ARTIGOS E TEXTOS


FORMAÇÃO, FORMATAÇÃO: PROFISSIONAIS DA INFORMAÇÃO PRODUZIDOS EM SÉRIE

1 MERCADO

Vivemos hoje uma crise das profissões. Tal crise não se relaciona exclusivamente com a redução do mercado de trabalho, uma vez que essa situação já se consolidou de há muito. Ela é mais profunda e se aproxima das demandas básicas de um mundo globalizado. 

A época da valorização das especializações parece já ter findado. O que o mercado procura atualmente é um profissional que tenha conhecimentos e competências específicos, mas que os integre em concepções mais gerais, com aplicações que ultrapassem o restrito espaço determinado pelo campo que escolheu como de interesse e preocupação. A globalização, neste âmbito em particular, contribui sobremaneira evidenciando a unicidade, a indissolubilidade do conhecimento humano. As matérias, as disciplinas, as áreas de pesquisa, etc., são partes do conhecimento único, segmentadas com o objetivo de melhor possibilitar o estudo daquele aspecto em particular, mas sem que o todo seja esquecido. Qualquer pesquisa, qualquer estudo, qualquer reflexão, qualquer análise deve considerar o conhecimento humano como origem e fim de suas ações.

O mercado está se reorganizando, se acomodando ante as exigências das mudanças sociais. A globalização cria novos e diferenciados perfis profissionais. A ocupação dos espaços assim construídos pressupõe alterações de posturas, de atitudes das profissões já existentes. Não há como concorrer às vagas geradas por essas demandas se aferrando, se amarrando, se atendo a conceitos corporativistas retrógrados e ultrapassados. 

Não se propõe aqui, nem nossas reflexões apontam para o fim das profissões. Ao contrário, não concordamos com idéias que sinalizem para um individualismo exacerbado, pois tais idéias reforçam e apóiam práticas opressoras. A organização das pessoas sob interesses comuns pode e deve ser incentivada. No entanto, é preciso alertar para a possibilidade de práticas como essas alimentarem idéias segregacionistas, preconceituosas. Infelizmente, exemplos como esses grassam em todos os períodos históricos. Sem querer nos aprofundar no tema, vale lembrar a forma agressiva com que muitos bibliotecários defendem a reserva de seu espaço. O mercado para o bibliotecário só pode ser ocupado por aqueles que são devidamente qualificados. O problema é que não se exige competência, mas diploma. E o alcançar este último tem implicações que atravessam questões sociais, culturais, raciais, políticas, econômicas, etc. Pede-se pouco do profissional e muito da sociedade (Almeida Júnior, 1997).

A reordenação do mercado de trabalho é claramente observada quando – no Brasil em especial, pois é o espaço que nos interessa no momento – os jornais apontam para uma redução do mercado formal; para uma redução da média salarial e, mais recentemente, para um movimento, principalmente dentro do Congresso Nacional, que questiona a validade da manutenção de muitas das leis trabalhistas presentes na CLT – Consolidação das Leis do Trabalho. Alguns deputados e senadores defendem alterações nos mecanismos legais de preservação das conquistas de reivindicações seculares dos trabalhadores. Mudanças devem ocorrer, sem dúvida, e são algo irreversível perante as próprias transformações sociais. No entanto, não podem ser concretizadas a partir dos interesses de um único grupo, nem serem apresentadas como carregando um conteúdo imparcial, cuja abrangência beneficia a toda sociedade, dado que tal afirmação é enganosa. 

