letramento informacional atuando, principalmente, como uma extensão do aprendizado de usuários de bibliotecas escolares, públicas e universitárias. Este tipo de serviço é permanente sendo construído juntamente com os serviços temáticos e autorais agregando temáticas alusivas às necessidades cotidianas da comunidade de usuários;

d)    serviços de utilidade pública – são serviços permanentes a partir de guias, manuais e informações cotidianas disponibilizadas em espaços físicos e virtuais oferecidas pela biblioteca buscando aproximar a biblioteca do dia-a-dia do usuário a partir de temas como: saúde (informações sobre saúde pública, higiene, prevenção de doenças, exercícios físicos, além de informações sobre hospitais públicos, particulares, postos de saúde, ambulâncias, farmácia popular, farmácias particulares, laboratórios, SUS, clínicas, unidades sanitárias, academias populares, academias particulares, etc.); Cultura e lazer (agenda cultural, calendário de eventos, cinemas, teatros, museus,  centros e espaços culturais, salas de exposições, galerias de arte, estádios, órgãos ligados ao esporte); utilidade pública (assistência social ao menor, à mulher, ao idoso e etc., associações, assistência legal, juizados, tribunais, prisões, serviço de assistência gratuita, projetos públicos, serviços públicos de pagamento como gás, luz, água, telefone, etc., sindicatos, como tirar documentos de identidade, CPF, título de eleitor e outros, segurança, telefones úteis como bombeiros, emergências, polícia, imprensa local); Trabalho (agências de emprego e estágios, oportunidades de empregos, cursos e eventos de qualificação profissional, etc.), além de outros assuntos referentes a realidade cotidiana dos usuários.

 

Diante do exposto, os serviços de informação utilitária apresentam a concretização de um dos grandes desafios da biblioteca na contemporaneidade: a perspectiva de aproximação da biblioteca ao cotidiano da sociedade. O caráter temático, autoral, cultural e de utilidade pública do serviço de informação utilitária atentam para uma ação informacional da biblioteca pautada na partilha da informação em que usuários não são apenas sujeitos utilizadores de informação, mas também sujeitos multiplicadores que partilham informação, uma vez que os serviços contam com a participação direta da comunidade de usuários valorizando suas habilidades competências.


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JONATHAS CARVALHO

Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA).