ARTIGOS E TEXTOS


AÇÃO CULTURAL E PROTAGONISMO SOCIAL

Muitas são as formas para se abordar o tema “Ação cultural e protagonismo social”. Em tempo: o tema foi escolhido pela Comissão Organizadora do CINFORM para a edição de 2015 do evento. As discussões aqui expostas foram preparadas para apresentação oral no referido evento e, a pedido dos organizadores, desenvolvidas para, em conjunto com outras apresentações, comporem um livro.

Entre as possíveis formas para se abordar o tema, está aquela que se vale dos aportes teóricos que subsidiam os estudos, pesquisas e reflexões sobre a Ação Cultural. Vários autores possuem contribuições significativas sobre o tema, produzidas, em sua maioria, nos anos 1970 e 1980.

Durante os anos da década de 1990 e boa parte dos anos da década de 2000, o tema foi quase esquecido. Não foi algo pontual que ocorreu apenas no âmbito da Biblioteconomia e da Ciência da Informação, ao contrário, essa foi uma situação presente em todos os segmentos do conhecimento humano e da sociedade. Ocorreu, em especial, na política e em todos os movimentos organizados da população. As reivindicações sociais ficaram restritas a poucos e pequenos grupos. No Brasil, por exemplo, excetuando o MST e alguns outros, os grupos organizados praticamente desapareceram. Com eles, também diminuíram, e muito, as preocupações com políticas sociais.

O movimento dos estudantes, quer secundaristas ou universitários, envolvendo desde a UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, até a UNE – União Nacional dos Estudantes, passando por grupos vinculados à Igreja Católica, como a antiga JUC – Juventude Universitária Católica (proibida no início da ditadura militar) e a atual CUB – Comunidade Universitária de Base, enfraqueceu acompanhando o que aconteceu com todos os movimentos organizados da população. As ações deixaram de ter uma aproximação com lutas amplas, de cunho político, econômico etc., para se prenderem a ações reivindicatórias departamentalizadas, estritas ao âmbito da educação e de pontos específicos.

O governo Collor abriu as portas para o neoliberalismo, implantando-o e sendo seguido pelos dois governos Fernando Henrique Cardoso. No governo Collor a cultura foi desprezada e ignorada. Na área da biblioteca, do livro e da leitura, o INL – Instituto Nacional do Livro se transformou em um Departamento subordinado à Biblioteca Nacional (FBN – Fundação Biblioteca Nacional); o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, criado nesse governo, também ficou subordinado à Biblioteca Nacional.

As discussões sobre ação cultural, como abordado acima, não fizeram parte dos interesses e preocupações dos pesquisadores e estudiosos da Biblioteconomia e da Ciência da Informação. Outros temas foram eleitos como importantes, destacando-se a Informática, as Tecnologias e a Gestão da Informação e do Conhecimento.

As tecnologias povoaram o imaginário dos profissionais da informação como a solução para todos os problemas enfrentados pela área.

A concepção da Ciência da Informação voltada exclusivamente para as informações científicas e tecnológicas, sempre e necessariamente utilizando tecnologias de informação e comunicação, tornaram-se hegemônicas e dominaram a maior parte dos textos e trabalhos produzidos no âmbito acadêmico. As produções originárias dos profissionais que estão atuando no mercado também seguiram, a maioria, essa concepção.

Na Biblioteconomia, os autores veicularam textos ratificando a informação registrada como objeto da área. A informação registrada não possibilita a inclusão, entre os interesses da área, da contação de histórias, das atividades culturais, da oralidade, até mesmo das informações efêmeras (informações eletrônicas, virtuais – que têm uma vida breve), disseminadas pelo ciberespaço, pelas redes.

A exemplo do que ocorreu no âmbito macro, ou seja, as consequências das políticas públicas implantadas e do sistema neoliberal assumido, também no âmbito micro os interesses e preocupações com a cultura e com ações voltadas para o social foram negligenciadas e esquecidas.

Os textos sobre ação cultural foram muito pouco produzidos, numericamente, se comparados com textos sobre outros temas. Da mesma forma, recuou bastante as publicações versando sobre informação pública.

Claro que essa situação decorre, em boa medida, da influência das ações políticas desenvolvidas pelos governos citados. Mas, decorre também de um caráter tradicionalista, conservador, muito arraigado na Biblioteconomia e na Ciência da Informação.