Outra discussão recorrente, que se vincula ao que se discutia em parágrafo anterior, é o fim da reserva de mercado para as profissões – com exceção de algumas, escolhidas quer pelas especificidades de sua atuação, quer pela força de seu lobby. Desde 1988, quando dos debates para a criação da nova Constituição, essa proposta está presente. Independente de nossa posição quanto à validade social e ética da reserva de mercado, é inegável que alterações na legislação que a legitima implica mudanças no cenário da política profissional no Brasil. Não estando mais atrelado o exercício profissional à exigência de obtenção de um diploma da área em que pretende atuar, a organização classista necessariamente também deve se modificar. Os Conselhos, tanto Federal como Regionais, simplesmente deixam de funcionar, pois sua função primordial, a fiscalização, não é mais necessária. As Associações terão uma importância muito maior do que possuem hoje, abarcando uma série de funções e atribuições atualmente não existentes ou que pouco representam dentro de seus objetivos.

Assim, o mercado está mudando – acompanhando transformações que superam a sua esfera de influência – e exigindo alterações nas posturas, atitudes, posições, concepções das profissões existentes. Uma reorganização do quadro atual das profissões é inevitável. Aliás, se soubermos ler nas entrelinhas da realidade, veremos que essa reorganização já está em curso. Muitos indícios nos permitem sustentar essa afirmação.

Fazendo frente a esse contexto, o perfil dos profissionais formados pelas universidades tende a se modificar.

 

2 PERFIL DO PROFISSIONAL

A alteração do perfil do profissional não pode estar atrelada exclusivamente à tentativa de satisfazer uma exigência de mercado. Essa postura, embora hegemônica na literatura brasileira sobre o assunto, deve ser melhor debatida e discutida. O ideal seria fazê-lo agora, no entanto, essa é uma discussão que precisa de um espaço mais amplo, dada a quantidade de variáveis que requerem análise. No entanto, convém alertar para alguns tópicos, importantes no desenvolvimento deste texto. 

Estruturar um perfil profissional a partir apenas das demandas de mercado significa formar, preparar e voltar um segmento tão somente para atender interesses que não são necessariamente frutos das necessidades da sociedade. 

Além disso, a formação estará sempre aquém das exigências desse mercado. 

A formação passa a ser mero objeto do mercado e não sujeito dele, assim como o profissional não interfere, nem influencia, visto que está preparado apenas para atender ao já estabelecido e solicitado dele.

A formação de um profissional, portanto, não pode ser um “treinamento”, moldando-o a uma subserviência inaceitável. 

O mercado, dentro dessa perspectiva, se constitui em um ponto a ser observado e considerado quando da delimitação do perfil do profissional que embasará toda a estrutura e todo o processo de formação dele. A concepção mais imediata dessa idéia, como se verá posteriormente, é a não organização do currículo priorizado e articulado a partir das disciplinas consideradas técnicas. O currículo não pode ser submetido a conceitos impostos pelas áreas técnicas de uma profissão. 

Em face do exposto até agora, parece existir uma contradição: por um lado, o mercado pede um profissional especializado, mas com uma visão globalizada; por outro lado, a área da Ciência da Informação procura criar novas subdivisões, com especificidades difíceis de serem delimitadas. Na verdade, tais contradições são apenas aparentes, embora existam. Explicando melhor: a área da Ciência da Informação caminha na contramão da história, subdividindo-se no momento em que a tendência é a unificação, a aglutinação. A subdivisão, a segmentação, talvez tenha como objetivo o “treinamento”, a preparação de profissionais que atendam exclusivamente demandas pontuais e sazonais do mercado. Entrementes, essa necessidade do mercado é momentânea, acarretando, tão logo deixe de existir, a inutilidade dos profissionais preparados apenas para atendê-la. Biblioteconomia, Arquivologia, Museologia e Gestão da Informação (além de outros nomes que sabemos já estarem sendo empregados), partem do mesmo objeto, com especificidades que, mesmo diferenciadas entre si, não geram a criação de novas profissões. 

Em pelo menos dois textos, Johanna Smit aborda a proximidade desses segmentos da Ciência da Informação (Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia), chamando-as de “Três Marias” (1994). Martin Grossman oferecia em meados dos anos 90, uma disciplina no curso de pós-graduação da ECA/USP cujo título, “Museu e Biblioteca: produtos do mesmo etnocentrismo”, já evidencia sua posição sobre a relação entre esses dois espaços e, em conseqüência, a relação entre os profissionais que atuam neles.

