COTIDIANO INFORMACIONAL


ZONA DE DESCONFORTO

Ultimamente, tenho ficado mais atento às palavras e expressões que as pessoas utilizam “despretensiosamente” no dia a dia. Já percebi que, bem ou mal, elas manifestam sintomas, mesmo sem querer exprimi-los diretamente (vocês se lembram disso, né!? Escrevi sobre sintoma no texto anterior. É só uma velha mania de professor rememorar algo que foi conversado no encontro passado).

Pois bem, de modo similar à tag #vaidarcerto, outro enunciado que me soa familiar é zona de conforto. É frequente ouvir as pessoas dizerem: “você precisa sair da sua zona de conforto” – a exemplo de um sacerdote em tom de exortação ao exercício da alteridade e à prática da empatia no cotidiano. Algumas vezes também, a frase costuma ser evocada para prometer ao sujeito uma remota possibilidade de crescimento emocional-espiritual-profissional-financeiro-intelectual...

É inevitável questionar, no entanto, o que é conforto. A resposta sempre depende. Afirmar algo de maneira categórica requer uma onisciência que os mortais, obviamente, não têm. Para um coach, por exemplo, “deixar a zona de conforto” representa uma atitude necessária para se romper com o aconchego da rotina, rumo à assunção de novos desafios, à saída do ninho, lançando-se ao inesperado etc. Inclusive, li em um site coaching que “a vida começa no momento em que a zona de conforto termina”, e isso me fez refletir sobre o lugar que ocupo no mundo.

Numa espécie de sessão de autoanálise, passei a me indagar se e em que momento saí da zona de conforto. Daqui a um ou dois pares de anos, talvez, terei mais passado do que futuro, então, quando minha vida, de fato, começará, já que não me recordo de ter experimentado alguma zona de conforto até aqui (pelo menos, não sob um ponto de vista coaching: sem medos, incertezas e riscos)?

Como os textos do universo coaching não me são tão atraentes assim e as questões que passei a lançar mão são um tanto existenciais, quanto sociais, resolvi, consequentemente, buscar, em um dicionário qualquer, o significado de conforto e, dentre as várias definições encontradas, escolhi apenas uma para transcrever aqui com finalidade meramente ilustrativa. No dicionário consultado, conforto alude a “aquilo que proporciona bem-estar ou comodidade”.

Por um lado, os coaches não estão errados, vale reconhecer, já que acomodar-se não é algo interessante (de modo geral, soa como “conformismo” e tenho náuseas disso!); por outro lado, o conforto alude a “bem-estar” e isto significa que, num silogismo vulgar, sair da zona de conforto tem a ver com inquietude. Entretanto, quem está confortável nos dias atuais? Quem está cômodo sabendo que a existência tem se convertido, a cada dia mais, num ato de resistência?

Os coaches até dizem que a zona de conforto não é um local tão confortável assim. Ora, se nem a zona de conforto é confortável, imaginem só como é estar na zona de desconforto. E eu me identifico mais com esta do que com aquela, assim como uma corda de violão que vibra sem ser dedilhada, emitindo um sonido por reconhecer uma frequência, pura reciprocidade. Isso acontece ainda com pinturas, músicas, livros e pessoas.

Há tempos a vida tem sido vivida no fragmento. Todavia, a sensação de que a esperança foi sentenciada à margem desde quando o "bizarro decidiu transmutar a vida em horror” (isso foi há dois textos, lembram!?) aumentou sobremaneira nos últimos anos. Para mim, é inconcebível existir alguma zona de conforto quando, dentre outros problemas:

1) existem quase 20 milhões de pessoas entre desempregados e desalentados no Brasil (aqueles que desistiram de procurar ocupação, segundo o IBGE);

2) 120 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar, das quais 45 milhões não contam com alimentos em quantidade suficiente, nem qualidade adequada, e 20 milhões passam fome;

3) um crescimento desolador do contingente de pessoas em situação de rua;

4) há desmatamento recorde e queimadas devastadoras na Amazônia e no Pantanal, por exemplo;

5) a inflação volta a aterrorizar e a corroer com maior força a já fragilizada renda das famílias (lembro que, quando eu era criança, lá nos idos dos anos 1990, a inflação amedrontava muito mais do que qualquer filme do Hitchcock, Kubrick, John Carpenter ou Wes Craven).

Zona de desconforto, certamente, é a região em que a maioria da população se encontra. Conforme pesquisas recentes, em torno de 65% dos brasileiros vivem ou estão desconfortáveis. Um Estado de exceção sempre fez parte do legado neoliberal, no entanto, a extrema-direita acrescentou bastante ódio e fundamentalismo religioso em sua agenda, entregando, ao povo, um projeto político, econômico e ideológico impossível de dar certo, mas que foi endossado nas urnas em 2018 – num torpor coletivo (quase) inexplicável que tomou conta de 57 milhões de pessoas.

É preciso reformar um Estado que trata com conforto o mercado, enquanto lança a sua população à condição de resto, instaurando um desconforto generalizado. O conforto de poucos se sustenta à base do desconforto de muitos. O elevado percentual de desaprovação da necropolítica demonstra o que a maioria da população anseia: sair dessa grande zona de desconforto e reencontrar-se com a utopia, suspendendo as despedidas causadas pela incursão violenta da fome, do desemprego, da degradação ambiental, da falta de moradia, enfim, das incertezas geradas pelas investidas do poder contra a vida.


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JEFFERSON VERAS NUNES

Mestre em Sociologia pela UFC, doutor em Ciência da Informação pela UNESP e professor do Departamento de Ciência da Informação da UFC