ARTIGOS E TEXTOS


INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO. E OS DADOS?

Os termos “dados, informação e conhecimento” fazem parte do cotidiano acadêmico dos que atuam na Ciência da Informação e em outras áreas do conhecimento humano. No segmento da gestão da informação e da gestão do conhecimento, esses termos são considerados essenciais e dão suporte e base a muitas reflexões, estudos e pesquisas.

Ao analisarmos a literatura especializada, defrontamo-nos com esses termos com frequência. São eles entendidos, na maioria das vezes, como uma sequência: quando aos dados é acrescentado um ou mais significados, eles se transformam em informação que, por sua vez, possibilitarão a criação de conhecimento.

Rafael Semidão (2014), em sua dissertação de mestrado, analisa os três termos em dois segmentos, ou núcleos como emprega o autor, da Ciência da Informação: organização do conhecimento e gestão da informação e do conhecimento. O autor se pergunta se há outras formas de entendimento para os três termos que não a sequência, ou seja, dados, informação e conhecimento dar-se-iam de maneira concomitante ou teríamos outras formas para a concretude desses termos?

Acompanhando a literatura – e extraindo dela o que nos interessa para esta discussão – podemos identificar dois tipos de conhecimento: o tácito e o explícito. 

O conhecimento tácito pode ser entendido como aquele conhecimento que possuímos, mas não sabemos que o possuímos. Outra corrente aponta o conhecimento tácito como aquele que sabemos que o possuímos, mas que não é necessário tê-lo de forma consciente para emprega-lo. No primeiro caso, podemos exemplificar com ações inconscientes que utilizamos para produzir alguma coisa. Já como exemplo para o segundo caso, podemos eleger o conhecimento para dirigir um carro: passamos por um aprendizado de condução de um veículo, sabemos que possuímos esse conhecimento, mas, quando estamos efetivamente dirigindo um carro, não precisamos pensar sobre cada etapa do processo de direção; ele, processo, é executado automática e inconscientemente. 

O conhecimento explícito é apresentado pela literatura especializada como sendo aquele sobre o qual temos um domínio, sobre o qual temos plena consciência de que o possuímos.

Poderíamos iniciar aqui uma discussão sobre esses dois conhecimentos, especulando, de início, se não haveria outras formas de conhecimentos além desses dois aceitos. Como resumo sobre o que é tido como consolidado nesse âmbito, teríamos a certeza de que os dois conhecimentos pertencem, de fato, ao sujeito e existem em algum espaço dentro dele; a informação tem a tarefa de alterar o conhecimento, existindo necessariamente fora do sujeito; a partir do segundo sentido do conhecimento tácito – aquele que defende que sabemos possuir tal conhecimento, mas não o utilizamos de maneira consciente – podemos entender que a maior parte dos estudiosos advoga uma consciência do sujeito do conhecimento possuído por ele; entendemos também que os pesquisadores entendem a tríade “dados, informação e conhecimento” como um processo que se dá de maneira necessariamente sequencial, até porque, como vimos, nesse pensar a informação está fora e o conhecimento está dentro do sujeito.

Partimos aqui, ao contrário desse pensamento hegemônico, da ideia de que o conhecimento não tem apenas um lugar, um espaço, um compartimento dentro do cérebro do sujeito, uma vez que ele se realiza na relação, no diálogo. Além disso, ele não deve ser dividido em dois, o tácito e o explícito. Defendemos que o conhecimento se concretiza na relação do sujeito com o mundo, com os outros. Defendemos também que o conhecimento é único e sua análise deve levar em conta várias “nuances” entre a consciência ou não consciência dele por parte do sujeito. Mais uma defesa: talvez a informação não exista apenas fora do sujeito, desaparecendo quando apropriada; é possível que ela permaneça latente no sujeito, não influenciando olhares e entendimentos diferenciados apenas no momento em que é apropriada.

Será que o esquecimento, tão discutido e estudado no âmbito da memória, não existiria também no caso do conhecimento (e da informação, se aceitarmos que ela permaneça latente no sujeito)? Não há um “esquecimento” próprio do conhecimento; não há um “esquecimento” próprio e específico da informação? Não precisam, tanto o conhecimento como a informação, de um esquecimento para se constituírem, para se realizarem?

Há muitas questões que estamos formulando, mas que não temos espaço para desenvolvê-las neste texto.

Ainda seguindo a literatura especializada: o conhecimento explícito, quando exteriorizado, transforma-se em informação. O sujeito possui um conhecimento sobre o qual tem consciência – o conhecimento explícito – e, de alguma forma, manifesta uma pequena ou pequenas quantidades, seja registrando em suportes físicos (livros, periódicos, filmes, cds, dvds, realias, etc.) ou disseminando a partir de formas de sustentação efêmeras (a oralidade, em especial). 

A informação assim criada, ou melhor, o suporte da informação será armazenado, organizado e disseminado nos equipamentos informacionais. Os suportes poderão ter várias formas, mas, essencialmente, serão divididos em suportes físicos, tangíveis e suportes eletrônicos, virtuais. 

O equipamento informacional, a partir dos interesses, necessidades, desejos e demandas informacionais da comunidade atendida por ele, selecionará suportes que contenham informações adequadas para satisfazer aquelas demandas. Não nos esqueçamos que essas são as principais e mais aceitas ideias presentes nas pesquisas e estudos da área.

As informações selecionadas serão organizadas seguindo critérios e padrões normalizados, de forma a permitir o compartilhamento delas entre os inúmeros equipamentos informacionais existentes.

