ARTIGOS E TEXTOS


ESPAÇOS E EQUIPAMENTOS INFORMACIONAIS

A organização do espaço é ideológica. Essa afirmação baseará este texto todo. Outra afirmação é a de que o espaço pode ser inclusivo ou excludente. A exemplo da anterior, esta também dará sustentação às reflexões e discussões que se seguirão.

Alguns segmentos, tanto na área privada como na pública, são privilegiados. Possuem um status maior e recebem por parte de todos, um respeito e, por conseguinte, poder.

Claramente, identificamos a área financeira dentro do que acima foi descrito. Os espaços dedicados a essa área são amplos, iluminados, bem ventilados - normalmente com ar condicionado – e mobiliados com móveis confortáveis, obedecendo novas tendências de design, etc. Externamente, os prédios são  edificados de maneira a refletir o status que lhe é concedido. Pela arquitetura, pelo espaço,reforça-se o poder que exerce na economia esse segmento e, também, a ideia, conceito e respeito da população.

Do mesmo modo, os prédios das igrejas são suntuosos, com enormes pé direito; cúpulas; altares e colunas de mármores; imagens revestidas em ouro; vitrais coloridos que mancham com a luz do dia o chão e os fiéis; grandes  portas; cercados por jardins, etc. O ambiente nos torna pequenos, ínfimos, insignificantes ante a grandeza de Deus. É um espaço comunitário e coletivo, pois nos abriga, a todos, em sua amplidão, mas ao mesmo tempo, nos isola na frieza dos mármores; nos exige sacrifícios nos desconforto dos bancos e genuflexórios; nos padroniza nos cânticos repetitivos, nas rezas memorizadas, nos scripts imutáveis das missas; nos exige silêncio , consternação, seriedade na busca da interação com Deus. Os bancos onde os fiéis se acomodam são voltados para a nave principal, determinando a reverência ao altar e quase impedindo a manifestação individual que, quando acontece, torna-se praticamente anônima, uma vez que poucos identificam ou podem ver o sujeito que a origina. As relações, os cumprimentos, as conversas, os abraços dão-se ou nos momentos determinados ou fora desse espaço, ou seja, na entrada, na praça ou ainda, em outros locais especialmente destinados para esse fim.

Gilberto Gil compôs uma música (Se eu quiser falar com Deus) em que os espaços ocupam parte de suas concepções sobre Deus:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

A cultura, por seu lado, contenta-se com espaços tímidos, acanhados, adaptados – quase sempre não construídos para o tipo de expressão cultural que abriga –, com poucos ou sem recursos técnicos. O mobiliário é antigo, com muito tempo de uso, reformado. Os equipamentos culturais não estão localizados nas áreas nobres das cidades. Refletem a importância que possuem no imaginário da sociedade.

Pior: os próprios profissionais da cultura pouco reclamam, formalmente, dessa situação. Falam em criatividade como forma de contornar tal situação; contentam-se e, boa parte das vezes, agradecem pelos inapropriados espaços que lhes são concedidos – como benesses do poder público. Se reivindicam um melhor tratamento por parte dos poderes públicos, não recebem nem contam com o respaldo da população.

Importância semelhante recebem as escolas. Os prédios que as abrigam, hoje, sob responsabilidade do poder público, são mal construídos; com péssima aparência; mobiliários antigos, usados e com problemas; banheiros inapropriados para o uso, com artes interditadas – que assim permanecem por muito tempo; iluminação inadequada; salas de aula improvisadas, ocupando espaços anteriormente utilizados para outras atividades; áreas para a prática de educação física, bem como seus equipamentos, necessitando de reparos, conservação ou reformas. A disposição das carteiras de estudantes nas salas de aula nitidamente indica um modelo educacional norteado para a idéia de transferência de conhecimento feita pelo professor – que ocupa uma posição de estaque à frente da sala – para os alunos – alocados em filas, voltados para o detentor absoluto e inquestionável do conhecimento. É dessa forma que a educação é compreendida pela população, ou seja, como responsabilidade exclusiva da escola e, principalmente, do professor. Este, o sapiente, o conhecedor, deve preencher as vazias cabeças dos estudantes que, passíveis, educada e obedientemente, precisam devolver em forma de provas, de tempos em tempos, os conhecimentos assimilados (ou engolidos). O espaço da escola não prevê manifestações coletivas e mesmo as individuais são aceitas ou toleradas quando previamente aprovadas. Os professores, de seus espaços privilegiados, controlam os alunos, exigindo posturas e comportamentos entendidos como adequados, corretos e pertinentes para o ambiente escolar. Vale alertar que tais exigências em relação ao comportamento dos alunos não se restringem apenas à sala de aula, mas se estendem ao pátio do “recreio” e ao saguão de entrada. O termo “recreio”, embora antigo, permanece sendo empregado por muitos dos profissionais da educação e por alunos e pais. Aponta para a ideia de que, na escola, apenas aquele espaço – utilizado com pouca frequência e bastante vigiado – é destinado ao lúdico, ao prazeroso. As salas de aula são locais de seriedade e esta não permite as brincadeiras, ou melhor, se opõe a elas. Nos próprios cursos universitários, nas graduações, os alunos continuam designando o "intervalo" entre aulas, ou da mesma aula, como "recreio". Não há diferença para a conotação dos intervalos entre aulas, tanto para o ensino básico, o médio e a graduação.

