POSFÁCIO
Uma pequena pomba se perdeu da mãe antes de aprender a voar. Um gavião talvez tenha assustado a mãe e levado o outro filhote. A pombinha caiu da calha, local escolhido pela mãe para construir o ninho, e passou a se esconder atrás de um vaso.
Assim é o início de uma história que esbocei. Eu queria contar algo que, de fato, aconteceu, mas não consegui conter o personagem, mantê-lo obediente ao que eu queria passar para os outros, aos rumos que desejava impor à história.
A ideia primeira era a de refletir um pouco sobre o abandono, sobre a situação de alguém que perde sua família. Mais: eu desejava falar da falta do ensino, do aprendizado, da educação que o pai, a mãe e os parentes proporcionam. A pomba não sabia voar ainda; precisava do mediador, daquele que a incentivaria, que a acompanharia nos primeiros passos – embora com asas.
Como disse, esta é uma história verdadeira, embora apenas em seu início. Cuidamos da pombinha e, passados alguns dias, ela foi embora. Não vimos esse momento, não sabemos se ela conseguiu voar, se seu instinto a levou a aprender ou se caminhou pelo corredor e se foi pela rua ou, ainda, se o gavião voltou e a levou.
Passado um tempo, uma pomba apareceu no lugar em que a antiga e desamparada pombinha viveu o seu período de aprendizado de voo. Era ela que voltara para rever seu antigo refúgio? Impossível saber, mas, nós da casa passamos a acreditar e desejar que fosse, mesmo que isso contrariasse o real, não correspondesse ao que de fato aconteceu.
Nosso imaginário ameniza o real ou o questiona ou, ainda, enfatiza seus aspectos mais tristes, mais violentos, mais tenebrosos. A literatura, creio, nos apresenta uma parte do mundo a que temos acesso físico e nos integra a ela. Pode também nos mostrar o que vivemos sob outras óticas, outros entendimentos.
Nossos voos não podem prescindir dos pais, parentes, amigos da vizinhança, dos professores, amigos de escola, mas, e em boa medida de maneira semelhante, dos que nos mostram o mundo, nos contam o que há por trás do lado escuro, do lado inacessível e desconhecido da terra. A literatura nos diz que há um cavaleiro matando um dragão na lua, mas, ao mesmo tempo, ela nega a existência deles. São os olhares dos autores que estão permeados de visões, entendimentos, compreensões que, intencionalmente ou não, surgem nos textos elaborados por eles.
A pomba que retorna, a memória - que não sabemos se retrata o que aconteceu, se é a mesma pomba ou se não é. O mundo e a vida são uma sequência de “não saberes”, muitas situações desconhecidas.
A memória é traidora, ela pode falsear o real – e boa parte das vezes, de fato, o altera, o torna mais, digamos, palatável para nossos sentimentos.
Ela, memória, também é construída por esquecimentos. E nós precisamos, necessitamos desses esquecimentos; precisamos que parte de nossas vivências não estejam a todo momento presentes na nossa consciência. Memória e esquecimento se confundem, se mesclam, se amalgamam.
Leio livros que pouco me dizem, que pouco mexem comigo e, boa parte em função disso, esqueço rapidamente. Já fui vítima de iniciar a leitura de um livro e descobrir, depois de algumas páginas, que já o havia lido. Ele não tinha me marcado. Aconteceu, também, de alguém me perguntar o que eu achava de um determinado acontecimento, de uma passagem de um livro e eu não conseguir me lembrar dela. Lembrei do livro, do autor, do enredo, dos personagens, de algumas passagens, mas não especificamente daquela a que se referia meu interlocutor.
Há livros que li, sei que li, mas nada me lembro deles. Outros, que também me recordo de ter lido, que não lembro dos nomes dos personagens.
A memória está em mim e, ao mesmo tempo, fora de mim. Ela se constrói na relação, ela se estrutura no contato que tenho com o mundo e com os outros, mas, em igual medida, é chamada e retorna também nas relações.
O que aconteceu com um grande amigo de infância? E todos os que estudaram comigo, faziam parte das mesmas classes, do mesmo colégio? E aquela professora dos meus primeiros anos de estudo que relembrei por causa de uma foto postada nas redes sociais? Soube que outra professora estava doente; o que aconteceu com ela? O que houve com aquela criança que vi, certa vez, chorando em uma calçada? E aquele senhor que passava caminhando todos os dias pela minha rua e, de repente, não mais o vi? Outro senhor, já idoso, ao menos duas vezes por semana tocava a campainha de nossa casa vendendo pães feitos por sua esposa; certa semana não mais apareceu: morreu, alguém o substituiu nas vendas e optou por fazê-lo em outra vizinhança, a esposa dele faleceu, não precisou mais vender os pães?
Nossas vidas são cheias de indagações sobre aquilo que não temos contato, sobre aquilo que não temos uma relação física, sensorial.
Na literatura o mesmo acontece. Quando fechamos o livro ao final de uma história, perdemos o contato com os personagens que a povoaram, que a construíram. O que aconteceu com cada um deles? Não são reais, no entanto, existem. Os finais felizes são sempre momentâneos, fugazes.
Minha vida foi e é construída pelas minhas experiências, pelas minhas vivências, mas, também, por tudo o que li, tudo o que me relataram, tudo o que estava presente nos livros, na fala das pessoas com as quais tive contato, nos filmes, nas músicas, nas peças de teatro, nas exteriorizações artísticas, nas expressões culturais. Eu sou produto disso e das relações que faço entre cada um desses momentos, dessas situações, dessas emoções. Sou mescla de razão e sentimento; de corpo e pensamento; de realidade e imaginário.
