MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO PARA O PROTAGONISMO DE ARQUIVISTAS: ASPECTOS DO ASSOCIATIVISMO DE CLASSE NA PARAÍBA
Vitor Hugo Teixeira
Dentre tantos aspectos fascinantes conferidos pelos estudos em Mediação da Informação, um dos mais envolventes é, certamente, aquele pelo qual a pessoa mediadora não precisa – e nem deve – esperar passivamente que uma demanda informacional seja pontualmente notificada por um sujeito, para que, só então, receba atenção. A partir de uma atuação proativa, guiada pelo compromisso com o protagonismo social – que não se limita à extensa discussão da mais avançada teoria, mas que imprescinde do entrelaçamento de sua leitura com a prática – o/a profissional contribui para valorosas reconfigurações do mundo a partir de sua vivência.
Viver na América Latina e pesquisar no campo das Ciências Sociais são fatores que, por si só, ajudam a tornar as desigualdades um tanto tangíveis, não sendo preciso ir muito longe para alcançar os grupos subalternizados, uma vez que até mesmo algumas profissões resultantes da formação nesse amplo campo do saber – como a do/a arquivista, do/a bibliotecário/a e do/a professor/a – sofrem, consequentemente, uma segregação pela mesma sociedade que garante notáveis privilégios a outras – como a do/a engenheiro/a e do/a médico/a. No caso destas últimas, ainda que o capitalismo insustentável também as mantenha em um sistema de crescente exploração e desvalorização, a própria história de tais profissões ainda lhes faculta a perpetuação de um maior prestígio social.
Tal configuração torna viável a seguinte afirmação: se, por um lado, faz todo o sentido sensibilizar-nos para as questões de gênero, sexualidade e raça nos estudos sobre Mediação da Informação – bem como nas demais áreas de pesquisa –, por outro lado, é preciso considerarmos que exercer determinada formação e profissão é, também, em sua natureza, experimentar lastimável subalternidade, o que justifica os esforços acadêmico-científicos empreendidos no sentido de promover a emancipação desses sujeitos (sem contar com os incontáveis exemplos daqueles/as em que essas identidades se cruzam, conferindo-lhes a castigada condição de interseccionalidade (Crenshaw, 2013)).
No caso dos/as arquivistas, questões relacionadas a melhorias salariais, criação de mais e melhores oportunidades de emprego, o (des)cumprimento da legislação em meio à publicação de editais de concursos e a inexistência de um conselho profissional são apenas alguns exemplos de como os desafios podem ser suficientemente desestimulantes à categoria. No entanto, é perceptível a dificuldade que possuem alguns/mas arquivistas-pesquisadores/as, cujos estudos visam à emancipação de grupos socialmente subalternizados, para abordar o recorte de classes em sua problematização – e, quando o fazem, raramente retratam a si mesmos, como se não enxergassem que este (e não apenas os demais marcadores) também é um fator que contribui para a sua condição de oprimidos/as.
Em contrapartida, o associativismo de classe, enquanto iniciativa de um grupo com o objetivo de superar dificuldades na luta por seus direitos, pode ser traduzido como uma ideologia ou instrumento por meio do qual trabalhadores/as se articulam e resistem em busca de benefícios econômicos, sociais e políticos. É nesse contexto que surge, no ano de 2013, a Associação de Arquivistas da Paraíba (AAPB). Fruto de grande empenho de membros da comunidade arquivística paraibana, a instituição sem fins lucrativos exerce, a duras penas, o seu acertado papel de assumir e representar, voluntariamente, as inúmeras demandas da categoria perante o governo e a sociedade.
Ressalta-se tamanha dificuldade em sua trajetória porque, historicamente, tem-se o cenário de uma significativa desmobilização, como se os membros da comunidade arquivística não acreditassem na possibilidade de um efetivo desenvolvimento do setor. Tal marasmo pode ser percebido, por exemplo, quando da periódica etapa de renovação da diretoria, em que todas as gestões foram ocupadas através da candidatura de chapas únicas. E, como se não bastasse tal revés, por vezes verificou-se, até, notória dificuldade para que o pleito alcançasse o quórum de votantes necessário para tornar o movimento possível. Apesar disso, a gestão atual da AAPB (2022-2025), intitulada “Governança Arquivística por uma Democracia Inclusiva”, tem se empenhado para assegurar as diferentes frentes em que atua.
Retomando, então, a questão inicial – a do/a mediador/a consciente e proativo/a –, a convergência entre os temas se dá a partir da nossa presente experiência na Coordenação de Comunicação desta entidade. Conduzir as atividades de comunicação de um órgão como esse não diz respeito, exclusivamente, ao domínio de habilidades para a criação de materiais midiáticos de diferentes formatos visando a sua publicação em distintos meios de circulação. Antes, e sobretudo, refere-se ao constante estímulo de sensibilidade interior e à disposição para identificar e aplicar estratégias que possam contribuir, de fato, com a missão da instituição, qual seja, a de “Congregar Arquivistas e profissionais que atuam e desenvolvem atividades que se relacionam aos arquivos e à Arquivologia, defendendo seus interesses” (Associação […], 2021, cap. I, art. 2º, inc. III).
