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A CATALOGAÇÃO BIBLIOGRÁFICA E OS REDUTORES DE PALAVRAS

Nota publicada na edição 296, da Revista de Pesquisa FAPESP (ano 21, página 13, outubro 2020), é comentado a dificuldade de leitura para compreensão ou acompanhamento dos artigos científicos, na atualidade. A dificuldade decorre, não só da maior produção das ciências, mas do uso excessivo de siglas e jargão acadêmico. Análise realizada em 24 milhões de título e 18 milhões de resumos publicados entre os anos de 1950 e 2019, demonstrou que o uso de acrônimos cresceu 10 vezes nos resumos (4 a cada 100 palavras) e 3,4 vezes nos títulos.  O estudo identificou 1.112.345 acrônimos diferentes no material analisado, mas apenas 2 mil (0,2% do total) eram de uso regular, enquanto a maioria (79%) teve citação menor de 10 vezes, em sete décadas.

Se a situação afeta a comunidade científica, ela pode ser agravada, ao estendermos para o ambiente das bibliotecas, no qual os procedimentos técnicos processam esta produção, extraindo por vezes as siglas e abreviações, dentre outras reduções, como meios de recuperação dos registros, ou ainda, com a inclusão de outras siglas ou abreviaturas pertencentes à própria área da Biblioteconomia, e utilizadas na representação dos recursos de informação.

Apesar dos códigos tratarem do uso de redutores, caso do Código de Catalogação Anglo-Americano – AACR, ou da recomendação do seu não uso, caso do Recurso: Descrição e Acesso – RDA, é importante que o bibliotecário da catalogação esteja consciente do problema, na sua atividade catalográfica.

Lembramos, por exemplo, de regras no AACR2r nas quais siglas, símbolos e abreviações são aplicadas: sine loco [s. l.] (1.4C6); sine nomine [s. n.] (1.4D6); p (phonogram /fonograma = direitos de produção fonográfica) ou c (copyright) (1.4F5; 1.4F6); ? (símbolo de provável) (1.4F7).

Na descrição física, com os exemplos de: ca. (circa); color. (colorido) p&b (preto e branco), il. (ilustração); p. (página) lâms. (lâminas). Neste aspecto, o código apresenta um pequeno capítulo de modelos, o Apêndice B – Abreviaturas com regras de uso em entradas catalográficas e abrangem cabeçalhos; títulos e indicações de responsabilidade; palavras correspondentes em outras línguas; palavras compostas; alfabeto latino, cirílico, grego, hebraico; citação de fontes bibliográficas; nomes de países; e nomes dos meses. Portanto, um registro bibliográfico tradicional é uma estrutura nada compreensível para o público que deveria atender, pelo uso de termos codificados ou palavras reduzidas.

No caso das instruções da RDA, a adoção de siglas e abreviaturas não são recomendados na descrição dos elementos bibliográficos. E isto é reforçado pelo fato da normativa (RDA 0.0) ter por objetivo fornecer orientações e suporte à descoberta de recursos informacionais.

Os dados bibliográficos criados sob diretrizes RDA são projetados para ajudar os usuários nas tarefas de localizar recursos segundo seus critérios de pesquisa; confirmar ou distinguir os recursos com características semelhantes; escolher por aquele apropriado às suas necessidades do usuário, por exemplo. Desta forma, ela se molda sob Princípios (RDA 0.4.3), dos quais se destaca a Exatidão (RDA 0.4.3.5), pela qual os dados que descrevem um recurso devem oferecer informação suplementar para corrigir ou aclarar representações ambíguas, ininteligíveis ou enganosas feitas nas fontes de informação que formam parte do mesmo recurso; e a Uniformidade (RDA 0.4.3.8), que indica os apêndices sobre o uso de maiúsculas, abreviações, ordem dos elementos, pontuação, etc., como indicadores que devem servir para promover a uniformidade na apresentação dos dados que descrevem um recurso ou uma entidade associada com o recurso.

Entretanto, no que se refere a existência de abreviaturas e acrônimos nos elementos das fontes descritas, a RDA é pouco esclarecedora, recomendando transcrever como aparece, se outra orientação que reforce os Princípios anteriormente mencionados. Assim, a instrução 1.7.6 indica que, se na fonte de informação aparecem letras ou iniciais separadas sem pontuação entre elas, deve-se transcrever as mesmas sem espaços entre elas, sem importar o espacejamento na fonte, exemplo: ALA rules for filing catalog cards prepared by members of the AIAA Technical Committees on Space Systems and Space Atmosphere Physics. Entretanto, se tais letras ou iniciais contiverem espaços entre elas, deve-se omitir qualquer espaço interno, exemplo: edited by P.C. Wason and P.N. Johnson-Laird.

