COTIDIANO INFORMACIONAL


ENTRE A MORAL E A VIDA

Muito já se falou sobre o risco da desinformação para a democracia. Não à toa, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem dirigido importantes esforços para barrar o avanço de algo tão nocivo à sociedade. Nesse sentido, junho foi escolhido como o mês para o lançamento de uma interessante campanha nas mídias sociais para fortalecer o combate à desinformação. Resultado de uma parceria entre o TSE e o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), a campanha se intitula “Democracia em pílulas”, tem como propósito assegurar a realização de “eleições limpas e seguras” e se caracteriza pela divulgação de conteúdo diário com o intuito de conscientizar os eleitores para a importância de se verificar as informações acessadas, ressaltando, também, a necessidade de se priorizar, sempre que possível, os canais oficiais.

Ataques à democracia não são, obviamente, um fenômeno recente. Afinal, a democracia não deve ser entendida como algo relacionado apenas ao sufrágio, ao direito de votar e/ou ser votado, logo, enquanto algo circunscrito à esfera da política partidária. Democracia tem uma definição bem mais ampla do que isso e seu uso remonta antes mesmo da Atenas do século V a.C.. Contudo, no sentido que Aristóteles e Platão empregaram ao termo, democracia alude à ideia de um governo constituído coletivamente, portanto, “do povo, pelo povo e para o povo”, conforme Heródoto assinalou certa vez. O modelo adotado no Brasil, todavia, é o de uma democracia indireta, denominada representativa, quer dizer, por meio do sistema eleitoral a população escolhe, de períodos em períodos, os seus mandatários.

Nos últimos anos, forças têm sido somadas para pôr em xeque processos eleitorais quando os resultados não satisfazem certos interesses políticos e econômicos hegemônicos. No Brasil, ameaças a integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e, especialmente, ao sistema eleitoral têm se tornado recorrentes. Tais atos são justificados, comumente, pela via da “liberdade de expressão”, muito embora não se trate de mera manifestação de opinião pessoal, mas de um ataque deliberado à Constituição Federal, que proíbe esse tipo de ação quando sua intenção é investir contra o Estado Democrático de Direito.

Muitas vezes, o acesso e o compartilhamento de informações falsas não é apenas uma questão de desconhecimento, inócua, vazia de intencionalidade. Se assim o fosse, a solução para o problema seria menos complicada do que parece ser. Os ataques a que me refiro e que podem ser vistos, quase diariamente, nos noticiários vêm se intensificando sempre que a popularidade do Sr. Jair oscila para baixo. Analistas dão a essa controversa estratégia o nome de “cortina de fumaça”. Quando um dado negativo relacionado à gestão do atual chefe do executivo vem à tona, desperta a curiosidade a velocidade com que factóides são criados para tentar disfarçar a opinião pública, cuja finalidade parece ser a de minar mobilizações populares.

Com a inflação em dois dígitos, corroendo dramaticamente a renda das famílias, o debate no Planalto continua estagnado em temas envolvendo armas de fogo, aborto e comunismo - o chamado “discurso de costumes”, um velho conhecido em querelas religiosas. O Sr. Jair não fala à população fora do “cercadinho” (ou seja, sua base de apoiadores) e sua equipe econômica parece ignorar problemas graves do País. O Auxílio Brasil teve o seu poder de compra corroído pela escalada no preço dos alimentos. A cesta básica, por exemplo, tem acumulado sucessivas altas e, hoje, em estados como São Paulo, segundo o Procon e o Dieese, chega a custar praticamente o mesmo que um salário mínimo. “Cortinas de fumaça” não saciam o estômago; servem somente para asfixiar a realidade, tornando-a ainda mais agonizante. Além de um enorme prejuízo à democracia, a desinformação tem o poder de atentar fortemente contra a vida.

Apesar de tudo, há pesquisas que indicam uma possível presença do Sr. Jair no segundo turno da corrida presidencial. Os números insinuam que a disputa tem se localizado entre dois tipos de necessidades por parte dos eleitores: uma que é material, de cunho “básico”, e outra camuflada como “moral”. O risco reside aí, pois é justamente no território da “moral” que a desinformação costuma se inserir, sendo adotada, frequentemente, como instrumento para propagar discursos que escamoteiam a urgência das questões materiais e o desastre da condição humana evidenciado nos números da gestão do Sr. Jair. Por enquanto, as necessidades “básicas” estão vencendo as “morais”. A democracia, quando exercida pelo caminho da política partidária, até pode ser percebida como um jogo, mas jamais deve ser tratada como um passatempo.


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Fevereiro/2022



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JEFFERSON VERAS NUNES

Mestre em Sociologia pela UFC, doutor em Ciência da Informação pela UNESP e professor do Departamento de Ciência da Informação da UFC