A organização das carteiras nas salas de aula ressalta, como já visto, um modelo educacional calcado na transferência de pacotes de conhecimentos, mas, também, o autoritarismo presente nesse modelo. As pesquisas escolares – por demais discutidas e pesquisadas – são exemplos claros desse autoritarismo que se contrapõe à exigência de liberdade, base imprescindível para qualquer pesquisa. Em artigo que publiquei há algum tempo, alertei para essa dicotomia – o autoritarismo do modelo educacional e a necessidade de liberdade para o desenvolvimento de qualquer pesquisa – e a apresentei como o grande e insolúvel problema da pesquisa escolar. Tal problema só pode ser resolvido se um dos lados for eliminado ou se sujeitar ao outro. No momento, a liberdade da pesquisa se sujeita ao autoritarismo do modelo educacional vigente. Um trecho do texto pode contribuir para as discussões aqui apresentadas:

Ora, há um conflito então, entre o modelo de educação em sala de aula e a pesquisa. São elas incompatíveis. A pesquisa só se sustenta se a educação privilegia a liberdade do conhecimento, a participação ativa e efetiva do aluno (englobando seus espaços de vivência – casa, amigos, comunidade, etc.) no processo educacional. O que vemos hoje é, enfatizando: o saber está com o professor e com os livros; ao aluno cabe assimilar e reproduzir esse conhecimento; a educação acontece apenas em sala de aula; o processo pedagógico é neutro; apenas a escola é responsável pela educação.

Assim, a incompatibilidade entre o modelo de educação vigente e o conceito de pesquisa só será superado se um dos dois se adaptar ou for apropriado pelo outro. Atualmente, a liberdade da pesquisa está presa e se submete ao autoritarismo do modelo educacional (modelo esse, cumpre lembrar, que é também assumido pelas bibliotecas, quer públicas, quer escolares). (ALMEIDA JÚNIOR, 2006, p.103)

Os laboratórios das escolas são mais bem equipados, estão alocados em locais adequados que respeitam as características exigidas por cada um deles. Recebem um tratamento que denota a importância que lhes é dada pela sociedade, incluindo os professores, alunos e pais de alunos. Prova disso são as propagandas de escolas particulares, que destacam a presença de laboratórios como um diferencial positivo de ensino. Tal importância baseia-se na concepção de que os laboratórios, como espaços voltados para o treinamento, para a “prática”, preparam os alunos para a vida profissional, para a concorrência, para a competição do mercado, ao contrário do ensino entendido como “teórico”, humanista, que apenas se interessa pela formação do “cidadão”. Tanto os pais como os alunos esperam que a escola estruture seu ensino visando atender às exigências e demandas do mercado ou, ao menos, dos vestibulares.

Há pouco, em uma notícia no Jornal Folha de São Paulo (de 25 de janeiro de 2011), a jornalista, em visita à Biblioteca Monteiro Lobato, biblioteca infanto-juvenil situada na cidade de São Paulo, informava que não havia nenhum usuário nas dependências da biblioteca, exceto no espaço dedicado ao Telecentro. Tal espaço abriga computadores conectados à internet, permitindo, entre outras coisas, o acesso ao mundo virtual.

