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BIBLIOTECÁRIO DE CATALOGAÇÃO RECITANDO A IA GENERATIVA

Na Grécia Antiga, o Oráculo de Delfos era fonte de consulta para previsões sobre qualquer tipo de questão ou necessidade de conselhos variados. A interação com o oráculo realizava-se por meio de uma sacerdotisa, conhecida como Pitonisa, que em estado de transe realizava previsões ou fornecia respostas às perguntas. As respostas muitas vezes eram enigmáticas e requeriam interpretação.

Em tempos atuais, o “Oráculo de Delfos” pode ser representado pelos algoritmos de inteligência artificial generativa (IA). Algoritmos que têm se popularizado nas plataformas sociais, especialmente entre os mecanismos de busca e navegadores web, como serviços adicionais. Recursos que podem ser usados para gerar conteúdos de: áudio, código de programação, imagens, texto, simulações e vídeos.

Os avanços recentes desta tecnologia, aliado ao crescente uso, potencializam drásticas mudanças na forma como abordamos a criação de conhecimento. Neste sentido, emergem desafios novos à área da Ciência da Informação, em especial à Biblioteconomia, especialmente ao campo da catalogação bibliográfica responsável por organizar e tratar conteúdos, agora também são gerados por uma inteligência programada, a aprendizagem autônoma.

Neste aspecto, a proposta deste texto é abordar a utilização da IA, como o ChatGPT, na produção de conteúdo e sua citação bibliográfica para recuperação e acesso. Sabe-se que muitos educadores têm opiniões distintas sobre o uso do ChatGPT na educação ou pesquisa acadêmica.

Aliás, esse é um interessante campo de estudo. Entretanto, há questões sobre tais recursos, quanto ao uso pouco claro das fontes de consulta, e a impossibilidade de verificar o grau de confiabilidade das informações geradas.

Os chamados chatbots, em que se configuram os serviços de IA, possuem, em geral, uma limitação de tempo, buscando informações até 2021. Ao gerar textos com citações, não há variação de autores. Não quer dizer que nenhuma plataforma deva ser utilizada, afinal ainda estão em desenvolvimento, devendo melhorar suas funcionalidades.

Neste cenário de aplicação de IA para geração de conteúdos variados, os bibliotecários são consultados sobre como proceder para citar e/ou referenciar o resultado obtido. Situação que irá afetar, se já não afeta, quando a questão se referir à catalogação deste conteúdo produzido.

Observa-se que os resultados da interação com ChatGPT não são recuperáveis por outros leitores. Já, as citações em artigos, podem ser modeladas em normas técnicas, como: estilo APA (American Psychological Association); estilo MLA (Modern Language Association of America) e as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Nesta últimas não se obteve informações específicas, mas nada em contrário de ser adaptada.

Ressalte-se que, no texto gerado pelo ChatGPT, não há nenhuma pessoa se comunicando. Assim, citar o conteúdo produzido, gerado de uma sessão interativa (bate-papo), assemelha-se mais com o compartilhar a saída de dados de um algoritmo. Desta forma, credita-se ao autor do algoritmo, a entrada nas referências e citação no corpo do texto.

Recomenda-se, ao utilizar ferramentas de IA em trabalhos acadêmicos, descrevê-la na descrição do método, no artigo ou na introdução. No texto, deve-se fornecer o prompt usado e, em seguida, qualquer parte do texto gerado como resposta e considerado relevante.

Saliente-se que prompt é a denominação para os comandos de instruções/consulta que fornecemos às ferramentas de chatbots, quando desejamos respostas ou solicitamos algum tipo de conteúdo.

Ao realizar a mesma consulta (prompted) ao ChatGPT, extraída do artigo de McAdoo (2023), pela pergunta: “Is the left brain right brain divide real or a metaphor?”, em português: A divisão do cérebro esquerdo é real ou uma metáfora? Obteve-se a mesma resposta:

A ideia de divisão do cérebro em hemisférios direito e esquerdo é real, mas muitas vezes é simplificada em uma metáfora popular para descrever diferenças funcionais entre os hemisférios cerebrais. Os hemisférios cerebrais direito e esquerdo têm funções ligeiramente diferentes e são responsáveis por diferentes tipos de processamento cognitivo [...] (OpenAI, 2023).