Retornando às discussões sobre o aporte teórico da ação cultural, enfatizando que, em função do acima exposto, concentraram-se nos anos 1970 e 1980, podemos citar alguns autores que entre outros deixaram seus conceitos e visões como bases teóricas para os que pesquisaram e trabalharam com ação cultural. São eles os mais citados na produção científica brasileira sobre a temática:  Paulo Freire, Teixeira Coelho, Luis Milanesi, Suzana Sperry, Victor Flusser, Maria Helena Toledo Costa Barros.

Suzana Sperry trabalhou com a noção de Animação Cultural. Seus dois livros traziam contribuições e experiências francesas (SPERRY, 1987a; SPERRY, 1987b). O conceito de Animação Cultural foi aceito por boa parte dos bibliotecários que atuavam nas bibliotecas públicas e escolares da época. Muitos entenderam seus trabalhos de animação cultural como sendo de ação cultural.

Por sua vez, Victor Flusser escreve alguns artigos no início da década de 1980 que apontam para uma biblioteca como um instrumento de ação cultural. Aliás, esse é o título da palestra que ministra no CBBD – Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, realizado em 1982 em João Pessoa (FLUSSER, 1982a).

As posições que defende se contrapõem à visão da animação cultural:

Preocupado com o não-público, propõe uma biblioteca que participe do processo de "dar a palavra" àqueles que não a têm. Afirma que a biblioteca pública está atuando voltada exclusivamente para um segmento da sociedade quantitativamente pequeno, e relegando a maioria da população (não-público). Este ponto é recorrente em boa parte das críticas sobre a atuação da biblioteca pública, presentes nos textos encontrados na literatura da área. A função da biblioteca, no entender de Victor Flusser, não deverá mais ser a de dar, oferecer cultura à um grupo de pessoas, mas a de propiciar e desenvolver uma dinâmica cultural, trabalhando com as pessoas. Troca-se consumo cultural por criação cultural.

O papel do bibliotecário também não é esquecido, merecendo um espaço nas preocupações da nova biblioteca proposta. Nela, esse profissional deve atuar junto com a comunidade, fazendo-se presente e dela participando. (ALMEIDA JÚNIOR, 2013, p.260-261)

Três termos se destacam nos trabalhos de Victor Flusser: "Biblioteca-Ação Cultural", "Biblioteca-Centro Cultural" e "Biblioteca verdadeiramente pública". São termos que apontam para uma visão crítica sobre os trabalhos desenvolvidos pelas bibliotecas públicas da época. Sua posição é a de apresentar formas diferenciadas de entendimento da biblioteca pública.

Outra palestra importante proferida no CBBD de 1982 foi a de Paulo Freire (FREIRE, 1982). Reforça ele um termo que já era empregado, mas que recebia forte pressão para ser abandonado: bibliotecas populares. A pressão surgiu com a insistência no emprego de outro termo, bibliotecas comunitárias, oriundo da defesa de um abrandamento das conotações políticas e de caráter social presentes no termo bibliotecas populares.

O texto que serviu de base para a palestra de Paulo Freire foi posteriormente publicado como um capítulo no livro: O ato de ler em três artigos que se completam (FREIRE, 1983).

Além dessas publicações, Paulo Freire é autor de um livro denominado “Ação cultural para a liberdade” (1981), no qual desenvolve, em textos abarcados pelo livro, mas publicados em outros veículos, seu entendimento de ação cultural não restrito apenas aos equipamentos informacionais.

No livro: A casa da invenção, Luis Milanesi traz uma importante proposta para as discussões sobre ação cultural, ou seja, a ideia de um tripé formado com os verbos informar, discutir e criar. (MILANESI, 1987, p.172-186). As ações desenvolvidas nos Centros Culturais (a biblioteca entendida como sendo um centro cultural) estão ou deveriam estar, para que haja um trabalho de ação cultural, envoltas e imersas nesses três verbos. Seriam eles a base da ação cultural.

Outra pesquisadora, Maria Helena Toledo Costa Barros, em seus trabalhos e pesquisas sobre o tema, assume os três verbos propostos por Luis Milanesi, embora com uma pequena variação: informar, debater e criar conhecimento. Esta autora mantém sua preocupação e interesse pela ação cultural além dos anos da década de 1980. Sua produção se estende até 2013, ano de sua morte. De 2007 a 2012, foi ela responsável por uma coluna sobre Ação Cultural no site Infohome (www.ofaj.com.br). Essa responsabilidade implicava na produção de um texto por mês e que foi atendida, com poucas exceções. Pouco antes de falecer, a autora havia terminado de elaborar um livro sobre ação cultural, mas que infelizmente, ainda não foi publicado.