Quando nas escolas há falta de salas de aula para atender um súbito (ou não tão súbito) aumento do número de alunos, desaloja-se a biblioteca de seu espaço, transformando-o em sala de aula improvisada. Vale afirmar que, dentro das características das salas de aula atuais, qualquer lugar, mesmo com pequena metragem, pode ser facilmente transformado em uma delas. É evidente que a transformação da biblioteca em sala de aula ou simplesmente o seu fechamento, denota a importância que lhe é atribuída dentro do processo de ensino/aprendizagem, por todos os personagens que dela fazem parte, com exceção, lógico, do bibliotecário e dos que atuam nas bibliotecas.

É notório o fato das bibliotecas serem consideradas meros depósitos de livros, cuja existência e razão de ser é desconhecida ou compreendida como desnecessária nas escolas. A figura do bibliotecário reflete essa posição: não há necessidade de uma formação específica, pois os serviços prestados não vão além de empréstimos de livros ou a permissão – controlada e em horários não necessariamente coincidentes com os das aulas – de consulta de materiais no espaço destinado à biblioteca. Dessa forma, professores podem exercer esse cargo, sem nenhum preparo específico, mesmo que rápido e superficial. As atividades desenvolvidas nas bibliotecas confundem-se com as da sala de aula. A biblioteca não passa, dentro dessa concepção, de mero apoio aos trabalhos educacionais. Tal postura advoga a idéia de que a educação ocorre apenas em sala de aula. Limita-se ao conhecimento individual do professor e é dependente de sua atualização, de seu esforço e preparo. Corrobora tal postura, com a conhecida frase veiculada em tom irônico e como crítica a esse entendimento restrito e limitante da educação: “para um bom ensino, basta cuspe e giz”.

As salas de aula são prioritárias no planejamento arquitetônico das escolas ou nas mudanças decorrentes de necessidades momentâneas e urgentes. O mesmo não ocorre com a biblioteca. Muitas escolas têm seu funcionamento aprovado e iniciado sem um espaço para a biblioteca. O pior é que os responsáveis nem mesmo percebem essa falta.

A biblioteca escolar, quando existe, é também utilizada como local de castigo, de cumprimento de sanções. O aluno com um comportamento considerado inadequado pelo professor e pela direção da instituição de ensino, é enviado – acredito que com menor frequência do que há algum tempo – para a biblioteca. É impossível acreditar que a imagem da biblioteca para o aluno que a ela foi encaminhado para cumprir um castigo, possa ser a de um local agradável, prazeroso, encantador, simpático. Nenhum castigo pode ser agradável, pois, se o fosse, não seria, evidentemente, um castigo. Se a biblioteca é o destino do aluno que transgrediu normas e regras e deve sofrer sanções por isso, não deve ser ela um local, nem deve ter atividades agradáveis, diferentes das relacionadas a castigo. Os profissionais que nela atuam, terão suas imagens relacionadas, provavelmente, a carrascos pois são eles os “executores”, os supervisores dos castigos.

O espaço, neste caso, foi relacionado à algo desagradável e provavelmente permanecerá dessa forma dentro do conceito de biblioteca entre os que para ela foram encaminhados para cumprir os castigos impostos. Do mesmo modo, dado que à biblioteca vincula-se o livro e a leitura, são estes também “agraciados” com o mesmo conceito.

Trabalhei como bibliotecário em uma biblioteca universitária – entre outras atuações ao longo de minha vida profissional. A diretoria planejava transferir a Faculdade (à qual estava vinculada a biblioteca) de um local próximo ao centro novo de São Paulo para um terreno localizado junto a uma rodovia. Infelizmente, ao final, a transferência não se concretizou. A empresa de arquitetura contratada para elaborar o projeto do novo campus, manteve contato com vários departamentos, além, é claro, da diretoria e dos responsáveis diretos pela transferência. Participei das discussões relativas ao prédio da biblioteca. Levamos (pois alguns funcionários participaram dessas discussões) para a primeira reunião exigências calcadas no entendimento que tínhamos dos objetivos e das atribuições de uma biblioteca universitária. Baseados no tripé: ensino, pesquisa e extensão, propúnhamos um esboço que atendesse a esses segmentos. No entanto, a proposta do arquiteto responsável pelo projeto nos encantou, a mim e a outra bibliotecária que participou da reunião, pois além de acatar nossas exigências trazia uma postura e um entendimento da biblioteca mais abrangente do que a nossa. Dizia ele que a biblioteca deveria ficar no meio do campus, no centro do terreno da Faculdade. As salas de aula, os departamentos de ensino, os laboratórios, a parte administrativa deveriam circundar o prédio da biblioteca, pois esta, em seu entender – e no entender que passei a adotar a partir de então –, é o pulmão de qualquer instituição de ensino, em especial as de terceiro grau, as universitárias. É a biblioteca que oxigena o conhecimentos dos professores e alunos; é ela que medeia o espaço da faculdade com o mundo do conhecimento, da informação. A educação, assim, não existe sem a biblioteca, não pode prescindir da biblioteca.

