OBRAS RARAS


BIBLIOFILIA, ESSA PAIXÃO POR MANTER O LIVRO VIVO

“O livro exerce uma atração multiforme, que vai muito além da leitura, embora esta seja um ponto de partida fundamental. Em primeiro lugar, existe sempre a ilusão de que se vai conseguir ler mais do que na realidade se consegue. Depois vem o desejo de ter à mão o maior número possível de obras de um autor de quem se gosta – já é o começo de uma coleção. Conseguido o conjunto, que sempre se quer o mais completo possível, surge o interesse pelas primeiras edições, geralmente raras, e a atração pelo livro como objeto, e também como objeto de arte, em que entra a qualidade do projeto gráfico, a ilustração, a diagramação, o papel, a tipografia, a encadernação; e aí já surge a busca da raridade. (José Mindlin). A citação segue em homenagem aos 80 anos da Biblioteca Guita e José Mindlin nesse 2007. A coleção foi iniciada quando o colecionador tinha 13 anos de idade e passou a freqüentar os sebos de São Paulo.

 

Vimos rapidamente, em texto de fevereiro de 2005, que o Brasil colonial teve suas academias literárias, cujas atividades reuniam os intelectuais da época. Essas academias tinham sempre um objetivo, fosse ele escrever história ou publicar livros de escritores de renome. Muitas delas remontam ao século XVIII, quando aumentou em muito o número de sociedades (ou academias científicas), surgidas no século XVII, marco da divulgação científica para a sociedade a partir do surgimento de novos conhecimentos. No século XIX, com a especialização, as sociedades se diversificaram, tanto nas ciências quanto nas ciências sociais e nas humanidades. Hoje, no terceiro milênio, academias (ou sociedades, confrarias ou associações) ainda reúnem intelectuais em torno do livro e do livro raro, esse objeto que é quase uma peça de museu, que existe enquanto objeto físico, algumas vezes independente de seu conteúdo.

 

Nos Estados Unidos, o Grolier Club é a maior e mais antiga sociedade de bibliófilos e entusiastas das artes gráficas naquele país (para citar uma de muitas sociedades). Fundado em 1884, o clube recebeu o nome de Jean Grolier, famoso por abrir as portas de sua biblioteca aos amigos. Igualmente, outras sociedades de bibliófilos possuem bibliotecas, organizam exposições e elaboram edições normalmente primorosas de determinados livros, quase sempre em número limitado e não disponível no mercado para venda. Desde sua fundação, o Grolier já publicou mais de 200 livros e catálogos de exposição, alguns tendo se tornado referência na área, como o dos escritos maias, o alfabeto de Dürer, etc.

 

No Brasil, no século XX, temos duas mais conhecidas sociedades de livros de arte: a Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil e a Confraria dos Bibliófilos do Brasil. Há, também, a Associação dos Bibliófilos do Brasil, não menos importante que realiza eventos periodicamente. A primeira, fundada em 1943, já editou 23 obras brasileiras desde o ano de sua fundação até 1969.  A Sociedade publica 100 exemplares para os sócios. Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968) foi colecionador – hábito herdado de seu pai - por quase 50 anos de brasiliana, arte, azulejaria, mobiliário e prataria. Sua biblioteca possui hoje aproximadamente 8 mil títulos. Como sabemos, o contexto do aparecimento dessa coleção era o de um país efervecente em cultura, com a Semana de Arte Moderna em 1922, e o surgimento de nomes dos mais importantes na Literatura, Artes, Escultura, Música erudita e popular, Arquitetura, Planejamento Urbano, etc. Alguns autores chamam o período de Renascença nos Trópicos, com início em 1922 e término em 1960, com a inauguração de Brasília.

 

A Confraria dos Bibliófilos do Brasil foi fundada em 1995 por José Salles Neto, mineiro radicado em Brasília, e hoje conta com quase 400 associados e 17 títulos publicados, segundo matéria da Entrelivros. Alguns nomes participam de ambas as sociedades, como o de José Mindlin, que dispensa apresentações. As tiragens limitadas são de 300 a 500 exemplares e o processo de edição é também artesanal.

 

Essa é uma das maneiras de o livro que já nasce raro se manter vivo. É o livro-objeto de arte que insiste (graças a Deus e a almas abnegadas) na importância de sua presença num universo cada vez mais virtual.

 

Até a próxima!

 

 

Informações extraídas de:

 

Mindlin, José. Uma vida entre livros: reencontros com o tempo. São Paulo: Edusp/Companhia das Letras, 1997.

 

http://www.museuscastromaya.com.br/colecoes.htm

http://www2.uol.com.br/entrelivros/reportagens/raras_edicees_poucos_leitores_
uma_confraria_imprimir.html

 


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.