Por último, entre os autores destacados, embora, reafirmando, existem outros que também se preocuparam com o tema, está José Teixeira Coelho Netto, que assina muitos de seus livros apenas como Teixeira Coelho. Considerado por alguns como o introdutor das ideias estruturadas de ação cultural no Brasil, principalmente após a publicação do livro “O que é Ação Cultural” (COELHO NETTO, 1989), pela coleção Primeiros Passos da editora Brasiliense, Teixeira Coelho apresenta a ideia da Fabricação Cultural.  

Nesse livro, Teixeira Coelho assim apresenta a Fabricação: “A fabricação é um processo com um início determinado, um fim previsto e etapas estipuladas que devem levar ao fim preestabelecido.” (p.12). Fazendo um contraponto com a ação, em outro trecho o autor apresenta de maneira simples a dicotomia entre consumo e produção – tema que ele discutirá em vários momentos dessa e de outras obras sobre ação cultural: “Na fabricação, o sujeito produz um objeto, assim como o marceneiro faz um pé torneado.” (p.12).

Anos depois, em outra publicação (Dicionário crítico de política cultural), Teixeira Coelho assim escreve sobre Fabricação Cultural:

Processo de mediação cultural com ponto de partida, etapas intermediárias, fim e finalidades previstos. Tem por meta, alternativa ou cumulativamente, a transmissão de conhecimentos e técnicas determinadas; a formação de uma opinião cultural específica; a conformação de um modo de percepção ou a produção de uma obra cultural previamente estipulada. Neste processo, os objetivos são predeterminados, cabendo ao agente ou mediador cultural orientar as atividades de seu público na direção estabelecida.

A expressão fabricação cultural inclui, também, uma referência ao sentido de fabrica em latim, que significa “engano, artifício, dolo”. (COELHO NETTO, 1997, p.175).

Nesse mesmo dicionário, o verbete Ação cultural expressa o entendimento de Teixeira Coelho sobre o assunto, anos depois da publicação do livro da coleção Primeiros Passos.

 

Conjunto de procedimentos, envolvendo recursos humanos e materiais, que visam pôr em prática os objetivos de uma determinada política cultural.

Para efetivar-se, a ação cultural recorre a agentes culturais previamente preparados e leva em conta públicos determinados, procurando fazer uma ponte entre esse público e uma obra de cultura ou arte. (COELHO NETTO, 1997, p.32).

 

Além desse conceito, o autor afirma que há “uma gradação entre dois tipos básicos de ação cultural: a ação cultural de serviços e a ação cultural de criação.” (COELHO NETTO, 1997, p.33).

 

O entendimento do autor sobre esses dois tipos de ação cultural deve ser desenvolvido visando um melhor entendimento dessa distinção:

A ação cultural de serviços é, antes, uma forma de animação cultural que lança mão das diferentes modalidades de relações públicas, de propaganda ou de publicidade, com o objetivo de vender tal livro, tal espetáculo de teatro, etc., ou de aproximar desses produtos um público (ou clientela) pouco receptivo, por motivos econômicos ou outros.

A ação cultural de criação, ou ação cultural propriamente dita, propõe-se, diversamente, a fazer a ponte entre as pessoas e a obra de cultura ou arte para que, dessa obra, possam as pessoas retirar aquilo que lhes permitirá participar do universo cultural como um todo e aproximarem-se umas das outras por meio da invenção de objetivos comuns. (COELHO NETTO, 1997, p.33).

Em países da América Latina a expressão Animação da Leitura é muito empregada. Está voltada para as atividades entendidas como prioritárias tanto pelas bibliotecas públicas como pelas bibliotecas escolares, ou seja, a leitura, ou melhor, o fomento à leitura. No Brasil essa expressão é pouco empregada, pois confunde-se com a ideia de animação cultural.

Nas bibliotecas públicas, na maioria delas, considera-se as atividades culturais como instrumento para levar os usuários para a leitura, melhor, para os livros. Essas atividades não passam de trampolim para que o objetivo último – o empréstimo de livros – seja alcançado.