O espaço por ele proposto reflete esse pensamento, deixa claro o conceito e a concepção de biblioteca no âmbito acadêmico, universitário.

Caminhando em sentido contrário, muitos cursos de EAD – Educação à Distância – pouco se preocupam com a biblioteca virtual (ou eletrônica ou, ainda, de acesso online). Notícias veiculadas pela mídia impressa e televisiva nos informam de cursos suspensos por apresentarem problemas, entre eles, bibliotecas inadequadas, inexistentes ou desrespeitando direitos autorais das obras armazenadas. O espaço virtual possui uma linguagem própria, diferenciada. Mas, deve-se perguntar: tal espaço vive sem a biblioteca? Não parece ser o caso, pois há, já de algum tempo, uma grande preocupação da área com a organização e implantação de bibliotecas virtuais. No âmbito da pós-graduação, por exemplo, exige-se que as dissertações de mestrado e teses de doutorado apresentadas e defendidas nos inúmeros Programas de Pós-Graduação existentes no Brasil, devem ser disponibilizadas para acesso de interessados em bibliotecas virtuais mantidas pelas instituições responsáveis por esses programas.

A biblioteca pública é, quase sempre, localizada nos centros das cidades. Alguns prédios em que são alojadas, são históricos, imponentes, contrastando com um acervo desatualizado, antigo, muitas vezes empoeirado e pouco utilizado. Móveis antigos, estantes altas e abarrotadas, dão um ar lúgubre, não hospitaleiro, desagradável. O usuário, mesmo que inconscientemente, transfere esse ambiente para as atividades desenvolvidas nesse espaço, para a figura do bibliotecário, para os materiais armazenados. Seriam eles – profissional, atividades e materiais – tão lúgubres, tão hospitaleiros e desagradáveis quanto esses espaços.

Em 1994, preocupado com a mesma temática deste texto, publiquei parte de minhas reflexões da época. Um trecho, creio, pode contribuir com as atuais reflexões:

Historicamente o espaço da biblioteca pouco foi alterado. Desde Nínive (a biblioteca reconhecida hoje como a mais antiga), no século VI ou VII a.C., até as bibliotecas atuais, a estrutura espacial, bem como a organização e a disposição interna, sofreram pequenas mudanças. Tais mudanças ocorreram muito mais pelas transformações das técnicas empregadas pelas bibliotecas, do que por concepções quanto a função e objetivos dessa instituição. (ALMEIDA JÚNIOR, 1994, p.2)

Outros textos, publicados próximos dessa época, apresentam, a partir de situações concretas, a situação da biblioteca e como lidava ela com os interesses e necessidades dos seus usuários. Destaco dois desses textos, por considerá-los exemplares quanto ao momento vivido pelas bibliotecas e que, talvez, não tenha mudado tanto quanto gostaríamos, nós que nos preocupamos em especial com a biblioteca pública.

O primeiro texto é de Ezequiel Teodoro da Silva:

Cruzei a Avenida Rio Branco aos pulos, pois chovia muito. Subi as escadarias da Biblioteca Nacional feito um relâmpago. Cheguei ao guichê de entrada onde limparam-me de todos os meus pertences, sendo que, para conseguir um crachá de acesso, tive de apresentar a minha carteira de identidade a uma das atendentes. Até aí tudo bem, mesmo passando por suspeito até segunda ordem...