A segmentação não leva, de fato, à criação de novas profissões, mas ao fim de todas elas. 

A estrutura, o tronco comum dessas subáreas da Ciência da Informação, deveriam estar refletidas na formação dos profissionais ligados a elas. A mesma estrutura comum constituiria a base de um único curso, com divisões de interesses específicos possibilitadas no decorrer do período de ensino formal. Independente da opção escolhida, isso não seria impeditivo para exercer funções em qualquer outra das áreas. 

O perfil do profissional a ser formado, não seria mais, como é hoje, diferenciado – bibliotecário, arquivista, museólogo, gestor da informação –, mas sim, o de um profissional com uma visão de espaços de atuação ampla. Seria, esse perfil, o de um verdadeiro profissional da informação.

 

3 FORMAÇÃO

O perfil de um profissional é o norteador da estrutura formal para sua formação. É com base nesse perfil que se ergue, constrói e se desenvolve o processo pedagógico com vistas a preparar adequadamente um profissional para assumir as funções exigidas pela profissão.

No entanto, esse perfil representa o profissional ideal, se contrapondo à realidade formada pela estrutura educacional brasileira – no caso específico, a de terceiro grau. Dessa estrutura fazem parte não apenas a parte física, mas toda uma gama de itens que, de uma ou outra forma, interferem na qualidade e na própria sobrevivência do ensino superior brasileiro. 

Salas de aula; setores administrativos; laboratórios, tanto gerais como específicos; bibliotecas; espaços para reunião; salas de professores (para permanência e atendimentos individuais), etc., formam o espaço básico e mínimo para o desenvolvimento do processo pedagógico. Além disso, é preciso incluir nesse rol locais de alimentação (restaurante universitário, lanchonetes); estrutura de lazer e de conveniência (livraria; papelaria; locais para reprodução de materiais; salas de espera; ambulatório médico para atendimento de urgência, etc.); estrutura de transporte, tanto de circulação dentro do câmpus como para acesso a ele; etc. A idéia é propiciar ou incentivar, através dessa estrutura, a permanência de docentes e discentes na universidade, viabilizando, desse modo, a existência de uma vida acadêmica de fato. 

Quase todos os itens expostos acima estão presentes nas universidades públicas brasileiras, aparentando a satisfação das condições mínimas estruturais para um ensino de qualidade. A verdade, no entanto, é contrária a essa aparência. Laboratórios obsoletos; bibliotecas com acervo precário e ultrapassado; professores que se apertam em minúsculas salas; restaurantes instalados em locais inadequados; salas de aula sem planejamento de iluminação e ventilação; equipamentos de apoio sucateados; demora na aquisição de novos maquinários (exemplos: DVD, gravadores de CD, softwares recentes, projetores multimídia, datashows, etc.); excessiva demora no atendimento técnico quando necessário, e outros tantos problemas revelam a inconsistência em defender, atualmente, posições otimistas quanto ao ensino superior brasileiro.

Não só os aspectos físicos, tangíveis devem ser lembrados aqui. Outros tópicos, tão ou mais importantes devem ser enfocados, sob pena de, não o fazendo, nos distanciarmos da realidade e nos apartarmos dela em nossas análises e reflexões.

A falta de uma formação específica dos professores universitários quanto a aspectos pedagógicos os levam a acreditar que a palavra é a melhor e única estratégia possível dentro de sala de aula. Quando outros recursos são empregados, quase sempre o são de maneira empírica, sem uma base teórica ou de experiências anteriores, mesmo que de outros professores. 

No âmbito específico da biblioteconomia, em que se afirma a preocupação com a informação, seja ela veiculada, disseminada, comunicada a partir seja de que tipo de suporte for, a ênfase ainda recai sobre o texto impresso. A imagem fixa, a imagem em movimento e o som são empregados na sala de aula, em boa parte dos casos, como ilustração e não como um recurso pedagógico que leve à informação.

