ARTIGOS E TEXTOS


A IMAGEM DO BIBLIOTECÁRIO - I

Muitos bibliotecários acreditam que aquela antiga imagem do profissional (uma velhinha, de óculos e birote, fazendo tricô etc., etc., etc.) está totalmente superada. Defendem que, hoje, o bibliotecário já é visto de outra forma, mais condizente com a realidade (?). Ficou para trás o velho estereótipo. Será? Não estarão esses bibliotecários, imbuídos de um otimismo extremado e irreal? O mais indicado, acho, é procurarmos na literatura, nos filmes, na televisão, etc., como estamos nós, bibliotecários, sendo retratados. Nossa imagem por eles veiculada, com certeza representa a maneira como somos entendidos pela sociedade.

A idéia deste pequeno texto é apresentar e comentar rapidamente, com base na concepção acima exposta, trechos de textos e imagens onde a figura do profissional bibliotecário esteja presente. Esta proposta foi iniciada no antigo Boletim APB, mas foi interrompida porque, apesar de reiteradamente solicitada, nenhuma contribuição por parte dos bibliotecários foi recebida. Espero que, agora, isso não venha a ocorrer. As contribuições, seja de trechos de livros, descrição de alguns pequenos segmentos de filmes (curta metragem, longa metragem, publicitários, etc.) ou de personagens de novelas, etc., devem ser encaminhadas para o endereço do CRB-8 que se encontra no expediente deste Boletim (Nota do Mantenedor: o texto foi originalmente publicado no site do CRB-8 Solicita-se que as contribuições sejam agora encaminhadas para o e-mail ofaj@ofaj.com.br) .

Para iniciar essa nossa (pois não é só minha) busca pela atual imagem do bibliotecário, achei interessante reproduzir um trecho de um romance policial, editado por uma conceituada editora. Além disso, o livro foi editado em 1997, correspondendo à atualidade que buscamos. Quanto a essa última informação, é preciso alertar para o fato de que o livro é uma tradução de um original inglês, com a primeira edição tendo sido publicada, de acordo com o copyright, em 1988. Este não é o momento mais adequado para se tecer algumas críticas às nossas normas, mas, já que não leio, vejo ou ouço comentários sobre elas, não posso deixar de evidenciar o quão enganosas são algumas das informações incluídas nas referências bibliográficas (pode-se incluir aqui também, alguns itens das normas para citação). Só para lançar a discussão, basta citar dois tipos de informação: a) a data de publicação de obras traduzidas ou com edições diferentes da primeira e b) a prática, pelas editoras, de empregar edição no lugar de reimpressão. No primeiro caso, quando na referência bibliográfica emprega-se a data de publicação de uma obra, normalmente não correspondendo à data de copyright, está-se oferecendo uma informação não totalmente verdadeira. Aquele que fará uso da referência bibliográfica terá a impressão de que, acessando o material referenciado, terá em mãos, por exemplo, um livro atualizado, quando, na realidade, o original pode ser muito antigo. O mesmo se dá com a tentativa, por parte das editoras, de passar a idéia de que um determinado livro publicado como 2a. edição, apesar de manter o mesmo conteúdo, é diferente da 1a. edição. Nossa tendência é afirmar que o erro é das editoras, não nos cabendo culpa ou que nada podemos fazer para resolver essa situação. Na verdade, estamos, através da omissão, aceitando, enfatizando e reproduzindo esse problema. Por que, por exemplo, a referência bibliográfica não utiliza, como norma, a data de copyright? Ou as duas datas: de copyright e da publicação? Por que incluir na referência bibliográfica o número da edição quando é ela idêntica a anterior? Bom, essa é uma discussão para outra ocasião.

No livro objeto de nossa primeira análise, o autor apresenta o profissional bibliotecário a partir de uma visão que não vai agradar boa parte de nossos colegas. O livro, óbvio, não trata de bibliotecas e bibliotecários, mas, no trecho em que a eles se refere, não poupa críticas:

“O atendimento na biblioteca pública era feito pelos funcionários carrancudos de sempre, como se fosse um departamento penitenciário. Como Zen não era associado, precisou se identificar como policial até para passar pela porta de entrada. Subiu a escada até a sala dos jornais e explicou à mulher que atendia que precisava consultar números antigos de jornais locais.

‘Preencha o formulário de pedido’, ela retrucou, sem tirar os olhos do tricô.

Não havia formulários à vista, mas um dos outros condenados explicou que poderia encontrá-lo no corredor, no andar de cima.

‘Falta o número de acesso”, disse a mulher, quando Zen apresentou o formulário preenchido. A ponta de aço da agulha de tricô mostrou um espaço vazio como a expressão de Zen.

‘Não sei o que é um número de acesso.’

‘Descubra.’

‘Não pode me ajudar?’

‘Meu serviço não é preencher formulários. Precisa olhar o arquivo de fichas.’

O arquivo de fichas ficava no porão. Zen gastou vinte minutos para localizar a seção onde se encontravam as fichas dos jornais que pretendia consultar. Como eles ganhavam números de acesso diferentes a cada mês, precisou preencher seis formulários diferentes, e para tanto teve de subir até o terceiro andar antes de escrever em todos seu nome, profissão e motivo. Duas vezes em cada um.