Esse tipo de ação confirma o objeto da Biblioteconomia: a informação registrada. Como dissemos anteriormente, as atividades culturais, por não serem registradas, não fazem parte dos interesses da Biblioteconomia. No entanto, quando essas atividades são consideradas como instrumento para levar as pessoas aos livros – a informação registrada – elas são válidas, coerentes, aceitas e reproduzidas. Apenas não se exterioriza a intenção de uso e manipulação de tais fazeres biblioteconômicos.

Um exemplo para fortalecer a ideia exposta: em bibliotecas escolares e públicas, o uso da contação de histórias é uma atividade constante. Os bibliotecários a entendem quase como seu principal fazer, uma vez que afirmam, em nossa opinião de maneira errônea, que a mais importante atribuição da biblioteca escolar e até mesmo da biblioteca pública é levar o usuário para a leitura. A contação de histórias é desenvolvida nos espaços da biblioteca. Escolhe-se um livro, marca-se um horário, as crianças – quase sempre crianças – são dispostas em semicírculo – ou outra disposição dependendo do formato do espaço – e ouvem a história (algumas vezes, no caso de um bibliotecário que tenha uma certa facilidade com interpretação, a história é decorada e junto com ela há uma representação). Finda a contação, a atividade termina ou pode ter ela uma continuidade, sendo solicitado às crianças que reproduzam a história a partir do entendimento delas; ou são dispostas roupas e fantasias para que as crianças contem a história se utilizando dos “figurinos”; ou é solicitado que as crianças desenhem o que entenderam da história, etc.

Todo o trabalho descrito acima tem como objetivo levar as crianças às estantes de livros, fazer com que elas retirem o livro que serviu de base para a contação ou outros livros. Estamos aqui no âmbito da animação cultural.

Assim, a ação cultural trabalha com a proposta de elevar o sujeito à qualidade de norte, de objetivo, de protagonista. Todos os trabalhos desenvolvidos têm como objetivo permitir que o sujeito se construa, que o sujeito, a partir das atividades propostas e implantadas, se construa como ser, que o sujeito seja um produtor cultural e não um mero consumidor ou que receba e aceite, passivamente, o que os agentes culturais – neste caso os bibliotecários – desejam que ele se aproprie.

O veiculado pelas atividades de ação cultural deve reproduzir os interesses das classes para as quais o dispositivo informacional está trabalhando. Deve possibilitar ao seu público o protagonismo, que ele faça relações com o mundo sem ser dirigido, sem que o seu pensar seja determinado por outros.

O acima exposto é uma proposta, uma vontade, um desejo. A concretização disso, no entanto, é algo difícil, uma vez que abarca interesses e necessidades oriundas de várias pessoas.

É preciso deixar claro que não existe interesse, necessidade ou desejo puros. O envolvimento do sujeito com a sociedade, com outros sujeitos, com instâncias, organizações, sistemas e até consigo mesmo, de uma ou outra forma, interfere na construção de seus interesses, de suas necessidades e de seus desejos.

Exemplos não faltam: vestuário, entretenimento, leitura, lazer, alimento, passeios, profissões de status, tipos de música, teatro, cinema, esportes e inúmeras outras coisas. A sexualidade, o prazer obtido em uma relação sexual tem seus ritos, performances e atitudes pré-determinadas, embora se realize de maneira e em ambiente particular.

Há muitas invasões, determinações, decisões em nossas necessidades, interesses e desejos, independentes de nós mesmos. Aceitamos e assimilamos. Sem controle, sem que nossa interferência, a partir de análises e reflexões se faça de maneira plena.

Dizem-nos o que devemos gostar, o que devemos sentir, como deve ser nossa atitude, como nos comportarmos ante determinadas situações, quais as nossas posições em relação a fatos, fenômenos, etc.

A mídia, por exemplo, apresenta informações como se todas elas tivessem o mesmo valor, fossem idênticas. Recebem o mesmo tratamento e o mesmo tempo de exposição o relato de inúmeras mortes provocadas por uma guerra, por uma tragédia, pelo rompimento de uma barragem, por catástrofes, e o nascimento de um elefante em um zoológico, a tradição de comidas no ano novo, festas folclóricas, etc.  

O tempo e o espaço diminuíram, mas, com essa diminuição veio também um tempo menor para refletir, um espaço menor para refletir. Nosso tempo se reduz quando fazemos várias coisas ao mesmo tempo, quando todas as pessoas nos encontram a qualquer momento. Nosso espaço se reduz quando recebemos informações de todos os lados, cada vez mais próximas e presentes em nosso dia-a-dia.