A criança, assim como eu, precisa da realidade, não pode viver afastada dela, mas precisa também do imaginário, precisa do sonho, precisa ter várias vidas, precisa ser várias pessoas, ou melhor, vários personagens. A leitura – não só, mas estamos falando dela aqui – nos permite isso.
A leitura não é fuga, ao contrário, ela nos apresenta o mundo, ela nos mostra o mundo. Ela é cruel em certos momentos, mas ela, ao mesmo tempo, nos permite saltar, pular do nosso pequeno mundo e desbravar outros, sentir, mesmo que virtualmente, outras sensações.
Há algo mais virtual do que a leitura? Apesar de virtual, a leitura nos mostra o mundo, nos apresenta o que outros vivem.
A literatura usa nossa memória, nossos conhecimentos. Mas nossas memórias e nossos conhecimentos estão envolvidos em sentimentos, em desejos, em olhares, em pontos de vista, em situações de momentos. Eles simplesmente não reproduzem a realidade, eles envolvem a realidade e a refratam. Há a realidade? Sim, ela existe, mas nos aparece com olhares diferenciados. Ela é reconstruída pela nossa interação com ela.
A pombinha, quando no chão, sem saber voar, conheceu um pequeno, restrito e perigoso lugar. O aprendizado a levou ao ar, para a liberdade. Voando, a pombinha achou a liberdade, mas perdeu a água e a comida que dávamos a ela. A partir daquela hora, a liberdade exigiu um preço e o instinto dela resolveu pagar. O tempo em que ela esteve em nosso quintal não a eximiu do perigo que representava o gato que circula na rua e seus arredores. O estágio de aprendizado do voo, do uso adequado das asas, tornou essa pequena ave mais vulnerável.
Toda liberdade, assim, não é plena, ela exige sacrifícios para ser mantida e traz no seu bojo desafios e novas prisões, novas “não-liberdades”. Sozinha, a pequena pomba terá que enfrentar seus predadores – e precisará se esconder, viver preocupada, atenta para a aproximação deles –, terá que conviver com as intempéries climáticas, com a procura diária por comida etc. A liberdade não é um conceito que se concretiza plenamente, constantemente. Ele é intercalado e vive em frequente e incessante embate com seu contrário e com suas nuances. Pode haver mais ou menos liberdade, mas nunca uma total liberdade, nunca “a liberdade”.
Assim, o “viveram felizes para sempre” é uma frase e um final de história mentiroso, pois, assim como a liberdade, a felicidade ocorre em momentos e não é plena. A criança precisa saber que a felicidade, na vida concreta, não é “para sempre”, mas, ao mesmo tempo, ela, felicidade, deve ser buscada, almejada e, para isso, devemos trabalhar e lutar para que ela aconteça em muitos momentos – mais do que os de “não-felicidade”.
Liberdade e felicidades não são individuais, mas coletivas; elas só se realizam no coletivo, pois são dependentes das relações. Como ser feliz em uma sociedade na qual muitos passam fome? Como ser livre sob o jugo de governos autoritários?
A literatura, mesmo de maneira inconsciente, reproduz conceitos e modos de pensar hegemônicos – o que, muitas vezes, corresponde a ideias preconceituosas, a concepções excludentes.
A pombinha da história que comecei a contar, não era branca e, por esse motivo, não era da paz? Quem determinou que a pomba da paz é branca? Por que não cinza, como a nossa pombinha? Pomba cinza é o oposto da paz, uma vez que não é branca?
Todo livro tem um posfácio, explícito, como neste caso, ou implícito, quando reescrevemos, reelaboramos o texto, quando nos tornamos coautor. Aliás, todo livro sempre tem um posfácio implícito, assim como possui um conteúdo construído pelo autor e pelo leitor. O livro espera o leitor para que, definitivamente, possa dar seu conteúdo como lido e findo. A leitura dos livros só se finda na relação com o leitor, embora, para sermos mais exatos, o livro e sua leitura não se findam, não se acabam. Eles continuam latentes, vibrando no conhecimento dos leitores, esperando momentos e oportunidades para se fazerem presentes e interferindo na construção de novos conhecimentos.
Um dos nossos grandes poetas, João Cabral de Melo Neto, homenageia o livro na poesia “Para a feira do livro”. Nela, o livro é apresentado como algo aparentemente autônomo, mas está embutido na sua escrita a dependência do leitor, para que o livro realmente “exista”.
“ [...] Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto a música,
viva apenas enquanto voam suas rêdes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.” (MELO NETO, 1979, p.47)
O livro é silencioso, mas nós o fazemos falar; e ele fala, mesmo quando lido em voz alta, apenas para nós. Nós conversamos, dialogamos, discutimos, ouvimos o livro, embora isso ocorra particularmente, na intimidade das nossas reflexões, dos nossos pensamentos – que estão sempre em relação, em troca.
Que a pequena pomba esteja sendo feliz, ou melhor, que tenha muitos momentos felizes e, ao mesmo tempo, que continue livre, ou melhor, que esteja em plena luta por sua liberdade.
Felicidade e liberdade não podem prescindir da busca por conhecimento, sempre resultado de leituras, seja daqueles registrados em documentos ou daqueles vivenciados. A leitura do texto escrito, da literatura, da ficção, das histórias reproduzidas do que foi vivido ou de histórias inventadas, são formas de nos incluir no mundo, de abrir portas para que conheçamos melhor o mundo e os outros. A leitura permite a vivência e o conhecimento de espaços com os quais nunca teremos um contato sensorial, presencial. Além desses espaços concretos, a leitura nos possibilita entrar nos mundos do imaginário, mundos esses que atendem a necessidades escritas nos sonhos, nos desejos – que coexistem com a realidade.
Referências
(Fonte: MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas: 1940-1965. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. p.47.)
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