A referência pela APA, é exemplificada como:

  • OpenAI. (2023). ChatGPT (September 25 version) [Large language model]. https://chat.openai.com/chat
  • OpenAI. (2023). ChatGPT (versão 25 de setembro) [Large language model]. https://chat.openai.com/chat
  • A citação entre parênteses: (OpenAI, 2023); ou a citação narrativa: OpenAI (2023)

A orientação para a citação e referências foram adaptadas do modelo de referência para software, contido na seção 10.10 do Publication Manual (American Psychological Association, 2020, Capítulo 10).

Essas diretrizes podem ser adaptadas para outros modelos de linguagem ampla (large language) de IA, como o Bard da Google, Bing Bot da Microsoft, algoritmos e softwares assemelhados. Na estrutura da referência exemplificada, há quatro elementos (autor, data, título e fonte), definidos:

  • Autor: responsável pelo conteúdo é OpenAI.
  • Data: ano da versão usada. Pela seção 10.10, do Manual APA, deve-se incluir apenas o ano, não a data exata. Os dados de versão fornecem informações específicas de data.
  • Título: é "ChatGPT", que serve de título e está destacado em itálico. Apesar da OpenAI rotular as iterações (ou seja, ChatGPT-3, ChatGPT-4), adota a designação "ChatGPT" como nome geral da ferramenta, com atualização identificada pelo número da versão, que aliás está incluído entre parênteses, após o título. Esse número inclui o mês, por ser a forma do OpenAI rotular suas versões. Outros modelos de Inteligência podem adotar identificação de versão diferentes. O texto entre colchetes, na sequência, é usado para descrições adicionais, se necessárias à compreensão da citação. Referências para fontes bibliográficas não incluem essas descrições entre colchetes. Na citação do ChatGPT recomenda-se o descritor: Large language model, entre colchetes. O objetivo é descrever o tipo do modelo citado.
  • Fonte: se o nome do editor e do autor forem iguais, não repetir o editor na referência e mover diretamente para a URL. No exemplo, a URL do ChatGPT é https://chat.openai.com/chat. Para outros modelos, pode-se criar uma referência, usando endereço que vincula diretamente à fonte de acesso da ferramenta, e não a página inicial do editor.

Outra norma de referenciação bibliográfica é encontrada no estilo MLA (Modern Language Association of America). No contexto das tecnologias, como ChatGPT, o estilo apresenta uma estrutura elementos essenciais à avaliação das fontes e de criação das citações. Ressalta que, ao se encontrar justificativas para modificar essas diretrizes, implementar. Assim, recomenda:

  • Citar a ferramenta de IA generativa sempre que parafrasear, mencionar ou incorporar no texto do trabalho qualquer conteúdo (texto, imagem, dados etc.) criado pelo algoritmo.
  • Reconhecer os usos funcionais da ferramenta (edição de texto ou tradução) em nota, no corpo ou final do texto.
  • Atenção em verificar fontes citadas pela ferramenta.

Sobre uso da estrutura de referência do estilo MLA, é observado:

  • Author (Autor): não tratar a ferramenta de IA como autor. Seguir as políticas adotadas por editores, incluindo MLA’s journal PMLA.
  • Title of Source (Título da Fonte): descrever o que foi gerado pela ferramenta. Pode incluir informações sobre o prompt no elemento título da fonte, se não for inserido no texto.
  • Title of Container (Título do Suporte): usado para nomear a ferramenta (exemplo: ChatGPT, Bard etc.).
  • Version (Versão): indicar a versão da ferramenta de forma mais específica possível. O elemento version mostra a data de versão. Exemplo: ChatGPT 3.5, September 25 version (atribui uma data específica à versão).
  • Publisher (Editor): indicar a empresa criadora da ferramenta.
  • Date (Data): informar a data em que o conteúdo foi gerado.
  • Location (Localização): fornecer o endereço eletrônico (URL) geral da ferramenta.