Já, a instrução RDA 8.5.6, trata do espaçamento de Iniciais e Siglas para entradas autorizadas de Nomes de Pessoas ou Famílias (RDA 8.5.6.1), e Nomes de Entidades Corporativas (RDA 8.5.6.2).

Ao se registrar o nome de uma pessoa ou família, a RDA apresenta as seguintes alternativas: a) se uma inicial representa um nome de batismo ou apelido, e a inicial está seguida por outra inicial ou um nome, deixe um espaço entre o ponto que segue a uma inicial, exemplo: Rowling, J. K.; Franco G. S., José Fernándo; b) se o nome consiste total ou primariamente de letras separadas, deixe um espaço entre as letras (independentemente de que estejam seguidas de pontos ou não), exemplo: A. Hafiz Anshary A. Z., A. E. I. O. U.; c) se o nome inclui iniciais ou abreviaturas que formam parte de um título ou termo de tratamento, deixe um espaço entre a inicial ou abreviação e a inicial, abreviação, número ou palavra subsequente, exemplo: Dr. X, Mrs. R. F. D.

Em relação ao nome de uma entidade corporativa, as instruções destacam que: a) se uma inicial está seguida de outra inicial, não deixe um espaço depois do ponto, etc., à continuação da primeira inicial, exemplo: J.A. Folger and Company; b) se as letras ou iniciais separadas aparecem na fonte de informação sem pontos entre elas, registre as letras sem espaços entre elas, exemplo: IEEE (as iniciais aparecem como: I E E).

Há um aparente conflito de princípios, pois se enfatiza a transcrição das abreviaturas e siglas, sob a justificativa de que os pontos de acesso autorizados para representar Pessoas, Famílias e Entidades Coletivas (RDA 8.6), quando elaborados devem se basear no nome preferido da pessoa (RDA 9.2.2), família (RDA 10.2.2) ou entidade corporativa (RDA 11.2.2), mas induz o bibliotecário de catalogação a não atentar para a necessidade de compreensão geral do registro pelo público.

Embora os formatos MARC (autoridade e Bibliográfico), em relação a indicação dos pontos de acesso possuam subcampos para detalhar as siglas utilizadas nas entradas, exemplo: campo 100 (entrada para nome pessoal), subcampo q - forma completa do nome; campo 110 (nome corporativo), subcampo g (miscelânea - passível de ser utilizado para a mesma finalidade, quando as informações não forem adequadamente contidas em outros subcampos). Porém, como mencionado ,esses são pontos de entr5ada e recuperação e não a representação descritiva do recurso. 

Outro aspecto a salientar é que, como na gramática, na representação descritiva a redução de palavras tem como objetivo economizar espaço ao representar parte da palavra como equivalente a um todo. Assim, o uso da abreviatura é o procedimento de reduzir uma palavra, conforme o conceito de economia linguística. Em relação a sigla, esta é formada pelas letras iniciais de uma palavra ou conjunto de palavras. Quando uma sigla pode ser lida como uma palavra única, e não letra a letra (soletrada), é chamada de acrônimo. Como exemplo: FEBAB, IFLA, UNESCO, UNESP e USP são acrônimos, ao passo que AACR, RDA, CDU e CDD não o são.

Entretanto, ao sinalizar o problema da produção científica e do reflexo no tratamento técnico biblioteconômico, tem-se o aspecto das definições envolvidas no uso destes vocábulos econômicos. Há certa confusão ao se considerar sigla como acrônimo ou abreviatura com abreviação.

Embora abreviatura e abreviação sejam sinônimos, a abreviatura se refere à redução de palavras na escrita e abreviação à sua redução na fala. Os linguistas destacam o termo redução como um fenômeno distinto de abreviatura e abreviação, entretanto a redução pode ser interpretada como o processo que indica os fenômenos da abreviação e abreviatura, além de outros processos redutores encontrados na exploração da língua. Algumas definições encontradas:

