ARTIGOS E TEXTOS


BIBLIOTECAS POPULARES

O tema desta palestra é Bibliotecas Populares. Na verdade, pretendo partilhar com vocês um pouco das minhas reflexões a respeito do assunto e que vão gerar, com certeza, um produto acadêmico, uma dissertação de mestrado. A intenção é que esse produto, essa tese, possa ter uma utilização prática além de, e principalmente, colaborar com os bibliotecários nas reflexões sobre a biblioteca pública. Não é meu intuito, portanto, apresentar algo acabado, pronto, inalterável. Parto do pressuposto de que inexiste a verdade absoluta e que todos os itens e tópicos aqui expostos são passíveis de críticas e representam uma forma de interpretar a realidade. No entanto, acredito que as ideias aqui apresentadas devem merecer um pouco da atenção de vocês. Quase sempre procuro, nas palestras em que sou convidado a proferir, enfatizar a importância do assunto e, hoje, em vista dessa insistência - que não é minha exclusivamente -é possível notar que o tema Bibliotecas Populares começa a adquirir espaço entre as preocupações dos profissionais bibliotecários.

O meu interesse pelo tema é antigo: ele surgiu a partir das análises de vários textos da nossa área que abordavam a biblioteca pública, além de depoimentos, palestras etc., de bibliotecários que atuavam - e muitos ainda atuam - em bibliotecas públicas. Alguns conceitos e ideias invariavelmente se sobressaem (eu passo a usar o verbo no presente, pois nada ou quase nada se modificou). Quais eram esses conceitos e essas ideias?

1) a biblioteca - e o bibliotecário, evidentemente - é apolítica, neutra. Nunca interfere, ou não deve interferir, no processo de busca de informações, na pesquisa propriamente dita.

2) o livro é bom por si mesmo; o livro é intrinsecamente bom e melhor que qualquer outro produto cultural.

3) a biblioteca é importante e necessária para a comunidade e só esta, a comunidade, é que ainda não se apercebeu desse fato.

4) a biblioteca está aberta para quem dela quiser fazer uso, não importando raça, cor, credo, convicções políticas, classe social etc.

5) o objetivo máximo da biblioteca pública é democratizar a informação.

Acho que não estou abordando nada que já não seja do conhecimento de todos. Essas ideias a respeito da biblioteca pública e dos profissionais que nela trabalham, são por demais conhecidas, constantemente repetidas e aceitas por grande parcela dos bibliotecários. Outras ideias, que a exemplo das anteriores estão quase que institucionalizadas em nossa área, poderiam ser lembradas, mas acredito que esses 5 pontos são suficientes para nossa reflexão.

Essas ideias são pressupostos que norteiam a atuação nas bibliotecas públicas. A análise delas, no entanto, evidenciam um descompasso entre as ideias e as práticas. Se não, vejamos:

1) a biblioteca é neutra. Nada mais inconcebível do que acreditar na neutralidade da biblioteca e do bibliotecário. Os argumentos que tentam provar essa tese fundamentam-se no fato de que, nas bibliotecas, os suportes da informação - o livro principalmente - estão dispostos nas estantes sem qualquer restrição e sem que nenhuma corrente do pensamento humano esteja privilegiada. Outro argumento é que a biblioteca, por trabalhar com a cultura (no sentido de erudição) e com uma ampla gama do conhecimento humano, está acima das intempéries e das mesquinharias políticas e sociais do cotidiano. O livro é o alimento da alma, do espírito. E o espírito é puro e neutro. Ele, espírito, permanece no mesmo estado em que por Deus foi criado. Quem peca é o corpo que está em contato direto com a realidade, a mercê das tentações de um demônio chamado mundo. Se o livro é o alimento do espírito e o espírito é neutro, logo o livro é puro, neutro e, nele, está presente a verdade. O livro reflete a verdade e esta, por ser entendida como única, não admite contradições, não admite parcialidade, sob pena de apoiarmos o erro, o pecado. Entretanto, parece-nos que nossa análise deve trilhar outros caminhos.