Essa situação leva as pessoas a pensarem também de maneira rápida e a atender demandas que estão presentes em nossa volta. A sociedade demanda respostas rápidas, sem aprofundamentos. As posições em relação a fatos, fenômenos, acontecimentos, ideias, coisas, etc., valem-se de “slogans” que lidam com tudo como se fossem propagandas de produtos a serem consumidos. Os “slogans” coisificam tudo, tornam tudo mercadorias que devem ser consumidas, se desfazendo, deixando de existir. Isso, claro, não exige aprofundamentos, ou melhor, determina a não necessidade de aprofundamentos.

Nada se aprofunda. Vivemos na superfície, em uma quase irrealidade. Roçar é a tônica da vida. O consumo se confunde com a felicidade.

Nossas necessidades, interesses e desejos existem, embora não sejam exclusivamente nossos. Claro que há imposições, claro que somos levados a tomar determinadas atitudes, mas nós interferimos, nós também impomos. Somos objeto e sujeito.

Como vimos, há interferências externas que direcionam, muito ou pouco dependendo do sujeito, nossos interesses, desejos e necessidades. São eles frutos não de algo apenas físico, mas de uma imbricação entre o físico e o imaginário, entre o instintivo e o impositivo.

Aqui temos uma outra abordagem para o tema deste texto, ou seja, a dificuldade de um protagonismo sem ingerências, interferências, um protagonismo que se apresente, exclusivamente, como próprio de uma classe, ou de uma comunidade. E essa foi a abordagem que optamos por nortear o texto e as reflexões aqui desenvolvidas.

Precisamos ter um olhar mais questionador a respeito do protagonismo, não podemos entendê-lo como algo a se buscar, acreditando que ele se dará de maneira plena, total. Ao contrário, tem ele limites, entraves, obstáculos. Não podemos entendê-lo de maneira dualista, isto é, ou o protagonismo existe ou não existe. Entre um e outro há uma gama de formas diferenciadas de protagonismo.

Em suma, o protagonismo existe a partir da relação das pessoas com o externo e consigo mesma; a partir do diálogo dela com a sociedade, com os outros, com o mundo. O protagonismo se faz com o entendimento pessoal e coletivo do mundo; com o conhecimento e reconhecimento que o sujeito tem de si mesmo; com o reconhecimento e entendimento que os outros têm dele, sujeito. O protagonismo se faz com a presença do sujeito no mundo, com sua compreensão desse mundo, com suas experiências e vivências nesse mundo.

A demanda do sujeito não é específica dele, apenas dele, só dele. Tal demanda carrega gostos, valores, normas, desejos impostos pelo mercado, pelo sistema baseado na produção, no acúmulo de capital, no consumo.

Não existe ação cultural pura, isenta; não existem necessidades puras, isentas, exclusivas; não existem desejos puros, isentos; não existem interesses puros, isentos, próprios de um único sujeito; não existem demandas puras, isentas, brotando e se exteriorizando unicamente do sujeito.

Da mesma forma, há sempre uma fabricação cultural na ação cultural; há sempre uma animação cultural na ação cultural. De igual modo, há sempre uma ação cultural na fabricação cultural uma ação cultural na animação cultural ou na animação da leitura.

Qual seria então o ponto de interferência das ações culturais desencadeadas nos equipamentos informacionais?

Em primeiro lugar, é preciso insistir: se não existe necessidade, interesse, demanda e desejo puros, o protagonismo passa a ser nebuloso, difícil de ser claramente identificado. Quando é ele fruto de exteriorizações próprias do sujeito e quando é ele produto de imposições? Essa é uma resposta difícil de ser dada, uma vez que a distinção entre essas duas situações não é clara. Há uma imbricação entre elas que quase as consolidam.

A dificuldade em distinguir o protagonismo é exacerbada pela estrutura do sistema capitalista. Vivemos sob a égide da sociedade capitalista, logo, da produção e consumo, da sociedade de mercado. Apesar da tentativa de utilização de outras denominações, como Sociedade da Informação ou Sociedade do Conhecimento, estamos submetidos às imposições do capitalismo.

Sociedade da informação e Sociedade do conhecimento são expressões empregadas na busca por camuflar a dominação que se dá em especial no âmbito do ideológico, muito mais do que no âmbito coercitivo. Aceitar tais termos sem um mínimo de reflexão e questionamento significa subjugar-se a essa dominação.