  • Abreviatura: representação de uma palavra ou expressão com menos letras do que as da sua grafia normal, sendo obrigatória finalizar com ponto (sinal da abreviação). É conhecida também como forma reduzida da palavra, compreende até um limite, de modo que não haja prejuízo ao entendimento. Exemplo: V. Exa. (Vossa Excelência), Dr. (Doutor), Sr. (Senhor), ed. (edição).
  • Acrografia: a grafia das letras iniciais de um termo complexo que formam, em conjunto, um nome próprio. No entanto, as siglas também formam nomes próprios a partir das iniciais de um dado conjunto de elementos. Neste sentido, acrografia é o mesmo que sigla. Exemplo: o escritor H. G. Wells (Herbert George Wells) – situação comum na indicação de responsabilidade e indicação de pontos de acessos.
  • Acrônimo: palavra formada através da junção de letras ou sílabas iniciais de um grupo de palavras, que se pronuncia de forma integrada, como uma palavra só, respeitando, na generalidade, a estrutura silábica da língua, exemplo: MARC, UNIMARC, IBICT, MEC.
  • Redução: é o conceito de transformar uma palavra em outra menor, exemplo: Metro, redução de Metropolitano; foto, redução de fotografia; quilo, redução de quilograma.
  • Símbolo: elemento atribuído à representação de uma ideia ou abstração por meio de letras, números, pictogramas ou da sua combinação, exemplo da tabela periódica dos elementos químicos: Fe (Ferro), Pb (chumbo); símbolos matemáticos: < (maior que), > (menor que), Z (números inteiros).
  • Sigla: letras iniciais que abreviam uma ou mais palavras, exemplo: OCLC (Online Computer Library Center); ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Ainda, em relação ao uso das siglas, existem aquelas consagradas pelo uso corrente e que não precisam de explicação, exemplo: Mbps (megabit por segundo), geralmente chamado de Mega, é usado para medir a velocidade da internet.

Na catalogação, com advento da RDA, vamos encontrar essas siglas da computação – Mbps; Kb (Kilobyte); Kbps (kilobit), na descrição física de conteúdos digitais, bem como das unidades de medidas como: cm., pol., rpm.

Sobre as observações citadas para a utilização de siglas, e que podem ser aplicadas na catalogação bibliográfica, se referem ao uso de maiúscula. Todas as letras devem ser escritas em maiúsculas se a sigla tiver até três letras ou se todas as letras tiverem um significado independente, como no caso de: ABNT, RNP, UFRJ, PUC, MCT (Exceções: PoP, QoS, CNPq, CPqD, UnB). Já, os acrônimos (siglas que formam palavras) com até três letras: ONU, RAU, MEC. A partir de quatro letras, recomenda-se usar minúsculas: Banerj, Unicef, UFSCar.

Não parece haver dúvidas de que a sigla, o acrônimo e a abreviatura correspondem a diferentes processos de redução de uma palavra. A abreviatura, sobretudo, parece ser de mais fácil compreensão.

Conforme mencionado, em relação à produção científica, o uso indiscriminado de siglas tem afetado a compressão do texto. A catalogação bibliográfica pode ser um processo para minimizar o problema de disseminação da informação ao tornar seus registros mais compressíveis por meio de representações descritivas e temáticas atentas em dar legibilidade (compreensão) às siglas, acrônimos, abreviaturas e símbolos contidas nas fontes.

Neste sentido, o bibliotecário de catalogação pode e deve explorar as notas dos registros para esclarecer as reduções manifestadas nos elementos bibliográficos ou nos conteúdos descritos.

Em realidade, deve-se evitar persistir com a catalogação tradicional, marcada pelo conceito das fichas impressas; onde a abreviatura era um requisito justificado pela dimensão do suporte da representação descritiva, em detrimento da melhor compreensão pelo leitor. Agora, são novos tempo constituídos de inovações tecnológicas que possibilitam novas deliberações e procedimentos. Embora, a própria RDA não seja esclarecedora neste aspecto.

Na atualidade, com os catálogos bibliográficos online e os repositórios de dissertação e teses, por exemplo, os registros devem e podem ser claros quanto ao entendimento dos dados bibliográficos codificados, sob padrões biblioteconômicos ou padrões de metadados universalizados.

Indicação de leitura:

Mais difíceis, até para cientistas. Revista Pesquisa FAPESP, ano 21, n.296, p.13, outubro 2020. https://revistapesquisa.fapesp.br/mais-dificeis-ate-para-cientistas/

Dória, Maria Amélia. Sigla, acrónimo, abreviatura, abreviação, redução. CIBERDÚVIDAS da Língua Portuguesa, 22 de janeiro de 2003. https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sigla-acronimo-abreviatura-abreviacao-reducao/10183

Reduções: sigla, ou acrónimo, ou abreviatura? ciencia.ao. https://ciencia.ao/artigos/opiniao/item/882-reducoes-sigla-ou-acronimo-ou-abreviatura

Abreviaturas, siglas e acrônimos. RNP - Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, 24.03.2009. https://memoria.rnp.br/guia/estilo/siglas.html

Abreviação, abreviatura e sigla – qual a diferença? MundoEducação. https://mundoeducacao.uol.com.br/gramatica/abreviacao-abreviatura-siglaqual-diferenca.htm

 


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.