Adaptando alguns poucos exemplos, utilizados pelo estilo MLA, pode-se observar a aplicação na citação de ferramenta IA.

Exemplo 01: Parafraseando texto o ChatGPT

Consulta no prompt: Descreva o simbolismo da luz verde no livro O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald. [baseado no original: Describe the symbolism of the green light in the book The Great Gatsby by F. Scott Fitzgerald]

Resposta ChatGPT [trecho ilustrativo]:

Em resumo, a luz verde em "O Grande Gatsby" é um símbolo complexo que representa o Sonho Americano, o que é inalcançável do passado, a esperança, a ilusão e a corrupção. Ela desempenha um papel crucial na exploração dos temas do romance e na caracterização de Jay Gatsby como um personagem trágico que persegue um ideal inatingível.

Entrada para Obra-Citada: da consulta em português na ferramenta

"Descreva o simbolismo da luz verde no livro O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald" prompt. ChatGPT, versão 25 set., OpenAI, 12 out. 2023, chat.openai.com/chat.

Exemplo 02: Citação no corpo do texto.

Formulação da consulta no prompt do ChatGPT: Em 200 palavras, descreva o simbolismo da luz verde em O Grande Gatsby

Resposta ChatGPT [trecho ilustrativo]:

A luz verde é um elemento simbólico fundamental no romance "O Grande Gatsby" de F. Scott Fitzgerald. Ela é visível ao longo da narrativa e desempenha um papel crucial na representação de temas centrais da obra. A luz verde é vista no final do cais de Daisy Buchanan, a protagonista feminina, e torna-se um símbolo do sonho americano inalcançável. Gatsby, o personagem titular, a observa todas as noites com esperança e anseio, associando-a ao seu desejo de sucesso e ao amor que sente por Daisy. A luz verde representa a busca incessante do sucesso e da felicidade, que muitos personagens da história perseguem, mas que muitas vezes permanece distante, como uma ilusão no horizonte. Além disso, a luz verde também simboliza a corrupção e a decadência da sociedade da época, que busca incessantemente o materialismo e o status social, em detrimento dos valores verdadeiros. A busca obsessiva de Gatsby pela luz verde reflete a futilidade de seus esforços para se integrar na alta sociedade e conquistar o coração de Daisy. Em última análise, a luz verde em "O Grande Gatsby" representa a ilusão do sonho americano, a corrupção da sociedade e a triste realidade de que, às vezes, os desejos e objetivos mais nobres podem se perder em meio ao vazio e à superficialidade da vida. É um símbolo poderoso que contribui para a riqueza temática e a profundidade do romance.

Formulação de pergunta complementar, no prompt ChatGPT: Quais fontes acadêmicas foram usadas para gerar essa descrição

Resposta GPT [trecho ilustrativo]:

Peço desculpas por qualquer mal-entendido, mas não utilizei fontes acadêmicas específicas para gerar a descrição anterior sobre o simbolismo da luz verde em "O Grande Gatsby". A resposta foi gerada com base no conhecimento e nas informações gerais disponíveis até a minha data de corte em setembro de 2021. A descrição sobre o simbolismo da luz verde em "O Grande Gatsby" é uma interpretação comum do livro que pode ser encontrada em diversas análises literárias, resenhas e discussões sobre a obra ao longo dos anos. No entanto, a resposta não se baseia em uma fonte acadêmica específica. Se você estiver realizando um trabalho acadêmico sobre o livro e precisar de fontes acadêmicas, recomendo consultar artigos acadêmicos, livros de crítica literária e estudos sobre "O Grande Gatsby" em bibliotecas universitárias, bases de dados acadêmicos ou através de instituições acadêmicas respeitáveis. Isso garantirá informações mais detalhadas e embasadas em pesquisas acadêmicas sobre o tema.

