COTIDIANO INFORMACIONAL


LITERATURA, CINEMA E A VIDA EM 2021

Romances distópicos têm reaparecido com impressionante força em nosso cotidiano. Não raro, livros escritos há quase um século estão frequentemente a figurar entre os mais vendidos nas listas de livrarias famosas do segmento e-commerce. Romances distópicos são comumente descritos como obras de ficção, que eventualmente abordam sociedades futuristas afundadas em crises e sofrimento. Vários são os autores conhecidos pelo público, dentre os quais, posso mencionar Iêvgueni Zamiátin, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Anthony Burgess e muitos outros.

Claro que descrever a literatura distópica recorrendo a questões que permeiam o domínio do sofrimento pode ser um tanto reducionista. Todavia, tenho um motivo para isso: Nós, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Laranja Mecânica etc. se destacam mais por abordar questões atuais do que problemas de um futuro distante e ilusório. Arrisco a dizer que, desde o lançamento, elas nunca deixaram de ser atuais. Possivelmente em razão disso é que despertam o interesse de muitos leitores e também do mercado, obviamente.

Devido ao lucro que geram, algumas dessas obras podem ser encontradas em diferentes versões, traduções e publicadas pelas mais variadas editoras - às vezes, por preços convidativos; em outras, nem tanto. Como exemplo desse fenômeno, acredito que vale mencionar George Orwell, que, a despeito de ter escrito sobre os mais diferentes temas - inclusive, a culinária inglesa num ensaio -, são justamente os seus textos distópicos os mais vendidos no mundo. 

Desde que "caiu" em domínio público a partir de 1° de janeiro de 2021 (uma obra entra em domínio público depois de 70 anos da morte de seu autor, prazo estipulado na Convenção de Berna), as vendas das obras de George Orwell simplesmente dispararam. A Editora Globo, por exemplo, colocou 1984 e A Revolução dos Bichos em pré-venda ainda em 2020, prometendo lançar os livros em janeiro de 2021, logo depois deles estarem em domínio público.

O lucro que a “arte distópica” gera ultrapassa o mercado literário. Recordo apenas algumas das inúmeras adaptações de livros do gênero existentes para o cinema e para séries televisivas (muitas vezes disponíveis em plataformas de streaming), tal como Metropolis, um filme dirigido por Fritz Lang e lançado em 1927 (a película se transformou numa das principais representantes do expressionismo alemão, tendo o seu roteiro sido inspirado no romance de Thea von Harbou - ex-esposa de Lang); o filme Blade Runner, dirigido por ninguém menos que Ridley Scott e a série The Man in the High Castle, ambos concebidos a partir dos livros de Philip K. Dick, lançados em meados dos anos 1960; e, por fim, a bem-afamada série The Handmaid´s Tale, baseada no romance da canadense Margaret Atwood, publicado originalmente em 1985.

Mas, por que as pessoas gostam tanto de obras distópicas? Possivelmente, porque os seus conteúdos geram alguma identificação, permitindo testemunhar na realidade aquilo que já foi escrito num livro ou exibido num vídeo. A vida em 2021 foi uma antiutopia para muita gente. E o que esperar de 2022? Presumo que seja mais uma temporada dessa distopia que se vive no País desde 2016 quando o bizarro decidiu transmutar a vida em horror.

Sei que essa não é uma boa mensagem de fim de ano e peço desculpas pelo pessimismo refletido neste 31 de dezembro. Contudo, alimento a confiança de que em 2022 eu possa escrever sobre coisas boas, especialmente depois de outubro. Essa é a esperança de muita gente. Sendo assim, gostaria de saltar no tempo e desejar, desde já, um feliz 2023.


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JEFFERSON VERAS NUNES

Mestre em Sociologia pela UFC, doutor em Ciência da Informação pela UNESP e professor do Departamento de Ciência da Informação da UFC