É evidente que não há consenso entre os professores que fazem parte de um determinado departamento. Na verdade, essa falta de consenso é salutar. O espaço da formação permite – ou deveria permitir – o confronto de várias formas de pensar, de várias correntes sobre os mais variados temas, em especial aqueles vinculados à formação de um dado profissional. A escola, a universidade, é a arena onde se embatem concepções não só provenientes dos professores, como também, provavelmente na mesma medida, dos alunos, funcionários e da comunidade, incluindo aqui os setores administrativos que determinam a política educacional; o contexto onde está inserida a universidade; os interesses políticos partidários, etc. Apesar desse caráter salutar presente no embate de correntes e pensamentos, com freqüência interesses pessoais interferem e desviam discussões e debates de aspectos acadêmicos, de pesquisa ou de extensão. Desconheço departamentos de cursos da área em que não haja, em maior ou menor intensidade, problemas de relacionamento, grupos que disputam posições de poder e que arrastam essas disputas para o âmbito pessoal. 

O perfil do profissional a ser formado, mesmo quando claramente explicitado, não é, assim, seguido por todos os professores, já que as concepções do profissional ideal são díspares e discrepantes entre si. 

Há uma dicotomia entre o ideal e a realidade que, embora esperada, supera em muito as previsões mais pessimistas.

 

3.1 Formação do Profissional da Informação

Atendendo às demandas da sociedade (incluindo, não vamos nos esquecer, aquelas provenientes do mercado, mas não somente elas), é preciso um repensar da formação do profissional da informação. Parte-se dessas demandas, mas, pari passu a elas, caminham outras necessidades, como as que implicam e embasam a formação de um profissional que de fato interfira nos destinos da sociedade. Queremos dizer com isso que o perfil do profissional a ser formado deve se caracterizar, preponderantemente, de qualificações que o levem a espaços onde a liderança possa ser exercida ou se constituir como uma necessidade, como uma condição imprescindível. Essa proposta se contrapõe frontalmente ao que aparentemente se tornou hegemônico no estereótipo do profissional mais antigo entre os da área da Ciência da Informação (o bibliotecário), ou seja, ela é uma postura de submissão, de subserviência, uma profissão mais tecnicista e menos intelectual. O fazer bibliotecário, dentro desse estereótipo – que, mesmo a contragosto, somos obrigados a reconhecer como ainda existente (Almeida Júnior, 1995) –, vincula-se muito mais a uma concepção de reprodução do que de produção. 

O problema maior, talvez, é que esse estereótipo terminou, em alguns momentos com mais intensidade, por afetar a concepção da área por parte dos próprios profissionais que a constituem. Prova disso eram os verbos empregados para designar os deveres e obrigações do bibliotecário no antigo (que vigorou até dezembro de 2001) Código de Ética Profissional do Bibliotecário (1). 

Almeida Júnior (2001), em uma avaliação específica sobre esse tópico do Código, enfatiza: 

“Todos os itens (...) apresentam ou passam uma idéia de submissão. Os verbos empregados (acompanhando a ordem dos itens: dignificar, observar, respeitar, respeitar e colaborar), quando comparados com os utilizados nos outros códigos de ética – presentes no documento encaminhado pelo CFB e que servem de contraponto ao do Bibliotecário para nossa análise – demonstram isso claramente. Como exemplo: o código de ética do administrador emprega, entre outros, os verbos propugnar, contribuir, exercer, emitir, assegurar, pleitear, considerar, comunicar, informar, esclarecer, estimular, manifestar. O Código de Ética dos advogados usa verbos como: atuar, contribuir, estimular, aconselhar. Por sua vez, o Código de Ética dos Contabilistas utiliza: exercer, comunicar, manifestar.”