Rodei a catraca da porta de entrada, onde, do lado de dentro, se postava uma velha senhora com os braços cruzados. Perguntei-lhe em que lugar eu poderia me sentar a fim de terminar de escrever o meu texto. Sem nada dizer, ela lentamente ergueu o braço direito indicando-me uma das portas que dava para a sala de leitura no andar térreo. Já com um pouco de frio (a temperatura caíra drasticamente naquela manhã) e com a camisa meio molhada (não pude evitar a chuva), segui rapidamente na direção da porta indicada - eu queria terminar o texto da conferência o mais rápido possível de modo que me sobrasse algum tempo para admirar a arquitetura da maior e mais famosa biblioteca brasileira.

Quando adentrei a sala de leitura - imensa... e com apenas alguns gatos pingados distribuídos individualmente pelas mesas -, começou o inferno... 'Psiu, psiu! Onde o senhor vai?', surpreendeu-me uma senhora sentada logo atrás da porta e cuja fisionomia não deu para perceber muito bem. Expliquei-lhe que desejava terminar de ler e escrever um texto para cumprir um compromisso. Ela deu com a cabeça de lado e continuei seguindo em direção a uma das mesas. 'Psiu, psiu! Vem aqui senhor...' - era uma segunda senhora que, atrás de um balcão, me chamava com o dedo para perto de si. Repeti-lhe o objetivo de minha visita, mostrei-lhe as folhas do manuscrito da palestra, apresentei-lhe minha identificação de pesquisador e professor da UNICAMP etc., mas ela, com um cenho de pequena autoridade, exclamou secamente que ali eu não poderia ficar, pois se tratava de um local de consulta. Ia dizer-lhe que consultaria o meu próprio manuscrito, mas de pronto desisti desse propósito em função da feição feia e mumificada que eu tinha pela frente. Joguei os meus braços para cima e, frustrado, com o rabo entre as pernas, saí da sala...

Cruzei o salão central, olhando de esguelha as fotos de uma exposição que havia no local. Em frente, do lado oposto, uma outra sala - quem sabe ali encontraria um pouco mais de solidariedade, pelo menos até que a chuva lá fora tivesse passado. Porém, no meio do caminho, a porteira (aquela que há pouco me indicara a sala) me fez parar e perguntou o porquê do meu retorno tão rápido ao salão. Novamente lhe contei toda a história e perguntei se poderia usar a sala em frente para terminar de rever o meu texto. (Quem sabe... um pouco de compreensão... estava chovendo la fora...)

'Para entrar com seu material e escrever lições, você tem que ir para uma outra biblioteca que fica a uns três quarteirões daqui. Aqui não pode escrever texto, só consultar!'". (SILVA, 1991, p.97-8).

A biblioteca pública, na visão da atendente, tem uma razão de ser: a consulta (e, com certeza, o empréstimos de materiais). Para mais do que isso, talvez exista um outro espaço melhor adequado.

O segundo texto é de Antonio Agenor Briquet de Lemos. Embora mais antigo, lida com a mesma temática:

Peço-lhes que formem em suas mentes a seguinte imagem. Estamos no salão de uma biblioteca pública municipal. Numa cidade nova, fundada há cerca de quarenta anos, capital de um Estado em acelerado crescimento. Nesse salão de leitura encontram-se umas duas dezenas de jovens, estudantes do primeiro e segundo graus. À direita, numa sala separada por um balcão, acham-se dispostas estantes de livros, vigiadas por atentos servidores. Os leitores não têm livre acesso às estantes. À esquerda, na sala de trabalho dos funcionários, o catálogo da biblioteca. Os leitores não têm acesso ao catálogo. Os estudantes disciplinada e mecanicamente, copiam de esfrangalhadas enciclopédias as suas 'pesquisas', com o indicador esquerdo percorrendo as linhas do texto enquanto a direita transcreve os passos considerados relevantes. Mãos e braços movem-se com a articulação de um pantógrafo. As mentes estão distantes. No centro do salão, dominador, mas desleixadamente sentado no canto de uma mesa, um guarda de segurança, uniformizado e apetrechado, impõe respeito à integridade dos livros utilizados, enquanto a mão direita repousa, ostensivamente, sobre o cabo do revólver no coldre pendente da cintura. Todos os que entram naquele templo do saber não podem esquivar-se dessa visão. Espaço e tempo dessa imagem: agosto de 1978. Goiânia, capital Goiás. (LEMOS, p.203-4).

