AO PÉ DA ESTANTE


AO PÉ DA ESTANTE… COM ALGUNS ESPIÕES

O universo das histórias de espionagem tornou-se datado com o término das Guerras Mundiais e da Guerra Fria, mas também em virtude de algumas histórias inverossímeis causarem, hoje, mais risadas do que suspense. Porém, sempre há o que permanece em meio a esta confusão.

 

Vejamos, primeiro, os autores datados. Helen MacInnes, bibliotecária escocesa, e sua série Aconteceu em… Todos os romances se passam em lugares turisticamente atrativos, no contexto da Guerra Fria; são de fácil leitura, um passatempo agradável e nada além.  

 

O mais famoso de todos é, sem dúvida alguma, Ian Fleming, com seu “Bond, James Bond”, o espião 007 do serviço secreto inglês. A história do próprio Fleming é muito interessante e ativa, pois trabalhou na inteligência naval britânica durante a Segunda Guerra Mundial, quando participou de importantes projetos. Houve outras pessoas que escreveram, aproveitando a fama do herói 007, sob encomenda dos editores; porém, são dezessete os romances de Fleming. Até hoje, produziram-se inúmeros filmes com o personagem James Bond, e há pelo menos um filme sobre o próprio Ian Fleming. Não faltam, por outro lado, estudos literários sob os mais diversos aspectos e dos mais diferentes autores. De fato, poucos chegaram, como ele, a ultrapassar a marca dos cem milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Vale a pena a leitura de um livro, para conhecer o autor e o estilo.

 

O terceiro selecionado é um grande escritor, que usa o pseudônimo de John Le Carré. Suas obras não se tornaram datadas, evoluindo da Guerra Fria a outros tipos de espionagem ou a outras guerras modernas. Cria personagens complexos, profundos, e belíssimos trechos em seus livros. Em sua numerosa coleção, destaca-se o personagem espião George Smiley, exato oposto de James Bond. Como David John Moore Cornwell, seu verdadeiro nome, Le Carré trabalhou no serviço diplomático e no MI-6, o serviço secreto britânico, recebendo o título de Cavaleiro do Reino. Destaco três de seus livros, por uma questão de gosto.

 

O primeiro é O Espião que Saiu do Frio, sobre a fuga de um espião, da Alemanha Oriental para a Ocidental. Essa história gerou um excelente filme, em preto e branco, com Richard Burton no papel principal e direção de Martin Ritt. Em segundo lugar vem O Espião que Sabia Demais, que também se transformou em filme dirigido por Tomas Alfredson, com Gary Oldman no papel de George Smiley. Parece que este enredo baseia-se parcialmente em fatos reais: a fuga de um espião britânico para Moscou, onde denunciou os nomes de espiões britânicos ligados à espionagem da então União Soviética. O terceiro detaque vai para Amigos Absolutos, a meu ver sua obra-prima, interessante sobretudo para os que vivenciaram os anos 60. Existe aqui uma pequena questão: é impossível relatar o mínimo que seja sobre seu conteúdo, para não se perder a história.

 

E ainda contamos com outros livros de Le Carré, pois está vivo, bem de saúde e continua a escrever.

 

Finalmente, selecionei um autor novo, Daniel Silva, com o espião dos anos 2000, Gabriel Allon, judeu e parte do serviço secreto israelense. O autor é americano, porém filho de imigrantes açorianos, daí seu nome português. A história lida, O desertor, tem ótimo tempo de suspense, muito interessante sob o aspecto geopolítico (sem maniqueísmos), e o único ponto a ressalvar é o excesso de mortes – característica indelével dos romances americanos. Mas vale a experiência!

 

Mudam as guerras, continuam os espiões.


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SARASVATI

Nascida e criada na Índia, estudou na Universidade de Madras, morou em Goa (onde aprendeu português) e viajou pelo mundo em busca de autores e compositores diferentes. Apaixonada pela música brasileira, fixou-se em São Paulo, pela convivência pacífica entre religiões as mais diversas.