Em outro trecho, o autor reforça essa idéia no preâmbulo para apresentação de propostas para o, na época, futuro novo Código: 

“...de alterar os verbos, optando por aqueles que evidenciam o Bibliotecário como sujeito, não só no interior de sua própria área, como também na Sociedade como um todo...” (Almeida Júnior, 2001).

Situações em que profissionais escondem a profissão que exercem por vergonha são veiculadas freqüentemente na área da biblioteconomia. O motivo para essa atitude vincula-se não só à existência da dificuldade em lidar com o estereótipo existente da profissão e do profissional, como também por uma concepção de que o seu “fazer” não resulta em transformações, em mudanças, mas sim, em um apoio não tão necessário. 

A culpa da formação na existência de concepções desse tipo nos egressos das universidades, embora não única, é inquestionável. 

Quando o enfoque do curso se concentra e prioriza atividades práticas e ações de caráter interno, mesmo não o desejando, acaba por alimentar e reproduzir concepções sobre a profissão e o profissional identificadas com as acima apresentadas. 

O Serviço de Referência e Informação, fim último das atividades desenvolvidas pelas bibliotecas, espaço em que se concretiza a mediação da informação, a relação entre a necessidade e a informação, é um trabalho com pouco status entre os profissionais da área. Em qualquer tipo de unidade de informação, principalmente nas ligadas a empresas e que lidam com informações especializadas, o Serviço de Referência e Informação é priorizado. Neste último caso, o objetivo é fornecer a informação, o que o distingue das ações de encaminhar, sugerir, indicar suportes e fontes com possíveis informações, prática esta existente nos outros tipos de unidades de informação. Mesmo assim, não obstante a tendência em direcionar a formação de futuros profissionais para atividades vinculadas à informação especializada, o Serviço de Referência e Informação, a mediação da informação ainda mantêm o mesmo baixo status. Como veremos, essa foi e continua sendo uma tendência da área para se afirmar, ou pretensamente se afirmar como profissão necessária em um mercado capitalista altamente competitivo. 

 

3.2 Departamentalização e isolamento

Acompanhando a passividade e, quase diríamos, alienação dos vários segmentos da sociedade (o Movimento dos Sem-Terra é uma das raras exceções), os estudantes direcionaram suas preocupações para assuntos mais individuais, ao contrário dos movimentos das décadas de 60 e 70, em que o coletivo era priorizado. Hoje, o interesse da maioria dos estudantes recai sobre aspectos relacionados ao mercado de trabalho, à preparação para enfrentá-lo. Aceita-se passivamente a departamentalização da sociedade – idéia que todo regime totalitário gostaria de ver implantado e que acabou sendo viabilizado sob a tutela de conceitos neoliberais, sob conceitos que disseminam que há apenas uma forma, uma maneira única de pensar, entender e explicar a sociedade. Departamentalizar significa determinar, de forma estanque, quais os segmentos a que uma determinada área está afeita. Por exemplo: a Igreja deve ter, como único interesse, aspectos espirituais das pessoas. A Igreja progressista sempre se posicionou contrária a essa idéia, afirmando que a política, a economia, a cultura, enfim, todos os aspectos nos quais a pessoa humana está imersa são de interesse não só da Igreja, como também de todas as outras instâncias sociais. 

No caso específico da universidade, alimenta-se a idéia de que os estudantes devem apenas se preocupar com a sua formação, como se esta ocorresse tão somente nas carteiras e completamente isolada. 

A departamentalização na universidade é claramente observada na própria estrutura com a qual é construída. A universidade, administrativamente, se organiza a partir de departamentos e, nestes, estão alocados os diversos cursos por ela oferecidos. Essa forma de hierarquização tende a reforçar a idéia de segmentação do conhecimento humano. No caso específico do objeto de análise e estudo da biblioteconomia, ou seja, a informação, a indissolubilidade do conhecimento humano precisa ser constantemente enfatizada. Fala-se, não só na literatura, mas também no discurso dos profissionais bibliotecários, em uma interdisciplinaridade, motivada pela ausência de um corpo teórico específico como também pelo uso da informação por todas as outras áreas. Aliás, Morin (2000, p.109), em um sub-item intitulado “Objetivos e projetos inter-poli-transdisciplinares”, contribui com esta discussão ao afirmar que: “Certos conceitos científicos mantêm a vitalidade porque se recusam ao fechamento disciplinar.”