A sociedade capitalista se sustenta na acumulação de capital. Não de um capital coletivo, mas de um capital individual. No capitalismo, hoje, nos voltamos menos para os valores de uso do que para os valores de troca. Em especial, troca simbólica.

Assim, nessa sociedade, o individualismo é o norte e se constitui como um dos seus pilares. O crescimento do consumo, por exemplo, é dependente desse individualismo, assim como também o é a rapidez com que as novidades surgem no mercado; o tempo de vida útil das mercadorias; a imposição de necessidades e desejos.

Por sua vez, a competitividade é entendida apenas como competição. E compete-se para ganhar, resultando disso a morte do outro, um outro sem rosto, sem alma, um outro cuja relação conosco é muito rápida. A ética capitalista está atrelada ao consumo, ao acúmulo de capital. Esses objetivos determinam e validam os meios para obtê-los.

A ideia de produtividade exacerba a mais-valia.

O individualismo se dá na individualidade, mas, vale a pena pensarmos um pouco sobre isso, também no coletivo. Temos assim um individualismo coletivo. Os países, por exemplo, formam um coletivo que é visto individualmente, que é visto como um indivíduo.

Outro exemplo de um individualismo coletivo são os estados – dentro dos países –, as cidades, os bairros. Na cidade de São Paulo, há um tempo atrás, houve uma mobilização dos moradores de um bairro, Higienópolis, contra a construção de uma estação de Metrô. Disseram, como motivo explicitado, que a tranquilidade do bairro seria perdida, pois uma estação de Metrô traz com ela a frequência de um grande número de pessoas, não só de passageiros, mas também de comércio em seu entorno. Claro que havia motivos que não foram exteriorizados para a imprensa, mas eles podiam ser identificados nas entrelinhas dos discursos, quase unânimes, dos moradores.

O individualismo se exacerba na busca sem fim pelo comprador, pelo consumidor. Hoje deixamos de ser consumidores para sermos mercadoria. Temos o direito de consumir, mas não temos, apesar das aparências e de todo um aparato legislativo, o direito de consumidores.

As mercadorias não são produzidas voltadas para o bem estar das pessoas, não atendem necessidades, ao contrário, preocupam-se com a manutenção de sua própria existência. A mercadoria cria necessidades que não existiam e as assumimos e as incorporamos em nosso cotidiano.

O sistema capitalista coloca-se como barreira, obstáculo ao protagonismo social das classes populares. Voltado para uma minoria, impõe-se, ideologicamente, como único sistema viável, impõe-se como natural. Não haveria, a partir disso, opções.

Não haveria.

Os ambientes de informação, os equipamentos informacionais, devem ser espaços, físicos e virtuais, de resistência. É essa a palavra que deve sustentar nossas ações, que nos permite fazer frente às imposições, ao pensamento único, que nos permite fazer frente às concepções que advogam o fim da história, o fim das ideologias e que impedem novos olhares ou olhares que tenham uma perspectiva diferente daquela que vê e entende o mundo apenas a partir dos interesses da elite, dos opressores, dos excludentes.

Os equipamentos de informação devem ser vistos em duas dimensões: em seu ambiente e em sua ambiência. O ambiente refere-se ao espaço físico, tangível; por sua vez, a ambiência refere-se aos espaços de interferência dos equipamentos informacionais, indo além das paredes que, aparentemente, limitam suas ações.

Apenas a resistência pode quebrar ou minimizar a imposição de formas de vida que atendem apenas a determinados grupos, apenas a concepções hegemônicas.

O protagonismo só se faz presente como fruto de resistência, como forma de consciência, mesmo que não plenamente, das formas de dominação presentes na sociedade capitalista.

Um tópico importante na discussão refere-se à apropriação da informação. O deixaremos para discussão em outro momento, no entanto, devemos apontar agora, como início de reflexões, que a apropriação da informação é uma forma de resistência, pois ameniza, minimiza as imposições, possibilitando a existência, mesmo que não totalmente plena, do protagonismo.

Para finalizar, é importante retomar ideias apresentadas inicialmente sobre a ação cultural, vinculando-a ao protagonismo social.