De maneira geral, as bibliotecas são vinculadas ao livro e, em especial, à preservação dele. A imagem que se tem de uma biblioteca é a de um espaço com normas e inúmeras estantes repletas de livros. Quantas imagens conhecemos que privilegiam apenas a sala de leitura, os leitores? Quando isso ocorre, o usuário seria advertido com um pedido de silêncio pela bibliotecária. A figura dela, estereotipada, é de uma velha senhora, de coque, óculos na ponta do nariz, roupa antiga e formal, lendo e, por cima do óculos, fiscalizando, severa, os consulentes, esperando qualquer deslize de um deles para repreendê-lo com o dedo em riste.

O silêncio, o psiu nas bibliotecas, tem sua origem, como diz Chartier, na leitura silenciosa no início das universidades. O universitário distinguia-se dos outros pela leitura silenciosa, contrapondo-se à leitura em voz alta praticada até então. Quando, envolvido pelo livro, lia em voz alta, era imediatamente alertado para não fazê-lo, comportando-se de maneira adequada à sua condição de universitário e, portanto, parte da elite. A postura exigida dele era a de um comportamento diferenciado. O pedido exagerado de silêncio indicava que a relação com a cultura deve se dar de maneira individual. Cultura, no caso, deve ser entendida como sinônimo de erudição. O saber, o conhecimento, é adquirido individualmente, isoladamente com o livro, com a leitura. Os próprios bibliotecários proíbem ou, no mínimo, pedem silêncio para os grupos de alunos que, teimosamente, insistem em conversar, discutir, debater, trocar idéias e impressões. Essa não seria para os bibliotecários a forma correta de se adquirir cultura, conhecimento.
As relações com o conhecimento, com o saber devem se dar em um lugar silencioso, calmo, indicando uma concepção do conhecimento e da informação, como algo passivo, não revolucionário, pouco transformador. O conhecimento está vinculado aos espaços do ensino e da ciência. Longe, portanto, das pessoas, do povo. Este possui um saber, um mero saber que não pode ser identificado com o conhecimento.

A relação do livro com a verdade, das experiências científicas com a verdade, apontam para a necessidade do registro, do impresso, do gravado, do grafado para que algo possa ser aceito. A fala, o oral, não sustenta a verdade, a não ser que, simplesmente, reproduza o registrado.

Os espaços preservam os suportes e, estes, o conhecimento tido como verdadeiro, o conhecimento dominante, o conhecimento dos dominantes.

Sendo as cidades barulhentas, o espaço da biblioteca deve ser lugar de repouso, quietude, silêncio. Nas ruas não conseguimos lidar com a leitura. O leitor, assim, está deslocado do cotidiano, do dia-a-dia. Ele precisa de refúgios, de “spas” do conhecimento, de retiros. Como o tempo é escasso, ou aprende-se a ler envolvido nos barulhos ou o leitor tende a desaparecer. A leitura não teria lugar num mundo em que o barulho é a tônica.

As bibliotecas também são vistas como o espaço das normas, dos regulamentos, das proibições. Bebidas e comidas são vetadas: podem sujar, estragar os livros. Bolsas e pertences pessoais devem ser deixados no guarda volumes (controlados por funcionários da biblioteca ou não). Uma ideia tão antiga associa-se a denominação que ainda persiste em muitas bibliotecas e preservada pelos bibliotecários que nelas atuam: "chapelaria". Talvez o próprio conhecimento pessoal deve ser deixado do lado de fora, na porta da biblioteca. Esta abriga a verdade.

Materiais não podem ser levados ao banheiro. Livros são emprestados apenas para os associados. Devoluções em atraso acarretam sanções (multas ou suspensões), mesmo que o material nunca tenha sido utilizado antes. Cotovelos sobre o livro; marcadores de livros muito grossos; dobrar páginas; puxar livros pelo alto da lombada; corrigir deformações (rasos, cortes, etc.) com fita adesiva ou produtos semelhantes; uso de dedos umedecidos com saliva para virar páginas; todas são ações repudiadas e constantes de regulamentos ou cartazes expostos nas bibliotecas. Fazem parte também de campanhas educativas visando a diminuição da depredação de materiais.