A partir disso, pode-se tentar explicar os motivos que levam os estudantes a reivindicarem, com freqüência, ênfase na “prática”. O que significa exatamente essa prática, poucos se atrevem e conseguem explicitar. Invariavelmente, quer ela representar algumas fórmulas, receitas, esquemas que satisfaçam a ansiedade trazida pela perspectiva de enfrentar o mercado. Ele, mercado, exigiria capacitações, competências de que o aluno ainda não se vê possuidor. É evidente que tal situação causa uma ansiedade que é apenas amenizada quando o estudante acredita contar com uma resposta para atender ao que lhe será cobrado pelo mercado. Infelizmente (para ele), tão logo começa a exercer sua profissão, o recém-egresso dos cursos percebe que as fórmulas, receitas, esquemas, instrumentos, ferramentas, etc., não satisfazem nem resolvem os problemas que o cotidiano lhe apresenta. Nesse momento, ele tende a depositar toda a culpa pela sua incapacidade de responder às exigências do mercado, na formação que recebeu. 

A própria expressão “formação que recebeu” deve ser contestada, uma vez que ninguém “recebe” uma formação, mas o apoio para construí-la, sendo, com toda a certeza, o maior responsável pela sua completeza ou deficiência após deixar os bancos da faculdade.

A idéia de treinamento como concepção básica de formação pode aqui ser resgatada. Quando isolado, pensando de maneira individualizada, preocupado apenas com a sua relação com o mercado, e desejoso de algo que lhe traga a ilusão de dominar concretamente a área, o aluno aceita e exige disciplinas com forte emprego não de técnicas, mas de uso de ferramentas, de instrumentos. Quando manipulando códigos e tabelas, o aluno aparentemente tem o domínio do exercício, o domínio do “fazer” da profissão. Ele direciona para essas disciplinas, que lhe dão segurança de aprendizado, as principais atividades, as principais atribuições do profissional. Essas disciplinas, por suas características, parecem lidar com pressupostos indiscutíveis, com verdades absolutas, devolvendo ao aluno aquela sensação de aprendizado com o qual ele conviveu durante todo o período de ensino do primeiro e segundo graus. Nessa época, os professores passavam conteúdos de maneira contundente, não permitindo, na maioria dos casos, questionamentos sobre eles. O conhecimento humano não é apresentado como dividido em correntes, exigindo de todos um posicionamento individual a partir de reflexões, ideologias, conceitos prévios, acervo de experiências, etc. Luís Milanesi (1978) há 25 anos, já afirmava isso em um texto no qual expunha os fundamentos básicos de uma disciplina, Orientação Bibliográfica, por ele estruturada, implantada e oferecida para todos os alunos das várias habilitações da Comunicação Social, da Biblioteconomia, do Turismo e de algumas áreas das Artes. 

O ensino das ferramentas e instrumentos que apóiam as atividades técnicas da biblioteconomia oferece essa mesma sensação ao aluno, embora, a exemplo do ensino de primeiro e segundo graus, apenas alimenta a ilusão da existência de verdades fechadas, de verdades absolutas.