Conseguiu terminar às dez e meia. O tricô da mulher crescera bastante. Ela empurrou os formulários.

‘Não mais do que três pedidos de cada vez.’

Ele entregou os formulários referentes aos três últimos meses. A mulher os examinou em vão, em busca de erros e omissões. Com um suspiro relutante, largou o tricô e saiu. Assim que ela foi embora, Zen puxou o canivete e cortou alguns pontos bem no meio da peça que ela estava tricotando.

Não precisaria ter se apressado. Passaram-se mais de dez minutos até que ela voltasse puxando um carrinho com três pastas imensas, presa com fita preta.

‘Mantenha as páginas em ordem, os cadernos em suas posições, as bordas alinhadas. Não dobre, não amasse, nem arranque as folhas. Deixe em cima da mesa depois de usar’, ela disse.” (p.248-9).

O estereótipo do bibliotecário presente no texto, é o mesmo que vem acompanhando esse profissional ao longo do tempo: o tricô; a má vontade no atendimento; o excesso de burocracia; a morosidade; a falta de trabalho ou do que fazer na biblioteca; as ordens expressas em tons ditatoriais; o mau humor; a cara de poucos amigos (carranca); a idéia de que todos devem conhecer o jargão e as normas utilizadas pela área e, lógico, outros aspectos que você pode estar identificando e que não foram apresentados acima.

Já quanto à biblioteca, o autor a retrata, em outro momento de seu livro, com uma única, mas reveladora frase:

“Ele seguiu até o escritório, seu coração um manicômio tomado pelos gritos desesperados dos miseráveis, sua cabeça fria como uma biblioteca, onde homens astuciosos debatiam as táticas mais adequadas.” (p.258).

A principal constatação que os trechos reproduzidos do livro nos permite é que a visão que a sociedade possui tanto da biblioteca quanto do bibliotecário, não se alterou muito ou, para sermos mais otimistas, não se modificou para uma (grande) parte da população. Ainda somos vistos e entendidos como improdutivos, ultrapassados, guardiões apáticos do saber, etc., etc., etc.

Vale reproduzir aqui, um desabafo emocionado (válido, pois o autor é um dos poucos defensores, fora do campo da biblioteconomia, da importância do trabalho do bibliotecário no âmbito educacional) de Ezequiel Theodoro da Silva (“exteriorizado” numa palestra para bibliotecários):

“O problema da biblioteconomia brasileira está na mentalidade retrógrada de um grande número de bibliotecários, que se apresentam como pequenas autoridades: donas dos espaços públicos; reprodutoras cegas de normas esclerosadas; escravas das fichas de catalogação e de sistemas fechados de consulta; seguidoras servis dos códigos (e não dos caminhos concretos da vida); zumbis de espaços compartimentalizados; marionetes alienadas que só funcionam ao toque da burocracia, incapazes de sair dos enferrujados trilhos do tecnicismo; bedéis vivendo atrás das barreiras dos seus balcões; seres desacostumados ao diálogo; cópias carbono de totens autoritários e tocadoras da mesmice, cujo único desafio na vida é saber quando vai sair a aposentadoria para que continuem a fazer nada do nada que sempre fizeram.”

Você ficou indignado, revoltado, contrariado, pensando que todos os críticos e usuários são imbecis (pelo menos aqueles que nos escracham, apontando verdades que gostaríamos de manter ocultas) e não conseguem enxergar a importância e o valor do trabalho do bibliotecário? Essa não é a melhor atitude; essa não é a postura que estou esperando criar aqui; essa não é a atitude mais adequada para a transformação do estereótipo do profissional. Não podemos simplesmente reprovar e rechaçar como errada a imagem que a sociedade faz da nossa profissão e do nosso trabalho. Precisamos, na verdade, analisar essas críticas e verificar o que há de real nelas; precisamos descobrir os motivos que originam essa imagem, pois ela não surge do nada, ela não está baseada apenas em críticas deturpadas efetuadas por alguns autores que tiveram problemas específicos com bibliotecários e bibliotecas. Aceitar que muitas críticas são corretas; que muitos bibliotecários colegas nossos são péssimos profissionais; que a biblioteca tem sim, muitos pontos a serem corrigidos, etc., aceitarmos isso, como dizia no inicio da frase, significa dar o primeiro e mais importante passo para alterar, para modificar, para transformar esse estereótipo. Não há possibilidade nenhuma de modificarmos a imagem que a sociedade possui do bibliotecário sem, antes, nos questionarmos, racionalmente, sobre a veracidade dessa imagem, sem detectarmos os motivos para a existência dela, sem aceitarmos nossos erros.

Falta, para finalizar, referenciar o livro do qual os trechos foram extraídos (para leitura, menosprezo ou boicote, dependendo da posição de cada pessoa que leu este artigo):

DIBDIN, Michael. Nó de ratos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 (© 1988).

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Notas:

1 - SILVA, Ezequiel Theodoro da. Bibliotecas públicas e escolares face à estrutura e conjuntura nacionais. In: ________. De olhos abertos. São Paulo: Ática, 1991. p.96-108. O trecho reproduzido foi extraído da página 99.

(Publicado originalmente no site do CRB-8 – www.crb8.org.br)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.