De igual importância que os itens anteriores, para as bibliotecas, é o emprego de códigos e tabelas, a ordem do saber, números quase indecifráveis para o usuário, ordem que se apresenta como a única, a verdadeira organização do conhecimento humano.

A ordenação dos materiais, hoje, na maioria das bibliotecas, realizada de maneira relativa, acompanhando o sistema de classificação adotado, ocorria, antes, atendendo a chegada do material e um arranjo fixo nas estantes. Mas, nos tempos em que a Igreja dominava e determinava os destinos do conhecimento humano, a ordenação dos materiais dava-se pela importância, algo como: primeiro a Bíblia, em seguida, os textos teológicos ou a vida dos Santos, em seguida os textos laicos, mundanos. O espaço, a localização determinava a importância dos materiais.

As normas da ABNT relativas à documentação, resumos, citações, referências bibliográficas; o Controle Bibliográfico Universal; o ISBN, o ISSN enfim, normas vinculadas à biblioteca e que a apresentam como o espaço do controle.

O Serviço de Referência se utiliza de mesas para o atendimento dos usuários. As mesas representam o poder daqueles que, donos delas e sentados aguardando os que necessitam de ajuda, mostram-se os decifradores dos códigos e normas para o acesso ao saber. A própria forma física da mesa demonstra esse poder. As mesas são construídas direcionadas para as necessidades de quem nelas trabalham. Não há preocupação em seu designe, com os usuários, aqueles que pouco tempo a utilizarão. Assim, o espaço para as pernas só existe em um dos lados, o do funcionário. A acomodação do usuário é difícil e demonstra que esse não é o seu lugar, demonstra que ele deve permanecer nesse lugar o mínimo possível.  

Hoje, mais do que o ambiente físico das bibliotecas, utilizamos um outro conceito: a ambiência. Esta extrapola o espaço físico e alcança os locais em que sua ação se faz presente e recebe influência. Lidando com o ciberespaço, a partir de sites, blogs, etc., o equipamento informacional consegue influir não só nos acessos remotos ao seu acesso, como também nos próprios pontos remotos de acesso, ou seja, os serviços prestados abarcam informações localizadas internamente – acesso físico ou virtual – como externamente, servindo neste último caso como intermediária no processo de pesquisa. O espaço dos equipamentos informacionais, dessa forma, é ampliado tornando-se não mais apenas físico, mas um espaço virtual. Deixa de ser um “ex-passo” para ser nômade, itinerante, apesar de possuir uma, digamos, base operacional física e fixa.

A informação é subjetiva, portanto não-física; a pesquisa, da mesma forma, apesar de se concretizar – não necessariamente – ao final, o faz como um processo não-físico. O espaço informacional, assim, mesmo tendo uma base fixa, a extrapola, navegando qual naves espaciais em espaços desconhecidos e convertendo-se em alicerces momentâneos para os que se aventuram nessas diferenciadas paragens, paisagens, horizontes.

Ignácio Ramonet discute o ciberespaço e afirma que sua existência levou à sua colonização. Se há espaço, a ambição por possuí-lo, por dominá-lo, por ser seu dono, parece ser inexorável. O imperialismo desloca-se dos países para as empresas multinacionais (cada vez  com mais tentáculos e amplas áreas de interesse e domínio conseguidas pelas constantes fusões) e dos espaços concretos para os virtuais. 

A "fratura digital" e as disparidades sociais provocadas pela era da eletrônica podem ser comparáveis às desigualdades resultantes dos investimentos financeiros transnacionais. Quanto às forças econômicas que tomaram conta das redes, estas estão se generalizando, e pior, estão reforçando os obstáculos que impedem o acesso ao comum dos mortais.

Nos países pobres, nada menos que 26 companhias de telefonia foram colocadas a venda ao longo dos três últimos anos. A norma global do futuro é a propriedade privada de todas as estruturas que constituem a plataforma do ciberespaço. (RAMONET, 2001?, p.41)

O espaço informacional tanto pode congregar e incluir como isolar, marginalizar e excluir.

Ele é excludente quando limita e restringe acesso aos que não possuem uma “iniciação”. Aos analfabetos é negada a apropriação das informações registradas na forma escrita. Equipamentos informacionais que apenas armazenam materiais nesse formato condenam os analfabetos à condição de não usuários. Vale lembrar que os não usuários são aqueles que não possuem as condições básicas para usufruir, efetivamente, do que pode oferecer determinados suportes. Diferencia-se do usuário real (que faz uso efetivo) e do usuário potencial (aquele que não se interessa pelos suportes em decorrência de vários motivos, mas que tem as condições básicas para usufruí-lo.