Nosso acervo é formado por livros que a indústria editorial acha conveniente - conveniente sob o aspecto comercial, sob o aspecto do lucro. Um livro só é editado quando as editoras o entendem como vendável, com mercado certo. Assim, eles não refletem todas as correntes do pensamento, pois nem todas são vendáveis. A própria linguagem com que o livro é escrito, não é a linguagem com que a maioria da população se comunica. Os livros só são editados quando se utilizam da linguagem padrão, da norma culta. Dessa forma, a própria constituição do nosso acervo já é parcial. Além disso, a disposição dos livros nas estantes forma um discurso, discurso específico daquela biblioteca e originado pelo modo como os bibliotecários que trabalham naquela biblioteca entenderam e classificaram aquelas obras. Portanto, um discurso parcial que, absolutamente não é neutro. Ainda mais: nenhuma biblioteca, principalmente as nossas, possuem todos os livros. É evidente que não existe verba para isso. Somos obrigados a selecionar o material que será adquirido. Mesmo que, pensando na comunidade, nós selecionamos baseados no que imaginamos ser o interesse e as necessidades da comunidade que atendemos. Os livros doados, que aceitamos contentes e prazerosamente, refletem a escolha e o interesse de uma pessoa, pessoa essa que não tem vínculos e nem deve pensar - pelo menos no tocante aos seus próprios livros - nem deve pensar na comunidade em que está inserida. A biblioteca não foi, não é e nunca será neutra. Ela é intermediária entre a necessidade e a informação. E mesmo quando se utiliza de instrumentos como apoio para essa intermediação - instrumentos parciais, diga-se de passagem - mesmo assim, as ideias do conjunto dos bibliotecários que nela atuam estão presentes. Quando se diz que a biblioteca deve modificar a vida do cidadão, quando se imagina que ela possui características que permitem a transformação das pessoas, é bom lembrar que nada se modifica a partir da neutralidade e da ideia de que somos predestinados e inaptos para interferir.

A 2a. ideia é de que o livro é intrinsecamente bom e a 3a. é que a biblioteca é importante para a sociedade. No primeiro caso - o livro ser bom por si mesmo -, para não me alongar, basta lembrar como qualquer um de nós se arrepia quando alguém diz que só lê Sidney Sheldon ou qualquer outro autor cujos livros são meramente comerciais. E o salto para as obras de lastro? E o salto que, dizem, forma o verdadeiro leitor, para as obras clássicas? Ou, ainda, será que essas obras definem e instituem o verdadeiro livro, a estética literária verdadeira?

Partindo para a discussão da outra ideia, também arraigada no seio da classe bibliotecária, de que a biblioteca é necessária para a comunidade, como podemos explicar a falta de usuários? Como podemos explicar que trabalhamos quase que exclusivamente para os estudantes, principalmente aqueles que nos procuram para realizar pesquisas que nada mais são do que meras cópias de enciclopédias? Será que, ao invés de colocarmos toda a culpa no pobre usuário, não seria interessante nos questionarmos sobre nossa atuação? Será que nós estamos oferecendo para a comunidade aquilo que ela realmente necessita? Será que não estamos fazendo tudo errado?

Aproveitando o mote, convém lembrar as outras duas ideias presentes na literatura bibliotecária e nos depoimentos de nossos colegas: a biblioteca está aberta para qualquer pessoa e nosso objetivo maior é democratizar a informação. Só para ajudar nossa memória: quase 30% da população é analfabeta. Analfabeta mesmo. Quando muito, reconhecem o símbolo da Coca-Cola e o plástico do Collor e do Maluf. Alguns agora até o do Afif. Isso significa, em números absolutos, mais de 40 milhões de pessoas. A revista Imprensa, com base em dados do IBGE e de pesquisas efetuadas pelo SBT, calcula em 45% o número de alfabetizados que apenas conseguem escrever o próprio nome - assinar - e ler engasgando, pulando, soletrando (sem ser de "carreirinha" como diria o Sassá Mutema). Esses também não leem. Somando, para quem perdeu a conta, temos 75% da população, ou seja, aproximadamente 105 milhões de brasileiros. Dos 25% restantes, quantos realmente têm interesse pela leitura? Quantos possuem o hábito da leitura? Talvez, com otimismo, 5% da população, meros 7 milhões de pessoas que nada significam dentro de um universo de 140 milhões.