A ação cultural possibilita formas de produção – e não só consumo – cultural. Ao contrário da animação cultural que utiliza atividades culturais como mero instrumento para levar os participantes dessas atividades à retirada e empréstimos de livros. O público, na animação cultural, é mero expectador, assistente. O público assimila os conteúdos das exteriorizações culturais realizadas nos espaços dos equipamentos informacionais, sem nenhuma, ou poucas possibilidades de interferência. A animação cultural obstaculiza o protagonismo, impede e impossibilita o protagonismo.

A ação cultural, por seu lado, pode possibilitar ao sujeito tomar as rédeas da ação, tornando-o, mesmo que de maneira não plena, protagonista de suas relações e entendimento do mundo. Permite que ele construa seu conhecimento – sempre na relação com o mundo e com os outros – de maneira mais livre e com uma consciência maior. A ação cultural dá condições para que o sujeito faça escolhas, para que o sujeito não seja um mero consumidor cultural, para que o sujeito seja protagonista de sua história, seja protagonista de seu tempo e interfira na sociedade.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Biblioteca pública: ambiguidade, conformismo e ação guerrilheira do bibliotecário. São Paulo: APB, 1995. 10p. (Ensaios APB, 15).

________. Biblioteca Pública: avaliação de serviços. Londrina: EDUEL, 2013. Acessível para download em: http://www.uel.br/editora/portal/pages/arquivos/biblioteca%20publica_digital.pdf

________. Bibliotecas populares: características e confrontos. São Paulo, 1992. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 1992.

________. Bibliotecas públicas e bibliotecas alternativas. Londrina: Editora da UEL, 1997.

________. Espaços e equipamentos informacionais. In: BARBALHO, Célia Regina Simonetti et al. (Org.). Espaços e ambientes para leitura e informação. Londrina: ABECIN, 2012. 238p. p.11-32.

________. Leitura, informação e mediação. In: VALENTIM, Marta Ligia Pomim (Org.). Ambientes e fluxos de informação. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. 282p.

________. Leitura, mediação e apropriação da informação. SANTOS, Jussara Pereira (Org.).   A leitura como prática pedagógica na formação do profissional da informação. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2007. 168p. p.33-45.

________. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (orgs.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. 278p. p.9-32.

________. Mediação da informação e múltiplas linguagens. TENDÊNCIAS DA PESQUISA BRASILEIRA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. v.2, n.1, jan./dez. 2009.

________. Sociedade e biblioteconomia. São Paulo: Polis/APB, 1997.

COELHO NETTO, José Teixeira. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997.

________. O que é ação cultural. São Paulo: Brasiliense, 1989.

FLUSSER, Victor. A biblioteca como um instrumento de ação cultural. In: Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, 11., João Pessoa, 1982. Anais. João Pessoa: APBPb, 1982a, v.II, p.167-95.

________. O bibliotecário animador: considerações sobre sua formação. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v.11, n.2, p.230-6, set. 1982b.

________. Uma biblioteca verdadeiramente pública. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v.9, n.2, p.131-8, set. 1980.

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 5.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

________. A educação de adultos e bibliotecas populares: considerações preliminares. In: Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, 11., João Pessoa, 1982. Anais. João Pessoa: APBPb, 1982, v.II, p.93-109.

________. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo : Autores Associados, 1983.

MILANESI, Luis. A casa da invenção. 3.ed. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

NUNES, Jefferson Veras; ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Revisitando o conceito de sociedade da informação: o social e o técnico em interação? In: CAVALCANTE, Lídia Eugênia; PINTO, Virgínia Bentes; VIDOTTI, Silvana Aparecida Borsetti Gregório (orgs.). Ciência da informação e contemporaneidade: tessituras e olhares. Fortaleza: Edições UFC, 2012. 329p. p.31-58.

SPERRY, Suzana (Org). Animação cultural: educação e informação para comunidades rurais. Brasília: ABDF, 1987a.

________. Animação cultural em bibliotecas: quando? como? onde?. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação. São Paulo, v.20, n.1/4, p.13-30, jan./dez. 1987b.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior
Fonte: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Ação cultural e protagonismo social. In: GOMES, Henriette Ferreira; NOVO, Hildenise Ferreira (Orgs.). Informação e protagonismo social. Salvador: EDUFBA, 2017. 194p. p.45-58

Deprecated: trim(): Passing null to parameter #1 ($string) of type string is deprecated in /home/ofaj/public_html/espacoofajs_conteudo.php on line 546

   132 Leituras


author image
OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.