CRÔNICAS E FICÇÃO


SOU UM POUCO DO MUNDO

Sou um pouco do pó da estrada,

da poeira da calçada.

Um pedaço de tijolo do prédio,

grão de areia do concreto,

pequeno caco de vidro da janela

e de uma telha que recobre uma casa.

 

Um naco do olhar triste de um homem,

uma gota de suor ou lágrima que derramei.

A roda de um carrinho de brinquedo,

a perna solta da boneca da menina.

Uma nota da sonata que amava,

um acorde da flauta que tocava,

tecla de sanfona, corda de violão.

Trechos de músicas que me deliciaram.

Tampas de canetas tinteiro,

traço do grafite da lapiseira.

 

Momento de medo de altura,

aperto no coração e no peito com a morte

dos que não queria que me deixassem.

A dor do machucado e da doença,

temor daquele homem do saco.

Um bater de dentes de medo do escuro.

 

Sou lasca da carteira da escola,

pedaço de borracha da sola de sapato.

Sou o pé no quadrado da amarelinha,

um centímetro das corridas com amigos.

Um pelo de todos os meus cachorros.

Uma tira dos quadrinhos que li,

pedacinho das páginas dos meus cadernos.

 

Minutos de aula que ministrei,

sorrisos dos que gostaram, zanga dos que não.

Uma ação no sindicato, na associação.

Tremor da primeira palestra,

dor no estômago na primeira avaliação.

 

Cheiro de café, grão de arroz, caldo de feijão.

Pedaço de banana amassada com aveia.

Gota de água da chuva, na cabeça e no corpo.

Um fiapo do avental de minha mãe,

um botão do terno do meu pai.

Um tapa das brigas com meu irmão.

 

Sou palavras dos livros que tive,

o rosto da menina que não tive.

 

Um arrepio de medo ou de prazer.

Saudades, tristezas e felicidades.

Lembranças de desprezos e amores,

Amizades, sentimentos e vontades.

 

Trechos das mesmas ruas, mesmos caminhos.

Uma rua do Brás, outra do Pari,

mais uma do Bexiga, bairros em que morei

de uma enorme cidade, minúscula no mundo.

 

Farelo de pão, fio de macarrão.

Gota escondida de leite condensado.

Gole de leite entre padaria e casa.

 

Um metro das estradas que percorri,

esquinas das cidades que conheci,

receios dos aviões em que viajei.

Uma rua do Brás, outra do Pari,

mais uma do Bexiga, bairros em que morei

de uma enorme cidade, minúscula no mundo.

 

Cadeiras de restaurantes, de cinemas.

Bastidores de teatros em que ensaiei.

Estantes de bibliotecas que frequentei,

parágrafos de textos que disseminei.

Palavras dos livros que escrevi,

estrofe das poesias que ousei.

 

O sorriso de um filho, neta, neto,

um beijo, mesmo pequeno, de quem se ama.

 

A morte pode apagar tudo,

mas, sou do mundo, sou parte do mundo,

sou um pouco do mundo.

E nele ficarei marcado,

e nele pertencerei.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.