O isolamento das disciplinas tem, obviamente, inúmeras implicações na formação do profissional. Entre elas, há que se evidenciar o descompasso na quantidade de trabalhos acadêmicos solicitados, quase sempre no mesmo período. Nos finais de semestre, os alunos enfrentam uma repetitiva maratona: vários trabalhos a serem entregues em um espaço curto de tempo, além de provas que abrangem toda a “matéria dada”. Esses trabalhos, por representarem o último momento de relação do aluno com a disciplina, são avaliados com mais rigor, exigindo-se, assim, uma dedicação maior do aluno com eles em relação aos trabalhos solicitados no meio do semestre. Como todas as disciplinas exigem trabalho semelhante, os alunos se vêem às voltas com seis, oito, dez tarefas extensas com um exíguo tempo para elaborá-las. Com toda certeza, propositalmente ou não, os alunos acabam realizando esses trabalhos de maneira rápida e sem que o objetivo didático/pedagógico tenha sido atingido. Trabalhos finais acabam sendo solicitados apenas como tentativa de objetivar uma avaliação do aprendizado do aluno. 

A avaliação, por seu lado – uma vez que o professor universitário não tem uma formação específica em pedagogia, desconhecendo quase que por completo estratégias de aula, métodos de organização de aula, planejamento de disciplinas, técnicas de reordenamento ou de redirecionamento de disciplina a partir de resultados de avaliação –, é empregada como forma de quantificar a aprendizagem (concretizada mediante a atribuição de notas), e não visando uma contribuição para alterar estratégias pedagógicas. 

 

3.3 A pretensa neutralidade das técnicas

As técnicas não são neutras, muito menos os instrumentais que elas utilizam para serem aplicadas. 

O destaque do parágrafo anterior visou defender outra idéia que determina boa parte da estrutura do ensino formal dos cursos da área da Ciência da Informação. Se as técnicas empregadas pelos profissionais da informação forem consideradas neutras, as disciplinas que as “ensinam” podem ser oferecidas desconsiderando-se todas as outras e esquecendo-se que fazem parte de uma grade curricular. A busca pela interação e integração entre as disciplinas ofertadas visam alcançar a formação de um profissional que atenda ao perfil previamente estabelecido. Mesmo que muitas vezes esse perfil possa estar difuso, com pouca nitidez, ele é o norte, o alvo, o objetivo de todo o curso. Consideradas neutras, as técnicas independem de um contexto porque a nada precisam responder. 

Dizia-se, há anos, que a Biblioteconomia formava especialistas em generalidades. Tal afirmação, pronunciada entre risos como se fosse uma piada, escondia uma idéia corrente na época: a de que a área não possuía uma definição, não possuía um objeto específico. Esse era um dos motivos pelos quais muitos dos próprios profissionais consideravam a biblioteconomia como uma profissão de segunda linha, de segunda categoria. No afã de buscar um espaço para a profissão, uma justificativa para sua existência, tendeu a área a afirmar e consolidar seu caráter técnico como o de maior supremacia entre outros tantos que a área possui. É inegável a importância da técnica, todavia, o que se critica é a exacerbação como ela foi e ainda é entendida e veiculada, principalmente quando sabemos que o foco do objeto da área passou a se concentrar sobre as atividades de processamento da informação em detrimento das outras atividades, em especial, neste caso específico, dos trabalhos voltados para a disseminação, transferência, recepção e apropriação da informação.

O conceito de neutralidade das técnicas criou o que podemos chamar de “linha de montagem”, “produção em série” na formação do profissional da informação, uma vez que as disciplinas são organizadas distintamente, isoladas, sem relações e vínculos umas com as outras. Quem inicia o processo, desconhece como se dá as ações finais e vice-versa. Em sendo neutras as técnicas, a relação entre as disciplinas pouco importa, pois não há pontos referenciais para encontros. Em alguns momentos fala-se em transversalidade (2) de algum tema que a princípio não se enquadra na grade curricular. As tecnologias da informação é um desses temas, presente em boa parte das disciplinas, porquanto abrange desde processos até instrumentos, ferramentas, maquinários. 