O que resta à biblioteca e ao bibliotecário? Duas opções: ou continuamos a atender apenas a esse grupelho de pessoas que sabem e têm como hábito a leitura - e se optarmos por essa atitude devemos esquecer por completo essa mentira, essa lorota, essa farsa, essa balela de biblioteca como local de democratização da informação - ou, ao contrário, passamos a privilegiar a maioria da população, os "carentes de informação", os 130 milhões de habitantes. Neste caso, é provável que a população comece a reconhecer no bibliotecário, um profissional útil socialmente e a biblioteca como instituição necessária. Mas, para isso, é preciso alterar, modificar, transformar os trabalhos e a própria atuação da biblioteca. Como? Como é possível fazer isso? Quais são os caminhos para isso? Eis o verdadeiro problema; eis a verdadeira e problemática questão.

Creio que a maioria dos bibliotecários que estão aqui hoje não desconhece que a biblioteca pública com serviços aos usuários de forma sistemática, nasce no século XIX. Até então, seus objetivos vinculavam-se exclusivamente aos "eruditos". A partir dessa época, um outro objetivo vem se juntar ao anterior: o da educação, principalmente a educação continuada (ou deveria se juntar). Desde então, outros objetivos foram sendo acrescidos àqueles, mas a qualidade - se é que podemos chamar assim - de aparelho ideológico de estado sempre esteve presente na atuação da biblioteca. Mantivemos sempre o caráter de reprodutores da ideologia dominante. Estivemos, mesmo sem aceitar conscientemente, ao lado das classes que detêm o poder, sem fazer uso desse poder, sem mamar em teta nenhuma, ao contrário, amargando a condição de entidade esquecida e relegada. Mas, colaboramos constante e ininterruptamente para a manutenção dessas classes no poder, para a continuidade de uma situação reconhecida como opressora para as classes populares. A biblioteca pública foi se desenvolvendo, aglutinando objetivos e ampliando seus serviços, mas sempre voltada para as classes opressoras e tendo como base o livro. Não que o livro seja ruim por si mesmo, mas, e é bom reiterar, ele é inútil para a maioria da população. A informação está esquecida porque a biblioteca privilegia o suporte livro onde a informação está escondida e inatingível para as classes populares.

Outros trabalhos, temos que reconhecer, são desenvolvidos pela biblioteca pública (e que fazem parte das suas 4 principais funções: educativa, informativa, cultural e recreativa), por exemplo a educação continuada, oferecendo materiais para aqueles que pretendem, de maneira autodidata, desenvolver seus conhecimentos. Mesmo aqui o bibliotecário imprime ao seu trabalho as mesmas normas e regras da educação formal, utilizando os mesmos instrumentos que aquela. É preciso, primeiramente, saber ler e ter um mínimo de conhecimento para fazer uso, para se utilizar da biblioteca. Em suma: damos informação a quem já tem e negamos a quem não tem. Aumentamos o fosso entre os que têm e os que não têm informação. Nós estamos seguindo o exemplo da política econômica brasileira, dando renda a quem já tem e cobrando impostos de quem não tem.

A função recreativa é exercida de forma brilhante pela biblioteca, desde que, no fim, tudo recaia na leitura. O mesmo se dá com a função cultural: as bibliotecas públicas promovem inúmeros eventos. As programações das bibliotecas são vastíssimas nesse tópico: exposições, palestras, teatro, cursos, saraus, concursos etc. Não podemos esquecer as promoções que visam as festas e danças folclóricas (na pior acepção do termo). É preciso manter a tradição, preservar, de forma inalterada, os valores da comunidade. A cultura aqui entendida apenas como manifestação artística e a política cultural como eventos. Eventos desconexos, não relacionados entre si, sem objetivo outro que não o de propiciar o próprio evento. São promoções que permitem e visam apenas o consumo. Nada de produção cultural. E aqui vale ressaltar que essas atividades, as propostas de consumo nelas existentes, são idênticas aos dos meios de comunicação de massa que nós não nos cansamos, embora apressadamente, de repudiar.