Disponíveis nos acervos, as informações contidas nos suportes serão disseminadas através de serviços, atividades ou produtos informacionais.

Cabe, claro, uma série de questionamentos nessas afirmações. O primeiro deles está voltado para a informação gerada a partir do conhecimento explícito exteriorizado. Não carregaria tal informação um significado aposto pelo sujeito produtor dessa informação? Dessa forma, a informação traria já no seu nascedouro um subjetivismo que lhe é próprio e uma carga de conceitos, ideias, interesses, intenções. A informação não é vazia, a informação não possui um único significado.

A nossa defesa aponta para uma informação que vai sendo construída a cada passo de seu ciclo de vida (lembrando que, talvez, ela permaneça viva dentro do sujeito). A cada momento ela recebe interferências de todos os que com ela entram em contato. E isso não se refere apenas a pessoas, mas também a objetos. Vejamos: ela nasce do sujeito produtor; recebe influência do suporte escolhido pelo produtor, uma vez que cada suporte tem uma linguagem própria e específica; há mais influência na forma como ela será distribuída, disseminada; passará pelo crivo da política de seleção do equipamento informacional; fará parte de um acervo, físico ou virtual; terá a interferência dos agentes que atuam no equipamento; o dia, tempo, espaço, mobiliário, humor, etc. de todos os que estiverem participando da mediação explícita também, de alguma forma, interferirão; por fim, a influência do usuário.

A informação, assim, por se construir durante o processo – e não cessar de se construir –, nunca será, de fato, uma informação. Em textos passados, empregamos a palavra protoinformação para designar a matéria prima dos equipamentos informacionais. Protoinformação significa uma “quase informação”, uma “possível informação”, uma “talvez informação”, uma “quem sabe informação”. A informação vai recebendo significados e interferências ao longo de seu ciclo de vida.

Retornando e chegando ao âmago da questão: se o conhecimento explícito, quando exteriorizado se transforma em informação (no entendimento da maioria dos autores da área, mas diferentemente de nosso entendimento, uma vez que empregamos o conceito, por nós idealizado, de protoinformação) e se a informação, quando apropriada pelo sujeito se transforma em conhecimento (também no entendimento da maioria dos autores da área, mas não sob o nosso entendimento), nos perguntamos onde estão os “dados”?

Conversando com pessoas que atuam na área, tanto na academia como no mercado, muitos entendem a informação como algo produzido pelo produtor, mas passível de ser manipulada, uma vez que pode ser “coisa”. A organização do conhecimento lida com esse entendimento e, mais, precisa dele para poder justificar as ações técnicas aplicadas na informação para que possa ela ser recuperada. Outros advogam que o significado é atribuído à informação – ou ao dado que se transformará em informação – pelo usuário. Outros ainda afirmam que existe o “dado” a cada momento que antecede a atribuição de significado à informação, ou seja, a informação recebe um significado em um dado momento e volta a ser dado perante o próximo sujeito ou elemento que fará contato com ela no ciclo de vida do equipamento informacional.

As concepções que consideram a existência dos “dados”, mesmo essas afirmam que o conhecimento explícito, quando exteriorizado, transforma-se em informação. Dessa maneira, a informação tem origem no conhecimento explícito e não nos dados. A ideia da tríade “dados, informação e conhecimento”, independentemente da existência do elemento “dados”, tem sua estrutura sequencial quebrada. O início da tríade dá-se no conhecimento e não nos dados.

As ideias aqui expostas são de caráter pessoal e, claro, carecem de discussões e aprofundamentos. São oriundas de estranhezas, de incômodos, de inquietações acadêmicas. Todo pesquisador deve ser curioso, deve ser questionador, deve provocar aquilo que é entendido como sedimentado, consolidado, aceito, assumido, assimilado. 

Aceitem as questões apresentadas como interrogações e não como verdades ou certezas. Estas destroem qualquer possibilidade de avanço, ao contrário, sustentam a consolidação de alguns poucos olhares, de algumas poucas concepções, de algumas poucas posições, de algumas poucas explicações de mundo.

Entendam os questionamentos abordados como uma proposta de conversa, de discussão.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Espaços e equipamentos informacionais. In: BARBALHO, Célia Regina Simonetti et al. (Org.). Espaços e ambientes para leitura e informação. Londrina: ABECIN, 2012. 238p. p.11-32.

________. Leitura, informação e mediação. In: VALENTIM, Marta Ligia Pomim (Org.). Ambientes e fluxos de informação. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. 282p.

________. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (orgs.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. 278p. p.9-32. 

________. Mediação da informação e múltiplas linguagens. TENDÊNCIAS DA PESQUISA BRASILEIRA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. v.2, n.1, jan./dez. 2009.

________. Sociedade e biblioteconomia. São Paulo: Polis/APB, 1997.

SEMIDÃO, Rafael Aparecido Moron. Dados, informação e conhecimento enquanto elementos de compreensão do universo conceitual da Ciência da Informação: contribuições teóricas. Marília: UNESP, 2014. 198p. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Universidade Estadual Paulista – UNESP.

VALENTIM, M. L. P. Inteligência competitiva em organizações: dado, informação e conhecimento. DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação. Rio de Janeiro, v.3, n.4, ago. 2002.

(Publicado originalmente em:

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Informação e Conhecimento. E os dados? In: PRADO, Jorge do (Org.). Ideias emergentes em Biblioteconomia. São Paulo: FEBAB, 2016. 116p. p.15-19. Disponível para download em: www.ideiasemergentes.wordpress.com ISBN: 978-85-85024-07-9)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.