Citação no corpo do texto

Quando solicitado a descrever o simbolismo da luz verde em O Grande Gatsby, ChatGPT forneceu um resumo sobre otimismo, a inatingibilidade do sonho americano. Porém, indagado sobre a fonte no qual o resumo foi baseado, observou que não utilizou fontes específicas. A resposta baseou-se no conhecimento e informações gerais disponíveis até a sua data de corte, em setembro de 2021. Se houver necessidade de indicação para trabalhos acadêmicos, recomendou consultar artigos científicos, livros de crítica literária e estudos sobre "O Grande Gatsby" em bibliotecas, bases de dados ou instituições acadêmicas respeitáveis ("Em 200 palavras").

Entrada para Obra citada:

"Em 200 palavras, descreva o simbolismo da luz verde em O Grande Gatsby" ChatGPT, versão 25 set., OpenAI, 12 out. 2023, chat.openai.com/chat.

É ressalvado o uso do termo prompt, na referência, por se descrever algo que imita uma conversa, e pode ter vários prompts ao longo da interação:

"Em 200 palavras, descreva o simbolismo da luz verde em O Grande Gatsby" prompt. ChatGPT, versão 25 set., OpenAI, 12 out. 2023, chat.openai.com/chat.

Exemplo 3: Citação de trabalhos visuais criativos

Ao incorporar no texto, imagem gerada pela IA, é preciso criar legenda em acordo com as diretrizes da seção 1.7 (tabelas e ilustrações) do manual MLA Handbook. Usar a descrição do prompt, seguida da ferramenta, sua versão e a data de criação:

 

 

Fig. 1. "Pintura de uma ovelha em um campo ensolarado de flores azuis" prompt, DALL-E, versão 2, OpenAI, 12 out. 2023, labs.openai.com/

Observar que a ferramenta DALL-E, permite gerar uma URL (Uniform Resource Locator) para compartilhar a imagem, podendo incluir na referência, em lugar do endereço geral da plataforma. Exemplo:

"Pintura de uma ovelha em um campo ensolarado de flores azuis" prompt, DALL-E, versão 2, OpenAI, 12 out. 2023, https://labs.openai.com/s/adwyiZkJL55eEpvIHfvQ4RK0

Para não alongar este texto, recomendo explorar as indicações de leitura, além de pesquisar o tema em outras fontes digitais. Já, a abordagem da questão na perspectiva da catalogação descritiva, fica para próximas colunas.

Entretanto, antecipa-se a observação de que, para o IFLA-LRM (Library Reference Model), na classe Agente (Pessoa, Família e Organização Coletiva), a diretriz E7, define que a “entidade pessoa” é restrita às pessoas reais, viventes ou que se presume tenham vivido. Não requer prova de existência, desde que haja aceitação de sua provável historicidade.

Neste sentido, as “inteligências artificiais” parecem não ter autonomia de responsabilidade, em especial de autoria ou criação. O que indica sua menção como entrada temática.

Porém, vivemos tempos de mudanças, assim estima-se que nos próximos 20 ou 30 anos, não teremos apenas uma nova geração, mas muito provavelmente uma nova civilização.

Indicação de leitura:

McAdoo, T. How to cite ChatGPT. APA Style, April 7, 2023. Disponível em: https://apastyle.apa.org/blog/how-to-cite-chatgpt  

How do I cite generative AI in MLA style? MLA Style Center. Disponível em: https://style.mla.org/citing-generative-ai/

What is generative AI? McKinsey & Company, 19 de janeiro de 2023. Disponível em: https://www.mckinsey.com/featured-insights/mckinsey-explainers/what-is-generative-ai

The Modern Language Association of America. MLA Handbook. Ninth edition. 2022. Disponível em: https://mlahandbookplus.org/books/book/5/MLA-Handbook

DALL·E: Creating images from text. OpenAI, 5 de janeiro de 2021. Disponível em: https://openai.com/research/dall-e

OpenAI. Introduce ChatGPT. OpenAI.com, 30 de novembro de 2022. Disponível em: https://openai.com/blog/chatgpt


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.