 

4 Certezas – Utopias – Sonhos 

Toda idéia, a princípio, é utópica. A utopia nem sempre deve ser desprezada, desconsiderada ou entendida apenas como algo inatingível, cobiçado, desejável mas inalcançável. Há um vínculo da utopia com a realidade que precisa ser observado. Diz Rouanet (2002), 

“Tanto a ideologia quanto a utopia partem dos fatos e os transfiguram. Mas a transfiguração ideológica tem como objetivo ocultar a realidade ao passo que a transfiguração utópica pretende, ao contrário, mostrar os contornos de uma nova e mais autêntica realidade. Nesse sentido, a utopia tem um compromisso com a realidade que a ideologia não tem”.

Há que se ter uma relação com a realidade, sem perder o sonho, sem perder o utópico. O consenso não existe nem deve ser buscado sob pena de nos perdermos no caminho à sua procura. Explicando melhor: o consenso é o fim do conflito. O que normalmente ocorre é uma trégua, uma acomodação momentânea. É preciso evidenciar o conflito, deixá-lo transparente e incentivá-lo. A universidade deve enfatizar os conflitos, uma vez que o profissional atua imerso neles. A interferência de nossas ações também deve ser enfatizada. As discussões e debates entre professores e alunos, tanto no âmbito das universidades como fora delas, devem ser promovidas e alimentadas.

Formação não é treinamento. O espaço do treinamento é bem específico. Há que se analisar e entender o ensino dentro de uma perspectiva mais ampla, de uma perspectiva social. O ensino não pode se resumir ao restrito espaço da sala de aula, pelo contrário, ele deve se embrenhar em todas as facetas da vida dos alunos. E é com esse norte que deve se dar o trabalho dos docentes. 

Professores não ensinam, mas contribuem para a construção do conhecimento do aluno, são co-participes dessa construção. O protagonista é o aluno. 

Poucas são as certezas que temos em relação ao assunto. A principal delas é que não estamos procurando soluções definitivas, pois sabemos que elas não existem e se existissem, seriam receitas, fórmulas mágicas nas quais, esperamos que o texto tenha evidenciado, não acreditamos. O importante agora é destacar os problemas, trazê-los à tona, à baila, divulgá-los e fomentar a discussão deles.

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Biblioteca pública: ambigüidade, conformismo e ação guerrilheira do bibliotecário. São Paulo: APB, 1995. 12p. (Ensaios APB, 15).

________. Corporativismo bibliotecário: remédio contra a competência. In: ________. Sociedade e biblioteconomia. São Paulo: Polis/APB, 1997. p.94-97.

________. Propostas para subsidiar as discussões para alteração do Código de Ética Profissional do Bibliotecário. Londrina, 2001. (Texto para discussão).

MILANESI, Luís Augusto. Orientação bibliográfica: uma experiência. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação. São Paulo, v.11, n.1/2, p.47-68, jan./jun. 1978.

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

ROUANET, Sérgio Paulo. Fato, ideologia, utopia. Folha de São Paulo, 24 de março de 2002. Caderno Mais. 

SMIT, Johanna W. Eu, bibliotecário, rg xxxxx e cpf yyyyy, trabalho em arquivo ou museu... algum problema? Palavra-Chave, São Paulo, n.8, p. 12-13, out. 1994.

 

Notas: 

(1) A Resolução do Conselho Federal de Biblioteconomia de no. 42, de 11 de dezembro de 2001 altera o antigo Código e promulga um novo que passou a vigorar a partir daquela data. Infelizmente, ainda não foi possível avaliá-lo com o tempo necessário para constatar se ele modifica os problemas por nós detectados no Código revisto.

(2) A palavra transversalidade provavelmente será muito empregada no futuro próximo, uma vez que consta como linguajar específico dos Parâmetros Curriculares Nacionais para primeiro e segundo graus. 

(Publicado originalmente em: ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Formação, formatação: profissionais da informação produzidos em série. VALENTIM, Marta Ligia Pomim (Org.). Formação do profissional da informação. São Paulo: Polis, 2002. 152p.p.133-148. (Coleção Palavra-Chave, 13). Disponível em: http://abecin.org.br/data/documents/VALENTIM_Org_Formacao-do-profissional-da-informacao.pdf)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.