Nesse sentido, uma demanda irresolvida para o protagonismo dos/as arquivistas paraibanos/as – na iminência do aniversário de dez anos da reinstituição do seu movimento associativo –, era a concretização de um ambiente virtual que pudesse reunir todas as informações essenciais para a compreensão de sua conjuntura, de modo a difundir a sua abrangência ao passo que promovesse a sua articulação interna e externa. Nesse escopo, a mediação da informação, como fundamento e contributo da Ciência da Informação para o protagonismo social (Gomes, 2020), proporcionaria uma orientação teórica, de aplicação efetivamente prática, para guiar tal processo.
Dessa maneira, sendo a mediação da informação caracterizada como toda ação de interferência realizada por um profissional da informação visando a apropriação de informação para satisfazer uma necessidade informacional (Almeida Júnior, 2015), a nossa inspiração para a criação do site da AAPB se deu a partir de uma contribuição singular: a adequação dos atributos informacionais julgados mais importantes (e aplicáveis ao nosso contexto) identificados nos sites das outras associações de arquivistas, situadas em diversos estados brasileiros.
Mediante uma pesquisa prévia realizada nesses dispositivos, foi possível selecionar, agrupar e customizar informações que resultaram, por exemplo, na elaboração das abas profissão, espaço do empregador, banco de talentos e legislação da área, no novo site da AAPB. Não obstante, também é pertinente destacar a inovação caracterizada por outros tópicos idealizados com poucos ou nenhum recursos, como, por exemplo, as abas associe-se, memória da Arquivologia paraibana, histórico da AAPB, nossas ações e registro profissional.
Tal iniciativa se concretizou como resultado da busca pelo alcance das cinco dimensões da mediação consciente da informação, elencadas por Gomes (2019; 2020) – que são as dimensões dialógica, estética, ética, formativa e política, por meio das quais o/a mediador/a busca compreender as singularidades dos sujeitos, construindo uma ambiência de acolhimento, tornando possível uma desestabilização e ressignificação de seus conhecimentos, promovendo um sentimento de pertença e fazendo emergir um perfil crítico, debatedor e reflexivo.
Em síntese, podemos afirmar que “[...] a mediação consciente da informação vindica a formação do profissional e intelectual orgânico, tendo sempre como norte sua intencionalidade de estar a serviço do protagonismo social, elemento essencial ao projeto humanizador do mundo [...]” (Gomes, 2020, p. 19).
Com isso, temos hoje a satisfação de apresentar, como consequência de uma prática consciente de mediação da informação, uma ferramenta que julgamos ser minimamente representativa para os/as arquivistas paraibanos/as. Fruto de uma ótica emancipatória e plural, o site aapb.com.br consiste em um instrumento que, em meio às suas inúmeras finalidades objetivas, pode ser útil para fomentar o princípio de que associativismo e individualismo até rimam, mas, jamais combinam.
É como preconizou Nêgo Bispo, saudoso pensador quilombola: diante de um desenvolvimento capitalista que nos desconecta do território, do outro e de nós mesmos, busquemos perseverar num envolvimento que garanta a manutenção da nossa identidade (Santos, 2023). Isso posto, o anseio é para que mais pessoas entrem nessa luta – e para as que se encontram nela nunca desistam.
Por fim, cabe refletir que o sucesso dessa experiência passa pelo reconhecimento dos grandes e honrosos esforços daqueles que vieram antes de nós.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, S.; SANTOS NETO, J. A.; SILVA, R. J. (Org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: Abecin, 2015. p.9-32.
ASSOCIAÇÃO de arquivistas da paraíba (aapb). João Pessoa, 2023. Disponível em: https://www.aapb.com.br. Acesso em: 04 fev. 2024.
ASSOCIAÇÃO de arquivistas da paraíba (aapb). Estatuto Social da Associação dos Arquivistas da Paraíba. 2021. Disponível em: https://www.aapb.com.br/arquivo-aapb/estatuto-aapb. Acesso em: 04 fev. 2024.
CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex: A black feminist critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. In: Feminist legal theories. Routledge, 2013. p. 23-51.
GOMES, Henriete Ferreira. Protagonismo social e mediação da informação. Logeion: filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 10-21, 2019
GOMES, Henriete Ferreira. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Informação & Sociedade: Estudos, v. 30, n. 4, p. 1-23, 2020.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu editora/ PISEAGRAMA, 2023.
Vitor Hugo Teixeira é arquivista graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e mestrando em Ciência da Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na linha de pesquisa de Organização, Representação e Tecnologias da Informação, com pesquisa financiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq-PB). Atua como Coordenador de Comunicação da Associação de Arquivistas da Paraíba (AAPB) (2022-2025). É membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mediação e Representação da Informação e os Marcadores Sociais da Diferença (GeMinas). Tem interesse pelos seguintes temas: Ciência da Informação e Arquivologia, com ênfase em Políticas Arquivísticas e suas relações com: Organização e Representação da Informação e do Conhecimento (ORIC); Mediação; Difusão; Apropriação; Competência/Letramento; Democratização; Emancipação; Desinformação; Justiça e Inclusão Social; Memória e Patrimônio; Linguagem e Discurso; Cognição, Metacognição e Sociocognição. Contato: vitorhugo-teixeira@hotmail.com