OBRAS RARAS


LIVROS DE EMBLEMA

Em maio deste 2015 tive a oportunidade de assistir, no Rio de Janeiro, palestra proferida pela Profa. Alison Adams, da University of Glasgow: Emblemas no século XVI. A iniciativa, de Pedro Germano Leal, vem ao encontro de suprir uma das várias lacunas nos estudos sobre livros raros no Brasil. O Prof. Pedro Leal, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluiu o doutorado em Estudos do Texto e da Imagem no Stirling Maxwell Centre da citada universidade em 2014. Atualmente, dirige o IRIS (Identificação de Repertório Iconográfico em Sistema), cujo objetivo é criar uma linguagem para indexar imagens de acordo com sua função iconográfica. Vinculado a sociedades de emblemática européias, o professor está para lançar o livro Emblematics in Ibero-America. Sua tese estabelece que a imagem, como expressão e forma de escrita, tem origem nos hieróglifos e têm relação direta com a emblemática do século XVI. Na ocasião da palestra, foi distribuído um resumo da mesma em português, do qual abordaremos algumas partes e acrescentaremos poucas notas.

 

O que, basicamente, caracteriza um livro de emblema é a associação de uma (normalmente) xilogravura (ou, mais tarde, ilustração em metal) a um texto ou a um título. Emblema significa inserção, enfeite, uma combinação entre palavra e imagem que produz uma mensagem, um significado, o qual não teria o mesmo sentido com palavra e imagem separadamente. Esse tipo de livro foi útil para a catequese jesuítica (utilizados, inclusive, na América Latina) e a divulgação de ideias religiosas, mas podiam também tratar de assuntos políticos, vida diária ou fábulas, para citar alguns. Os emblemas de amor, por exemplo, se desenvolveriam no século XVII, em especial na Holanda.

 

Iconografia e iconologia, embora às vezes usados indistintamente, possuem conceitos diferentes, na medida em que a primeira descreve e classifica e a outra explica o seu significado.

 

Emblemas remontam à primeira metade do século XVI, com o advogado milanês Andrea Alciato e seu livro Emblematum liber, de 1531, impresso na Alemanha. Mesmo sendo edição não autorizada (seu amigo Conrad Peutinger foi o responsável pela publicação) e sem as qualidades desejadas pelo autor nas ilustrações, por um século a publicação serviu de inspiração para as que se seguiram. Mais de cem edições surgiram após a original em latim, em diversas línguas, inclusive a de 1546, de Veneza, por Aldo Manúcio, com emblemas criados pelo autor. Outro grande tipógrafo a imprimir esses livros foi Christopher Plantin. Sobre este, escrevi a respeito do livro raro-objeto no Museu Plantin-Moretus – um lugar (Antuérpia, Bélgica) que todos que se interessam pela história da tipografia e por livros raros e antigos devem conhecer. Sua tipografia imprimiu “para gregos e troianos”, ou seja, católicos e protestantes, pois Plantin foi tipógrafo para o rei de Espanha por muitos anos e, ao mesmo tempo, ainda que nem sempre às claras, imprimia para os Países Baixos. O museu é uma viagem no tempo única no mundo, pois nenhum outro museu reproduz uma casa impressora do século XVII/XVIII (embora tenha nascido no século XVI) com tamanha fidelidade e riqueza de objetos e arquivos.

 

Durante a palestra, a professora Adams assinalou que Plantin pertenceu a uma fraternidade denominada Família do Amor, que pregava a fé cristã sem explicitar o verdadeiro status religioso. Assim, os livros de emblema eram perfeitos para veicular mensagens de cunho religioso que poderiam servir ambas as religiões. Lembrou, ainda, que não apenas o autor do texto era responsável pelo produto final, mas também e, frequentemente, o desenhista, o gravador, o impressor e o editor eram atores envolvidos na confecção de um livro de emblema, profuso em imagens.

Acima, página da edição de Aldo Manúcio (1546), do web site da Universidade de Glasgow. O modelo espelha bem o que caracteriza um livro de emblema: mote, imagem e pequeno texto.

 

Além de refletirem a evolução da arte tipográfica, esses livros permitem observar os costumes sociais de cada época.

 

A palestra foi ilustrada com diversos exemplos de livros de emblema, suas diferentes edições, idiomas, temas, assim como características tipográficas. Ao término, a professora registrou que “algo constante em todos os emblemas não é o tema, mas a mentalidade que eles expressam, e a prática de leitura que eles envolvem”, de interpretação e reavaliação, de fazer alusões – prática um pouco fora de moda em épocas de hiper textos, saltos na leitura e surfe nas palavras, como ressaltou ao finalizar.

 

Até a próxima!

 

REFERÊNCIAS

 

Adams, Alison. Emblemas no século XVI. Rio de Janeiro, Centro Cultural Hélio Oiticica, 29 de maio de 2015 (Palestra).

 

Alciato at Glasgow, Glasgow University Emblem Website: http://www.emblems.arts.gla.ac.uk/alciato/books.php?id=A31a

 

Gauz, Valeria. Livro-raro objeto em Museu Casa Histórica: o caso do Museu Plantin Moretus., 2014. In Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, Belo Horizonte (MG), 27-31 out 2014. (Conference paper). Disponível em: http://eprints.rclis.org/24104/

 


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, atualmente trabalha no Museu da República. É pesquisadora em Comunicação Científica e Informação em Museus. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005