E a função informativa? Nos países desenvolvidos, com destaque aos Estados Unidos e Inglaterra, existem - e faz muito tempo - os chamados "Centros Referenciais". O que são eles? Dentro da biblioteca pública, em trabalho conjunto com outras entidades, um setor que pretende fornecer para a população, informações que respondam a necessidades do dia-a-dia, do cotidiano. Esse trabalho em nossas bibliotecas deveria ser prioritário: - onde se consegue uma carteira de identidade?; - quando, como e onde eu devo me alistar para o serviço militar; - qual o percentual de aumento de aluguel para este mês; - onde eu posso conseguir uma assessoria jurídica gratuita; - onde eu posso reclamar contra a padaria que está vendendo o leite mais caro do que o permitido; ou o açougue que vende carne estragada; ou contra o ônibus que está sempre sujo e que demora a passar; - para onde devo ir ou com quem falar para tirar uma licença de ambulante; - onde reclamar de um buraco na minha rua, ou que o bueiro está entupido e pode alagar a rua na próxima chuva, ou que uma antiga árvore está sendo arrancada; - onde conseguir ajuda para educação de um filho doente mental; - como exigir meus direitos a respeito disso e daquilo, etc., etc., etc.

São inúmeras as informações que podem e devem ser prestadas para a comunidade. Estas informações mudam o caráter da biblioteca e não é necessário que o usuário saiba ler. Qualquer um pode ter acesso a elas. Um aspecto importante é que, para a concretização desse Centro Referencial, é preciso contato com entidades governamentais, mas, e principalmente, também com os movimentos organizados da comunidade. Estes, inclusive, precisam, necessitam da biblioteca como suporte de informação.

Dentro do quadro de atuação da biblioteca pública hoje e que estava tentando apresentar, surgem, como forma de protesto - mesmo que eles não saibam disto - os Centros de Documentação Popular. Ligados aos movimentos organizados da população, esses centros substituem, isso mesmo, substituem a biblioteca pública. Por quê? Porque eles procuram atender às necessidades daquela comunidade, as necessidades que não são satisfeitas e supridas pelo trabalho das bibliotecas públicas. Além de servir como memória dos movimentos populares, eles dão suporte informacional para esses movimentos, além de distribuir as informações que são de interesse daquela comunidade, de forma clara e acessível. A maioria desses Centros de Documentação Popular produzem informações, ou seja, traduzem para uma linguagem inteligível para a população, seja ela a escrita, a imagem, o som etc., o que de outra forma só seria possível através da escrita, do livro e da norma culta. Isto a biblioteca pública também pode e deve fazer, desde que apoie e tenha o apoio desses movimentos populares.

Um dado importante, significativo e sintomático: nesses Centros de Documentação Popular, não existem, na quase totalidade deles, bibliotecários. Quase todos são dirigidos por outros profissionais.

A Biblioteca Pública, quando priorizar as classes populares, as classes oprimidas; quando oferecer serviços específicos para essas classes; quando reconhecer e considerar o livro como um suporte da informação, ideal para quem lê, mas inútil enquanto recurso para a maioria da população; quando a biblioteca pública começar a veicular os interesses, as ideias, os anseios, os valores, as necessidades das classes populares, da população a quem deve atender, ela estará se transformando numa biblioteca popular e passará a ser reconhecida como útil e imprescindível  pela maioria da população. A Biblioteca Popular é a biblioteca que nós precisamos num país do 3o. mundo como é o nosso. Uma biblioteca que reflita e retrate as ideologias das classes oprimidas, geradas e mantidas por um sistema embrutecido que escamoteia a realidade através de nebulosos conceitos de ordem e progresso. Não importa o nome que se dê, biblioteca pública ou biblioteca popular, importa que a biblioteca caminhe ao lado e com a maioria da população, auxiliando cada pessoa na busca do resgate de sua dignidade e de sua condição de cidadão.

 

(Palestra proferida no Encontro de Bibliotecários do Sistema de Bibliotecas Públicas do Estado de São Paulo, em 26 de outubro de 1989)

 

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior
Fonte: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997. p.51-57.

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.