A localização do equipamento informacional também é uma forma de exclusão. Os usuários que residem em regiões distantes à esse local, dependem de transporte para alcançá-lo. O custo desse transporte, em boa parte das vezes, é proibitivo para muitos usuários e inviabiliza o seu deslocamento e consequente utilização daquele equipamento. A defesa de que a centralização favorece o acesso de todos é falsa na medida em que o centro das cidades não é ocupado pelas classes populares, sendo estas “empurradas” para a periferia, cada vez mais distantes do centro e local pouco atendido quanto ao saneamento. As propostas de políticas culturais baseadas na descentralização das ações, incluídos os equipamentos culturais e informacionais, fazem parte tão somente dos governos mais comprometidos com as causas e interesses populares.

Outra forma de exclusão é a aura elitista que envolve boa parte das expressões artísticas, aquelas consideradas de “repertório alto”. A maior parte da população estaria alijada de seu usufruto, na medida em que não possui referenciais culturais para compreender suas manifestações. Acrescente-se a isso a veiculação no âmbito tanto de posturas adequadas ante uma música erudita (o enlevo, o silêncio, a seriedade, os aplausos nos momentos certos), uma pintura ou escultura (a observação demorada, minuciosa, a busca por ângulos mais propícios, o conhecimento das técnicas empregadas, da biografia do autor e das características da escola ou corrente abraçadas por ele), uma ópera (o ouvido afinado com o canto lírico, a compressão da história, mesmo sendo ela apresentada na língua original, não dominada pelo público). Para as classes populares estão destinadas as expressões folclóricas que prescindem de espaços próprios para se realizarem.

A cultura do povo é identificada com o folclore. Deve ela, cultura, ser preservada para não desaparecer. A cultura do povo é a do passado; quem faz cultura hoje são as classes dominantes, as elites, que determinam os destinos da humanidade.

O espaço da biblioteca identifica-se com a verdade e a história dos dominantes, as reproduz e possibilita a manutenção do poder deles. A biblioteca não é neutra ou imparcial. Seu espaço é ideológico e reflete suas concepções, suas ideias, seu modo de entender e explicar o mundo. Como estruturada atualmente - acompanhando o que ocorreu em toda sua história - a biblioteca é excludente e seu espaço comprova e evidencia essa característica.

Para alterar, modificar ou transformar tais posturas, é preciso pensar e analisar suas propostas, suas estruturas, a forma como lida com a informação, os tipos de suportes com os quais trabalha, as técnicas que emprega para organizar o conhecimento, o modo como entende e atua com seus usuários e, também, precisa repensar seus próprios espaços.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. O espaço da biblioteca: uma reflexão. Ensaios APB, n.13, 1994.

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Pesquisa escolar: entre o modelo educacional e a liberdade da pesquisa. In: SILVA, Rovilson José da; BORTOLIN, Sueli (Org.). Fazeres cotidianos na biblioteca escolar. São Paulo: Editora Polis, 2006. p.97-103.

LEMOS, Antonio Agenor Briquet de. A biblioteca pública em face da demanda social brasileira. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v.12, n.3/4, p.203-10, jul./dez. 1979.

RAMONET, Ignacio. A colonização do ciberespaço. Diplô: cadernos. São Paulo, n.1, p.38-41, 2001?.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. Bibliotecas públicas e escolares face à estrutura e conjuntura nacionais. In: ________. De olhos abertos: reflexões sobre o desenvolvimento da leitura no Brasil. São Paulo : Ática, 1991. p.96-108.

 

(Publicado originalmente em: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Espaços e equipamentos informacionais”. In: BARBALHO, Célia Regina Simonetti et al. (Org.). Espaços e ambientes para leitura e informação. Londrina: ABECIN, 2012. 238p. p.11-32.)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior
Fonte: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Espaços e equipamentos informacionais”. In: BARBALHO, Célia Regina Simonetti et al. (Org.). Espaços e ambientes para leitura e informação. Londrina: ABECIN, 2012. 238p. p.11-32

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.